{"id":457,"date":"2018-09-30T18:11:25","date_gmt":"2018-09-30T21:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=457"},"modified":"2018-09-30T18:15:15","modified_gmt":"2018-09-30T21:15:15","slug":"para-falar-de-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/para-falar-de-flores\/","title":{"rendered":"Para falar de flores"},"content":{"rendered":"<p>Antes mesmo da mudan\u00e7a da esta\u00e7\u00e3o, as chuvas ca\u00edram e fizeram a gentileza de entregar uma cidade verdinha \u00e0 primavera. Os gramados vicejam rapidamente, mostrando a for\u00e7a da natureza, que colore um pouquinho a vida da gente, mostrando que h\u00e1 muitas cores importantes, al\u00e9m da camisa do futebol e das bandeiras dos partidos.<\/p>\n<p>Mais um pouquinho, teremos novas cores chegando. Os ip\u00eas praticamente encerraram seu expediente anual \u2013 que ali\u00e1s foi bem adiantado este ano; as flores dos guapuruvus tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o mais no ch\u00e3o do que nas copas, mesmo caso das patas-de-vaca e sibipirunas. Mas os buqu\u00eas de louro-pardo ainda podem ser vistos no parque Olhos D\u2019\u00e1gua, da Asa Norte.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 a vez das flores que nascem rentes ao ch\u00e3o come\u00e7arem a aparecer; portanto, \u00e9 hora de andar olhando para baixo. S\u00e3o florezinhas de gram\u00edneas e plantas rasteiras e forrageiras, muitas amarelas, algumas avermelhadas, bem diferentes das flores secas que fizeram a fama do cerrado, numa hist\u00f3ria que come\u00e7ou como quebra-galho.<\/p>\n<p>Haveria um jantar no Itamaraty para recepcionar o ent\u00e3o presidente norte-americano Dwight Eisenhower, que veio lan\u00e7ar a pedra fundamental da embaixada de seu pa\u00eds na nova capital. Em 1960 n\u00e3o havia avi\u00f5es pressurizados, capazes de trazer flores a Bras\u00edlia sem que elas murchassem pelo caminho; tamb\u00e9m n\u00e3o era poss\u00edvel traz\u00ea-las de caminh\u00e3o sem que perdessem o vi\u00e7o. E flores \u2013 diz a etiqueta \u2013 s\u00e3o fundamentais nos jantares mais bacanas.<\/p>\n<p>No dia da chegada do presidente norte-americano, o cerimonial j\u00e1 havia passado por uma sai justa. Para evitar que Eisenhower tocasse o solo brasiliense sem que o presidente Juscelino Kubitschek, que estava atrasado, estivesse pronto para receb\u00ea-lo no aeroporto, o Air Force One teve que dar mais uma voltinha pelo c\u00e9u daquele fevereiro.<\/p>\n<p>Quem v\u00ea a foto do jantar \u2013 com a mesa repleta de flores \u2013 nem imagina que ali estava a manifesta\u00e7\u00e3o mais positiva do tal jeitinho brasileiro, essa institui\u00e7\u00e3o que hoje se transformou num problema nacional, tal o mau uso.<\/p>\n<p>Fernando Lopes, ent\u00e3o funcion\u00e1rio da Novacap, costumava andar pelo cerrado virgem enquanto apreciava as obras sendo erguidas e recolhia flores secas, fazendo pequenos arranjos; mostrou um deles a Alfredo Ribeiro, seu chefe, sugerindo a solu\u00e7\u00e3o para o impasse internacional. A ideia foi aprovada imediatamente pelo chef\u00e3o, Ernesto Silva, e salvou a p\u00e1tria.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, Fernando Lopes se tornou um dos grandes cartazes da R\u00e1dio Nacional de Bras\u00edlia, cantando boleros, e as flores do cerrado se tornaram uma institui\u00e7\u00e3o local; s\u00e3o vendidas na feira da torre e na catedral e at\u00e9 cantadas por Caetano Veloso. O erro \u00e9 achar que n\u00e3o tem mais nada.<\/p>\n<p>Quem se dispuser a andar pelo cerrado ainda intocado, como por exemplo nas chapadas Imperial ou dos Veadeiros \u2013 esta j\u00e1 recuperada do inc\u00eandio do ano passado, que queimou 65 mil hectares \u2013,vai encontrar pelo caminho alecrim do cerrado, buquezinho branco, bonina, assa-peixe, anileira, chap\u00e9u de duende, canela de ema.<\/p>\n<p>E para ouvir os boleros, basta ir N\u2019O Grao, fino boteco do Lago Norte, nas noites de domingo. Tem sempre uma canja do Fernando Lopes.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 30 de setembro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes mesmo da mudan\u00e7a da esta\u00e7\u00e3o, as chuvas ca\u00edram e fizeram a gentileza de entregar uma cidade verdinha \u00e0 primavera. Os gramados vicejam rapidamente, mostrando a for\u00e7a da natureza, que colore um pouquinho a vida da gente, mostrando que h\u00e1 muitas cores importantes, al\u00e9m da camisa do futebol e das bandeiras dos partidos. Mais um pouquinho, teremos novas cores chegando. 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