{"id":464,"date":"2018-10-07T11:32:57","date_gmt":"2018-10-07T14:32:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=464"},"modified":"2018-10-07T11:40:58","modified_gmt":"2018-10-07T14:40:58","slug":"proverbios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/proverbios\/","title":{"rendered":"Prov\u00e9rbios"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria vai sendo embotada com o tempo \u2013 o disco r\u00edgido est\u00e1 cheio, me dizem \u2013 mas tenho quase que certeza que o nome dele era Samuel. Gerente da leiteria (note-se que \u00e9 do tempo em que havia leiterias) e, com o sotaque luso ainda muito forte, fazia for\u00e7a para n\u00e3o ser confundido com o portugu\u00eas da piada. Gostava de prov\u00e9rbios.<\/p>\n<p>Antes que algu\u00e9m estranhe e pergunte porque eu frequentava uma leiteria, explico: ficava na frente da maior banca de jornais da cidade, de propriedade de um italiano, que chamavam de Nino, e que n\u00e3o fazia quest\u00e3o nenhuma de se passar por inteligente. Ou educado. Era um carcamano mal-encarado como os que a gente via nos filmes.<\/p>\n<p>Prov\u00e9rbios t\u00eam a capacidade de resumir uma hist\u00f3ria inteira numa \u00fanica frase. N\u00e3o \u00e9 preciso nem buscar a sabedoria das p\u00e1ginas da B\u00edblia; basta conversar com um matuto esperto que ele tem sempre o que dizer, em qualquer situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQualquer um tira o saci da garrafa; quero ver quem p\u00f5e\u201d, \u201cNa cidade do saci, uma cal\u00e7a veste dois\u201d, \u201cSapo n\u00e3o pula por boniteza, mas porque precisa\u201d, \u201cN\u00e3o tinha com o que se apoquentar, comprou um leit\u00e3o\u201d, s\u00e3o alguns dos meus favoritos.<\/p>\n<p>H\u00e1 prov\u00e9rbios que s\u00e3o t\u00e3o repetidos que n\u00e3o t\u00eam mais gra\u00e7a e ningu\u00e9m mais presta aten\u00e7\u00e3o; quem repisa fica at\u00e9 com fama de chato: \u201cO barato sai caro\u201d, \u201cN\u00e3o se chora o leite derramado\u201d, \u201cO bom filho a casa torna\u201d, \u201cOs \u00faltimos ser\u00e3o os primeiros\u201d. N\u00e3o carregam mais sabedoria; ficaram \u00f3bvios, gastos com o tempo.<\/p>\n<p>Prov\u00e9rbios n\u00e3o podem ser ditos com entona\u00e7\u00e3o normal, exigem alguma solenidade, uma voz mais empostada e uma cara de coruja sabida. Sen\u00e3o correm o risco de se perderem na tradu\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo que seja em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O Samuel da leiteria explorava prov\u00e9rbios lusos, alguns t\u00e3o marcantes que sobreviveram na cachola. \u201cVisita sempre d\u00e1 prazer. Sen\u00e3o quando chegam, pelo menos quando partem\u201d, dizia a quem deixava o estabelecimento, rindo para que ningu\u00e9m achasse que estava sendo grosso. Outro muito repetido, misterioso para mim na \u00e9poca, era \u201cmal de muitos, consolo \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando Deus quer, \u00e1gua fria \u00e9 rem\u00e9dio\u201d, dizia; mais irritado, falava: \u201cBem mal ceia quem come de m\u00e3o alheia\u201d. Outro que repetia sempre: \u201cN\u00e3o gozes com o mal do teu vizinho, porque o teu vem a caminho\u201d.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 tamb\u00e9m repetia prov\u00e9rbios como mantras: \u201cQuando um burro fala, o outro baixa a orelha\u201d, era um de seus favoritos. Ou \u201cpara quem n\u00e3o quer, tem muito\u201d, \u201cmais vale um gosto do que seis vint\u00e9ns\u201d \u2013 mesmo que eu n\u00e3o soubesse quantificar esse dinheiro \u2013 e \u201cManda quem pode e obedece quem tem ju\u00edzo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 que ningu\u00e9m mais quer saber de livros, quem sabe n\u00e3o \u00e9 de prov\u00e9rbios que o mundo precisa para ter um pouco de sabedoria.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 dia de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomara que n\u00e3o seja in\u00edcio de mais um ano que n\u00e3o termina. N\u00e3o \u00e9 bem um prov\u00e9rbio, mas \u00e9 bom lembrar uma frase de Bob Marley: \u201cPrefiro perder a guerra e ganhar a paz\u201d. Ou Benjamin Franklin: \u201cNunca houve uma guerra boa, nem uma paz ruim\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 7 de outubro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria vai sendo embotada com o tempo \u2013 o disco r\u00edgido est\u00e1 cheio, me dizem \u2013 mas tenho quase que certeza que o nome dele era Samuel. Gerente da leiteria (note-se que \u00e9 do tempo em que havia leiterias) e, com o sotaque luso ainda muito forte, fazia for\u00e7a para n\u00e3o ser confundido com o portugu\u00eas da piada. 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