{"id":483,"date":"2018-12-23T23:35:40","date_gmt":"2018-12-24T01:35:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=483"},"modified":"2018-12-23T23:35:40","modified_gmt":"2018-12-24T01:35:40","slug":"a-vida-sem-pausas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-vida-sem-pausas\/","title":{"rendered":"A vida sem pausas"},"content":{"rendered":"<p>Amigos s\u00e3o preciosos, mas a solid\u00e3o \u2013 que \u00e9 a nossa pr\u00f3pria companhia \u2013 n\u00e3o vale menos que eles. Algumas vezes o melhor acompanhante est\u00e1 dentro dos pr\u00f3prios sapatos da gente, usa as mesmas meias, e s\u00f3 espera uma chance para conversar, para escolher a estrada a seguir diante da encruzilhada que se apresenta \u00e0 frente. \u00c9 o momento que o id se bate com o superego e oferece solu\u00e7\u00f5es ousadas que, balizadas pelo ju\u00edzo, nos levam \u00e0 frente.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o quase sempre \u00e9 mal compreendida. Recolhimento muitas vezes \u00e9 confundido, no m\u00ednimo, com atitudes antissociais; e, no m\u00e1ximo, com doen\u00e7a \u2013 ficar sozinho, dizem os apressados, \u00e9 a porta de entrada para a depress\u00e3o. Que me perdoem os greg\u00e1rios, esses que n\u00e3o conseguem suportar a pr\u00f3pria presen\u00e7a, mas ficar sozinho \u00e9 uma necessidade.<\/p>\n<p>Uma linha do filme <em>Grande Hotel<\/em>, de 1932, virou a marca de Greta Garbo, no papel da bailarina Grusinskaya \u2013 \u201ceu quero ficar sozinha\u201d, dizia ela, numa frase que foi usada para justificar a ojeriza da atriz a qualquer badala\u00e7\u00e3o. Aldoux Huxley, um dos papas da contracultura, disse que mente poderosas e originais s\u00e3o atra\u00eddas pela \u201cliturgia da reclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas o soci\u00f3logo Domenico De Masi definiu melhor esse conceito, ao propor o \u00f3cio criativo, que ao contr\u00e1rio do que a vagabundagem geral imagina, n\u00e3o prega a aliena\u00e7\u00e3o total, mas teoriza e potencializa um velho posicionamento italiano, o dolce far niente, ou seja, o doce n\u00e3o fazer nada. \u00c9 no \u00f3cio, raciocina, que as baterias s\u00e3o recarregadas.<\/p>\n<p>Nada que Drummond j\u00e1 n\u00e3o soubesse quando escreveu que a vida necessita de pausas.<\/p>\n<p>Toda essa mix\u00f3rdia me ocorreu quando sentei num caf\u00e9, exatamente para dar uma organizada nos pensamentos; \u00e9ramos eu, uma garrafinha de \u00e1gua sem g\u00e1s, um copo vazio, a x\u00edcara com o caf\u00e9 e um saquinho de a\u00e7\u00facar. Nada mais. Desliguei o celular e, naquela conversa silenciosa, da qual tomava discretas notas num bloquinho, resolvi o dia.<\/p>\n<p>Na mesa ao lado, a mocinha batucava as teclas de um computador; mais a frente, um rapaz n\u00e3o parava de mandar textos pelo telefone; enquanto outro parecia contrariado com algu\u00e9m, xingando quem n\u00e3o o atendia. Nas outras duas mesas, pessoas verificavam mensagens recebidas, riam sozinhas e provavelmente mandavam m\u00e3ozinhas ou carinhas como resposta. Movimenta\u00e7\u00e3o intensa.<\/p>\n<p>Ou seja: ningu\u00e9m mais fica sozinho, nem por uns minutinhos. A vida acontece na velocidade dos nanosegundos, que s\u00e3o a bilion\u00e9sima parte de um segundo. H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de tempo perdido a cada instante, numa nova forma de opress\u00e3o que obriga a m\u00faltiplas tarefas, sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es. Claro que isso impede qualquer reflex\u00e3o. E assim vamos ficando mais est\u00fapidos.<\/p>\n<p>O telefone m\u00f3vel mudou a vida de todo mundo; ao mesmo tempo que facilita tarefas, oprime pela necessidade das respostas imediatas, m\u00faltiplas conversas, variedade da informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais hora para nada; a vida virou um turbilh\u00e3o por causa do mau uso dos aparelhos, das pessoas sem desconfi\u00f4metro, que n\u00e3o hesitam em incomodar a qualquer momento. Portanto, que ningu\u00e9m ligue: se n\u00e3o atender devo estar ocupado, conversando comigo mesmo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 16 de dezembro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amigos s\u00e3o preciosos, mas a solid\u00e3o \u2013 que \u00e9 a nossa pr\u00f3pria companhia \u2013 n\u00e3o vale menos que eles. 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