{"id":486,"date":"2018-12-23T23:41:02","date_gmt":"2018-12-24T01:41:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=486"},"modified":"2018-12-23T23:41:02","modified_gmt":"2018-12-24T01:41:02","slug":"ordem-unida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/ordem-unida\/","title":{"rendered":"Ordem unida"},"content":{"rendered":"<p>As mulheres n\u00e3o compreendem bem a rela\u00e7\u00e3o de maridos, namorados e afins com os bares \u2013 mesmo que muitas sejam frequentadoras aut\u00f4nomas desses estabelecimentos. Talvez por n\u00e3o entenderem que ali \u00e9 o espa\u00e7o que todo ser humano precisa para se desligar, uma esp\u00e9cie de parquinho de divers\u00f5es para adultos, onde s\u00e3o permitidas rea\u00e7\u00f5es que, em qualquer outro espa\u00e7o, seriam reprimidas.<\/p>\n<p>\u00c9, por exemplo, um local onde os preconceitos podem ser externados sem maiores problemas; n\u00e3o apenas por causa do \u00e1lcool, mas principalmente porque \u00e9 uma conversa t\u00e3o vol\u00e1til quanto o combust\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 ofensa. S\u00f3 um ambiente mais permissivo, o que torna o botequim o \u00fanico verdadeiro basti\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p>Nem o Congresso Nacional, que deveria abrigar a diversidade de pensamento da sociedade, oferece tanta liberdade. N\u00e3o \u00e9 estranho que aquele reconhecido caus\u00eddico, defensor de grupos oprimidos, esteja se apresentando aos presentes com uma desajeitada posi\u00e7\u00e3o de sentido, incluindo o olhar fixo no horizonte, e uma contin\u00eancia.<\/p>\n<p>Estamos em tempos de contin\u00eancia. Na acep\u00e7\u00e3o mais restrita da palavra, significa contri\u00e7\u00e3o, comportamento moderado, comedimento. Mas a contin\u00eancia em voga \u00e9 a sauda\u00e7\u00e3o militar mesmo, que parece ter deixado a caserna para invadir a rua. At\u00e9 o flanelinha se p\u00f4s ereto e fez o gesto depois de receber o punhado de moedas.<\/p>\n<p>Mesmo quem nunca frequentou um batalh\u00e3o est\u00e1 se esmerando para saudar os companheiros com a m\u00e3o direita espalmada sobre a fronte. N\u00e3o tem nada demais, at\u00e9 os escoteiros se sa\u00fadam com uma vers\u00e3o reduzida \u2013 apenas tr\u00eas dedos \u2013 acompanhada (ou n\u00e3o) do lema: \u201csempre alerta\u201d. Mas escoteiro, a gente sabe, anda de cal\u00e7a curta. E em tempos idos, o t\u00e9cnico Jo\u00e3o Saldanha encerrava seus coment\u00e1rios na tev\u00ea com um gesto parecido.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para dizer que a disciplina militar chegou ao botequim; a baderna continua a mesma. Ao contr\u00e1rio, a contin\u00eancia \u00e9 a gaiatice da vez, aquela leve desobedi\u00eancia \u00e0 autoridade \u2013 qualquer uma delas \u2013 sem qualquer pretens\u00e3o de subverter qualquer coisa.<\/p>\n<p>O que pouca gente sabe \u00e9 que a contin\u00eancia nasceu de uma facilidade. Os cavaleiros da idade m\u00e9dia se cumprimentavam levantando o visor do elmo, uma forma de demonstrar camaradagem e respeito. N\u00e3o era um movimento f\u00e1cil e com o tempo evoluiu, primeiramente para a m\u00e3o direita espalmada \u00e0 frente, depois para o gesto usado at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Antes disso, os romanos, militares ou civis, usavam a sauda\u00e7\u00e3o com o bra\u00e7o todo levantado enquanto se dirigiam ao imperador \u2013 \u201cave, C\u00e9sar\u201d. Foram imitados por Hitler, que instituiu um gesto semelhante, mudando o brado para \u201cheil, Hitler\u201d.<\/p>\n<p>No Brasil, os integralistas macaquearam o modelito, s\u00f3 trocando a sauda\u00e7\u00e3o, que passava a ser \u201canau\u00ea\u201d, sauda\u00e7\u00e3o extra\u00edda da l\u00edngua tupi \u2013 eles tamb\u00e9m tentaram eliminar o Papai Noel, trocando-o por um \u00edndio ainda mais mal-encarado que aquele velhinho de barbas brancas e longas. Mas esta \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pois a contin\u00eancia est\u00e1 de volta, e do lado de fora dos quart\u00e9is. Depois que o presidente eleito saudou at\u00e9 jogador de futebol, abriu a porteira. Por enquanto, tudo bem, pelo menos enquanto n\u00e3o nos obrigarem a usar bate bute.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 14 de dezembro de 2018<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres n\u00e3o compreendem bem a rela\u00e7\u00e3o de maridos, namorados e afins com os bares \u2013 mesmo que muitas sejam frequentadoras aut\u00f4nomas desses estabelecimentos. Talvez por n\u00e3o entenderem que ali \u00e9 o espa\u00e7o que todo ser humano precisa para se desligar, uma esp\u00e9cie de parquinho de divers\u00f5es para adultos, onde s\u00e3o permitidas rea\u00e7\u00f5es que, em qualquer outro espa\u00e7o, seriam reprimidas. 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