{"id":474,"date":"2018-10-26T13:57:27","date_gmt":"2018-10-26T15:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=474"},"modified":"2018-10-26T13:57:27","modified_gmt":"2018-10-26T15:57:27","slug":"mortos-ilustres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mortos-ilustres\/","title":{"rendered":"Mortos ilustres"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o de Herivelto Martins e Marino Pinto que diz que segredo \u00e9 para quatro paredes. Acredito nela, mas n\u00e3o ao ponto de cantar desbragadamente. Talvez por isso tenha tantas restri\u00e7\u00f5es a analistas, psic\u00f3logos e esse pessoal que vive de ouvir problemas alheios. Para mim n\u00e3o serve; sem meus segredos eu estaria irremediavelmente incompleto.<\/p>\n<p>Ainda levo f\u00e9 na vida privada, me julgo incapaz de expor situa\u00e7\u00f5es que teoricamente fariam com que eu me conhecesse melhor. Talvez seja esse o ponto: inseguran\u00e7a; se eu me conhecer muito bem pode ser que n\u00e3o goste de mim. E da\u00ed como eu faria para conviver com uma pessoa t\u00e3o pr\u00f3xima e t\u00e3o desagrad\u00e1vel?<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a fui levado a, que me lembre, tr\u00eas psic\u00f3logos e um capel\u00e3o do ex\u00e9rcito com cara de exorcista. Minha m\u00e3e certamente achava que eu tinha jeito de maluco, at\u00e9 porque nenhum dos meus amigos teve experi\u00eancia similar. Nem meus irm\u00e3os. O \u00fanico resultado pr\u00e1tico dessa aventura \u00e9 que nunca mais voltei a um consult\u00f3rio. Tenho mais medo de psic\u00f3logo que de dentista.<\/p>\n<p>Mas gente \u00e9 como caixa d\u2019\u00e1gua e tem que deixar vazar um pouco pelo ladr\u00e3o quando enche demais. Todo mundo tem direito a ter pensamentos menos ou nada nobres, at\u00e9 mesmo alguns violentos, outros s\u00f3rdidos. Uns inconfess\u00e1veis; desses n\u00e3o vamos tratar.<\/p>\n<p>Mas nenhuma dessas motiva\u00e7\u00f5es seria suficiente para desencadear alguma rea\u00e7\u00e3o violenta. Sou da paz, n\u00e3o gosto de soltar nem traque. O m\u00e1ximo da morbidez que chego \u00e9 um antigo desejo de escrever obitu\u00e1rios, mas n\u00e3o apenas de pessoas ilustres.<\/p>\n<p>Na Inglaterra \u2013 at\u00e9 por causa da esquisitice inerente aos brit\u00e2nicos \u2013 \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o nobre nos jornais. S\u00e3o pessoas respeitadas, que costumam fazer entrevistas com os candidatos a defunto, ocasi\u00e3o em que s\u00e3o recebidos com honras e n\u00e3o como sinal de mau agouro. A proverbial fleuma brit\u00e2nica ensina que \u00e9 sinal de prest\u00edgio, que aquela vida ser\u00e1 eternizada, segundo acreditam esses fara\u00f3s da m\u00eddia.<\/p>\n<p>Mas meu particular desejo por escrever obitu\u00e1rios n\u00e3o carrega nenhum car\u00e1ter nobre. J\u00e1 escrevi muitas vezes lamentando mortos ilustres, vidas cheias de realiza\u00e7\u00f5es, ricas em detalhes, personalidades fascinantes; mas as vezes sonho em ir al\u00e9m.<\/p>\n<p>O sonho \u00e9 n\u00e3o ser um obituarista comum \u2013 gostaria muito de escolher os defuntos a serem retratados em palavras. O meu lado mais escuro fica imaginando a del\u00edcia que deve ser escrever sobre a morte de quem voc\u00ea n\u00e3o queria que nem tivesse nascido. Seria uma anticarpideira; autor de textos verdadeiros. Crus e cru\u00e9is.<\/p>\n<p>Fulano de tal, tantos anos, era um escroque \u2013 seria a primeira frase do texto. Da\u00ed por diante iria espalhando adjetivos: fac\u00ednora, safardana, calhorda, canalha, mancomunado em choldrabolda. S\u00e3o fascinantes essas palavras dedicadas \u00e0 esc\u00f3ria da humanidade. Teria que economizar nas palavras para n\u00e3o ter eu economizar nos defuntos.<\/p>\n<p>O obituarista, por dever de of\u00edcio, deve torcer para que haja pelo menos um morto ilustre por dia. \u00c9 a parte ruim do trabalho, quando passa a ser confundido com um mero papa-defuntos. Mas certamente n\u00e3o queria ser obituarista a vida toda. A mim bastariam uns dez dias.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 26 de outubro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o de Herivelto Martins e Marino Pinto que diz que segredo \u00e9 para quatro paredes. Acredito nela, mas n\u00e3o ao ponto de cantar desbragadamente. Talvez por isso tenha tantas restri\u00e7\u00f5es a analistas, psic\u00f3logos e esse pessoal que vive de ouvir problemas alheios. Para mim n\u00e3o serve; sem meus segredos eu estaria irremediavelmente incompleto. 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