{"id":496,"date":"2019-01-25T09:22:31","date_gmt":"2019-01-25T11:22:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=496"},"modified":"2019-01-25T09:22:31","modified_gmt":"2019-01-25T11:22:31","slug":"e-quem-explica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/e-quem-explica\/","title":{"rendered":"E quem explica?"},"content":{"rendered":"<p>O rapaz de penugem no rosto e suco de uva no copo come\u00e7a a conversar sobre a vida. Tenta achar sentido nas coisas que est\u00e3o em volta dele e at\u00e9 no que tem que fazer para se inserir nesse mist\u00e9rio. N\u00e3o tem muito desses jovens por a\u00ed; eles preferem ir para a balada ou jogar videogame. E eu abri os ouvidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha nenhuma pergunta nova \u2013 provavelmente s\u00e3o as mesmas que Tales, um dos sete s\u00e1bios da antiguidade e reconhecido como o primeiro amante do conhecimento (fil\u00f3sofo, na origem grega do termo), se fazia na movimentada cidade de Mileto, na \u00c1sia Menor, que hoje estaria em territ\u00f3rio turco.<\/p>\n<p>Tales ficou conhecido por procurar respostas que dispensassem divindades num tempo em que havia deuses para tudo, como forma de simplificar qualquer explica\u00e7\u00e3o. Seis s\u00e9culos antes de Cristo, defendia que tudo veio da \u00e1gua, muito antes de haver ci\u00eancia para provar que tudo no mundo tem sua por\u00e7\u00e3o l\u00edquida. Outro s\u00e1bio de Mileto, Anaximenes defendia que o princ\u00edpio de tudo era o ar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era isso o que preocupava o jovem mancebo que se torturava em busca de respostas, j\u00e1 na fase do desespero que o levou a procurar o primeiro sujeito de cabelos brancos que encontrou \u2013 eu, na minha profunda ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Minhas frustra\u00e7\u00f5es juvenis eram outras. Por exemplo, quando a agulha do disco arranhado agarrava na m\u00fasica, enquanto dan\u00e7ava com o rosto coladinho, depois de muito batalhar para convencer a menina. Hoje n\u00e3o tem mais agulha, nem disco, nem m\u00fasica. E ningu\u00e9m sabe o que \u00e9 dan\u00e7ar de rosto colado.<\/p>\n<p>Ou quando acabavam as fichas do orelh\u00e3o, bem no meio daquela conversa que demorou tanto para acontecer e a menina estava a ponto de ceder. Pior, s\u00f3 quando n\u00e3o tinha dropes Dulcora na bomboni\u00e8re do cinema e a gente corria o risco de morrer sufocado com uma bala Soft.<\/p>\n<p>Os questionamentos do rapazote eram bem diferentes; uma ang\u00fastia que vir\u00e1 outras vezes na vida, mas que naquele corpo pareciam precoces, extempor\u00e2neas. A conversa s\u00f3 desandou quando ele disse que na noite anterior havia assistido o filme <em>Quem Somos N\u00f3s?,<\/em> uma mix\u00f3rdia de conceitos, misturando pseudoci\u00eancia e misticismo, com base em depoimentos de maluquetes.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio deveria estar na prateleira das fic\u00e7\u00f5es \u2013 e daquelas mais psicod\u00e9licas \u2013 porque parte de pressupostos absolutamente falsos para explicar o que estamos fazendo no planeta. \u00c9 t\u00e3o verdadeiro quanto aquelas narrativas sobre a \u00c1rea 51, onde os norte-americanos guardariam restos de \u00f3vnis e de extraterrestres para n\u00e3o assustar o mundo.<\/p>\n<p>Foi f\u00e1cil desmontar os falsos conceitos da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica como apresentada e que tem muito pouco efeito nas nossas vidas pr\u00e1ticas, visto que trata do mundo subat\u00f4mico. Isso sem falar no japon\u00eas sustentando que palavras de carinho podem formar cristais brilhantes na \u00e1gua; contra broncas, que criam padr\u00f5es disformes ou incompletos.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda recomendei que ele visse uns filmes de fic\u00e7\u00e3o de verdade (contrassenso?) \u2013 sugeri o assustador <em>Funny Games (Viol\u00eancia Gratuita<\/em>), porque o medo pode explicar muito mais sobre a vida do que essas bobagens metaf\u00edsicas.<\/p>\n<p>E quem explica?<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 18 de janeiro de 2019<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rapaz de penugem no rosto e suco de uva no copo come\u00e7a a conversar sobre a vida. Tenta achar sentido nas coisas que est\u00e3o em volta dele e at\u00e9 no que tem que fazer para se inserir nesse mist\u00e9rio. N\u00e3o tem muito desses jovens por a\u00ed; eles preferem ir para a balada ou jogar videogame. 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