{"id":490,"date":"2019-01-25T09:03:31","date_gmt":"2019-01-25T11:03:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=490"},"modified":"2019-01-25T09:03:31","modified_gmt":"2019-01-25T11:03:31","slug":"o-milagre-sem-fio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-milagre-sem-fio\/","title":{"rendered":"O milagre sem fio"},"content":{"rendered":"<p>As posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o quase sempre as mesmas, em volta da mesa, pelo menos para os mais ass\u00edduos. Antiguidade \u00e9 posto, diriam os militares que tamb\u00e9m frequentam rodas musicais da cidade. N\u00e3o h\u00e1 uma ordem como nas orquestras, onde a percuss\u00e3o fica num canto, metais em outro, cordas \u00e0 frente \u2013 \u00e9 muito mais uma quest\u00e3o de afinidade musical entre as pessoas.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que \u00cdndio Sete Cordas \u2013 o novo nome de guerra do coronel reformado do Ex\u00e9rcito, hoje dedicado aos netos e aos viol\u00f5es \u2013 fica sempre de costas para a parede, na extremidade mais \u00e0 esquerda da mesa, sempre entre Ot\u00e1vio, violonista seis cordas, tamb\u00e9m coronel reformado, e Josiel, percussionista, civil.<\/p>\n<p>Aos 86 anos, \u00cdndio mostra destreza nos bord\u00f5es e gosta de se levantar da cadeira em alguns solos, como se fosse um m\u00fasico das antigas big bands do jazz. No tampo do viol\u00e3o, traz a bandeira ga\u00facha, aquela que mostra o ideal revolucion\u00e1rio do povo dos pampas tingido de vermelho sangue entre o verde que representa as matas e o amarelo das riquezas pampeiras.<\/p>\n<p>Mas \u00cdndio n\u00e3o est\u00e1 vestido para a guerra. Ao contr\u00e1rio, s\u00f3 se levanta para registrar seu grito de paz na forma de bord\u00f5es bem constru\u00eddos e que funcionam como breques nos choros e sambas, ou solando m\u00fasicas desafiadoras como <em>Sons de Carrilh\u00e3o<\/em>, de Jo\u00e3o Pernambuco, perenizada na interpreta\u00e7\u00e3o de Dilermando Reis.<\/p>\n<p>Os demais m\u00fasicos ficam quase sempre sem grandes mudan\u00e7as, sentados; mesmo os percussionistas, que n\u00e3o dependem tanto da amplifica\u00e7\u00e3o. Mas a roda musical que acontece todo final de tarde de domingo, n\u2019O Grao, bar localizado no final da pista central do Lago Norte, consegue extrair harmonia desse aparente desarranjo e, sim, h\u00e1 uma certa lideran\u00e7a, at\u00e9 porque o violonista Sanson n\u00e3o deixa a receita desandar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um n\u00facleo central de fi\u00e9is frequentadores e um rod\u00edzio de convidados eventuais, que chegam, sentam e tocam, se incorporando ao ambiente. Os desavisados podem achar que a f\u00f3rmula \u00e9 repetitiva, mas se enganam.<\/p>\n<p>Mas as coisas mudam e para melhor. Se Raul nunca mais apareceu com um bandolim novo, \u00cdndio chegou com um aparelhinho novo espetado no viol\u00e3o; um transmissor que dispensa o uso de fio para eletrificar o instrumento e permite total liberdade de movimentos. Agora ele n\u00e3o se limita a seu lugarzinho de f\u00e9; se levanta e anda de um canto a outro, como forma de dar mais for\u00e7a aos bord\u00f5es.<\/p>\n<p>O aparelhinho \u00e9 terap\u00eautico, quase milagroso. \u00cdndio caminha quase sempre com o aux\u00edlio de uma bengala; \u00e9 um apoio eventual, mas ainda assim um arrimo que garante mais seguran\u00e7a ao alor suave das pernas. Mas quando est\u00e1 com o viol\u00e3o pendurado pela correia e concentrado nas m\u00fasicas ele n\u00e3o precisa de ajuda nenhuma, flana l\u00e9pido e fagueiro em volta da mesa, empolgado com o andamento musical.<\/p>\n<p>O andar de \u00cdndio Sete Cordas deu um novo impulso \u00e0 roda. N\u00e3o chega a ser um Chuck Berry, mas tem levantado a plateia, ao sentir a vibra\u00e7\u00e3o que vem do instrumento e do m\u00fasico, que remo\u00e7ou uns 40 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 25 de janeiro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o quase sempre as mesmas, em volta da mesa, pelo menos para os mais ass\u00edduos. Antiguidade \u00e9 posto, diriam os militares que tamb\u00e9m frequentam rodas musicais da cidade. 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