{"id":478,"date":"2018-12-23T23:11:48","date_gmt":"2018-12-24T01:11:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=478"},"modified":"2018-12-23T23:11:48","modified_gmt":"2018-12-24T01:11:48","slug":"falando-em-goiaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/falando-em-goiaba\/","title":{"rendered":"Falando em goiaba"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-479\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba-300x182.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"182\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba-300x182.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba-768x466.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba-550x334.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba-230x140.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2018\/12\/goiaba.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o faz muito tempo tive que cortar a goiabeira que nasceu espontaneamente no fundo do quintal. Nada se aproveitava. As goiabas cresciam cheias de bicho e com a casca rachada ou endurecida. Consultei amigos que conhecem plantas e cada um tem sua receita; a mais comum mandava que eu envolvesse cada fruto, logo depois da flora\u00e7\u00e3o, num saquinho de pano \u2013 n\u00e3o pode ser de pl\u00e1stico, para manter a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo para evitar que uma mosquinha depositasse suas larvas na fruta, dando origem \u00e0 lesminha \u2013 o famoso bicho de goiaba. Ali\u00e1s, muita gente n\u00e3o sabe, mas bicho de goiaba tem nome: \u00e9 bigato.<\/p>\n<p>Quando menino, perguntavam: quando voc\u00ea morde a goiaba, prefere encontrar um bicho, meio bicho ou nenhum bicho. Era melhor encontra um bigato, que poderia ser tirado; meio bicho era sinal que a outra metade estava na boca; nenhum era a certeza que o bicho inteiro estava sendo mastigado.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, nunca liguei muito para nenhum deles; seguia a m\u00e1xima popular: \u201cbicho de goiaba, goiaba \u00e9\u201d. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que um bicho que nasceu dentro da fruta, comeu s\u00f3 goiaba a vida inteira, \u00e9 igual a ela. Bobagem infantil: \u00e9 o mesmo que acreditar que uma galinha que s\u00f3 come milho \u00e9 cereal; ou seja, pr\u00f3pria para naturebas e veganos.<\/p>\n<p>Bigato \u00e9 prote\u00edna; mas n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m, at\u00e9 porque na hora em que estiver no est\u00f4mago, o suco g\u00e1strico d\u00e1 seu jeito. Ao contr\u00e1rio, pode at\u00e9 fazer bem; significa que ningu\u00e9m usou agrot\u00f3xico \u2013 perd\u00e3o, esta palavra est\u00e1 proibida agora, deve ser substitu\u00edda por defensivo agr\u00edcola, o que prova que, para os parlamentares que aprovaram a novidade, o que faz mal \u00e0 sa\u00fade \u00e9 a sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de goiaba; outro dia mesmo comprei uma bandejinha cheia delas numa parada no sinal fechado. \u201c\u00c9 vermelha?\u201d, perguntei. \u201cClaro, doutor\u201d, respondeu o rapazinho. Em casa, lavei os frutos \u2013 bonitos, grandes \u2013 e mordi: o recheio era branco. Pior: parecia que eu estava comendo isopor molhadinho; n\u00e3o havia resqu\u00edcio de sabor.<\/p>\n<p>Deve ser um tipo de goiaba para quem n\u00e3o gosta de goiaba, pensei. Para quem n\u00e3o gosta de nada, ali\u00e1s. O que \u00e9 muito estranho.<\/p>\n<p>Na mesma hora bateu o arrependimento de ter ficado com pregui\u00e7a de amarrar os saquinhos nas frutinhas e ter erradicado o p\u00e9. O gosto da minha inf\u00e2ncia ficou no passado, talvez para nunca mais: se plantar um p\u00e9 com sementes dessas goiabas-de-isopor elas recuperam o sabor? Duvido.<\/p>\n<p>Goiaba tem cheiro forte, sabor pronunciado; quando colocada no tacho, minutos antes de virar goiabada, o aroma invade todo o ambiente; e vai al\u00e9m fronteira, quando o a\u00e7\u00facar \u00e9 misturado \u2013 a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 brutal: meio quilo de a\u00e7\u00facar para cada quilo de goiaba batida e coada. A vizinhan\u00e7a toda fica sabendo quando o doce \u00e9 mexido para n\u00e3o grudar.<\/p>\n<p>Gosto muito de goiaba, mas n\u00e3o essas que vendem no sinal e nos supermercados. Agora estou procurando uma goiaba alucin\u00f3gena como a que a futura ministra da fam\u00edlia, Damares Alves, comeu quando era crian\u00e7a. Quero s\u00f3 ver como \u00e9 o bigoto delas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de\u00a0 21 de dezembro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o faz muito tempo tive que cortar a goiabeira que nasceu espontaneamente no fundo do quintal. Nada se aproveitava. As goiabas cresciam cheias de bicho e com a casca rachada ou endurecida. 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