{"id":492,"date":"2019-01-25T09:08:39","date_gmt":"2019-01-25T11:08:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=492"},"modified":"2019-01-25T09:08:39","modified_gmt":"2019-01-25T11:08:39","slug":"banquete-proibido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/banquete-proibido\/","title":{"rendered":"Banquete proibido"},"content":{"rendered":"<p>A not\u00edcia caiu como uma bomba na comunidade nordestina: mais de 100 pessoas j\u00e1 foram contaminadas com micose pulmonar, doen\u00e7a transmitida por um fungo que fica abaixo do solo. E, n\u00e3o, essas pessoas n\u00e3o estavam cavando em busca de \u00e1gua ou ouro; foram infectadas depois de comer tatu. Tr\u00eas morreram.<\/p>\n<p>J\u00e1 se sabia que tatu \u00e9 um dos poucos animais \u2013 al\u00e9m do homem \u2013 a contrair lepra e por isso \u00e9 t\u00e3o estudado pelos cientistas, mas o bicho \u00e9 um dep\u00f3sito de doen\u00e7as, entre elas o mal de Chagas e a leishmaniose. E mais: ca\u00e7ar tatu \u00e9 crime, mas no interior ningu\u00e9m nunca ligou muito para a fiscaliza\u00e7\u00e3o do Ibama e prefere se arriscar a ir preso do que ficar sem iguaria.<\/p>\n<p>H\u00e1 subterf\u00fagios. O primeiro \u00e9 fazer cara de fome e tentar convencer o fiscal que \u00e9 caso de subsist\u00eancia, o que \u00e9 previsto na Lei; mas a\u00ed precisa ser consumido em \u00e1rea rural \u2013 se for para a cidade, \u00e9 cana certa. Outro \u00e9 o jeitinho: quando um nordestino convidar para comer uma galinha cascuda \u00e9 certo que n\u00e3o \u00e9 um animal de pena, muito menos b\u00edpede.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as maneiras de se preparar um tatu, o que \u00e9 dessas coisas bem brasileiras, que n\u00e3o se consegue explicar para um europeu: se n\u00e3o pode ca\u00e7ar ou comprar a carne, para que servem as receitas? De onde vem o peba (tamb\u00e9m conhecido como tatu-galinha) da panela?<\/p>\n<p>Mas nada como um cochicho. Boca pequena, cinco pessoas foram convidadas para apreciar um tatu em peda\u00e7\u00f5es, assado na forma com legumes \u2013 mesmo quem fez cara de nojinho, foi. E n\u00e3o se arrependeu do pecadilho ocasional, ainda que procurando uma desculpa: foi um tatu s\u00f3, n\u00e3o vai macular o meio ambiente, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1.<\/p>\n<p>No dia seguinte, todos novamente reunidos, a conversa n\u00e3o podia ser outra, porque juntou a ceia proibida com a not\u00edcia da nova doen\u00e7a. Os cinco preocupados j\u00e1 tinham escarafunchado a internet em busca de informa\u00e7\u00e3o, ainda mais depois de saber a proced\u00eancia do tatu, que foi trazido do Piau\u00ed, onde a micose apareceu em 40 munic\u00edpios. Ficamos sabendo at\u00e9 que um peba \u00e9 capaz de comer nove mil insetos por dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia m\u00e9dicos no recinto, mas n\u00e3o faltaram receitas, todas com uma dose de pinga \u2013 esse \u00e9 o mal de quem frequenta boteco, acha que tudo se resolve com um gor\u00f3, embora normalmente isso seja verdade. O \u00fanico que n\u00e3o parecia preocupado era exatamente o respons\u00e1vel pela importa\u00e7\u00e3o e preparo do peba. Ao contr\u00e1rio, Barros j\u00e1 maquinava uma forma de trazer mais um animal, j\u00e1 limpo e congelado.<\/p>\n<p>E sob os olhares mais do que desconfiados do pessoal, dizia que iria experimentar uma receita que aprendeu ainda muito novo, o tatu cozido no leite de coc\u00f4 e servido na pr\u00f3pria carapa\u00e7a. O Barros n\u00e3o tinha lido a not\u00edcia da micose ainda, mas quando foi informado deu de ombros. E lan\u00e7ou a teoria mais maluca dos \u00faltimos tempos: \u201cIsso \u00e9 conversa do pessoal do Ibama para ver se o pessoal para de comer tatu\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 11 de janeiro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A not\u00edcia caiu como uma bomba na comunidade nordestina: mais de 100 pessoas j\u00e1 foram contaminadas com micose pulmonar, doen\u00e7a transmitida por um fungo que fica abaixo do solo. E, n\u00e3o, essas pessoas n\u00e3o estavam cavando em busca de \u00e1gua ou ouro; foram infectadas depois de comer tatu. Tr\u00eas morreram. 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