{"id":506,"date":"2019-01-26T15:20:41","date_gmt":"2019-01-26T17:20:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=506"},"modified":"2019-01-26T15:20:41","modified_gmt":"2019-01-26T17:20:41","slug":"sexo-por-toda-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/sexo-por-toda-parte\/","title":{"rendered":"Sexo por toda parte"},"content":{"rendered":"<p>A culpa \u00e9 da coloca\u00e7\u00e3o das mesas, muito pr\u00f3ximas, e n\u00e3o do ouvido comprido. As duas mulheres j\u00e1 haviam se servido e, antes mesmo de tirar os talheres do saquinho de papel, come\u00e7aram a conversar. N\u00e3o era um papo barato, como se podia notar pelo semblante fechado das duas; havia uma crise ali \u2013 n\u00e3o a crise de todos n\u00f3s, com infla\u00e7\u00e3o, demiss\u00e3o, estagna\u00e7\u00e3o, decep\u00e7\u00e3o e outros aumentativos casuais. Era um drama particular e, portanto, mais grave.<\/p>\n<p>\u2013 Me separei porque descobri que ele \u00e9 gay. Imagina: cinco anos de casada e eu n\u00e3o sabia de nada&#8230; \u2013 disse a mais loura. \u2013 Agora ele vem com essa conversa. Cafajeste.<\/p>\n<p>Por mais que eu tentasse me concentrar no filezinho ao molho madeira \u00e0 minha frente, n\u00e3o havia como desligar o ouvido. Cafajeste, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 um adjetivo que a gente ouve todo dia. At\u00e9 porque me pareceu que estava no contexto errado.<\/p>\n<p>Pra mim, cafajestes eram mach\u00f5es de antigamente, tipo Jece Valad\u00e3o, Carlos Imperial; para definir um camarada que saiu do arm\u00e1rio, confesso, foi inusitado.<\/p>\n<p>A conversa seguiu. A menos loura insistia em saber detalhes, desceu a min\u00facias s\u00f3rdidas, que n\u00e3o ficam bem numa p\u00e1gina de jornal; queria saber se ele j\u00e1 tem namorado, se era o de cima ou o de baixo, se ela viu, se eles se beijam \u2013 parecia uma rep\u00f3rter de revista de fofoca.<\/p>\n<p>A mais loura mantinha a indigna\u00e7\u00e3o. \u201cSe ainda fosse com uma mulher\u201d, exclamou, um tom acima. Foi demais pra mim. Engoli a comida e me levantei antes que tivesse que dar alguma opini\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 no carro, ligo o r\u00e1dio e a locutora estava indignada porque os respons\u00e1veis pelos filmes de James Bond admitem que o agente secreto mais libidinoso do imp\u00e9rio brit\u00e2nico possa ser negro; gay n\u00e3o. \u201cAbsurdo\u201d, ela disse.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a torta fiquei lembrando Ursula Andrews, Halle Berry, Sophie Marceau e outras Bond girls que dividiram len\u00e7\u00f3is e Martinis com 007 e imaginei como seria um pesadelo troc\u00e1-las por rapazes de peito nu que preferem suco de kiwi.<\/p>\n<p>Mudo de esta\u00e7\u00e3o e fico sabendo que Ivan e S\u00e9rgio se casaram. Era um resumo da novela que acabou sem que eu tivesse visto um cap\u00edtulo sequer.<\/p>\n<p>Mais tarde, abro o computador e pula a not\u00edcia: Marvel exige que o Homem-Aranha do cinema seja caucasiano e hetero. Estranho, porque numa das s\u00e9ries em quadrinhos, o her\u00f3i \u00e9 afro-descendente (e no desenho animado em cartaz renderam-se \u00e0 melanina). E quem beijou a Kirsten Dunst at\u00e9 de cabe\u00e7a para baixo tem cr\u00e9dito no mundo hetero.<\/p>\n<p>Na estante, o livro <em>Quem Samba tem Alegria<\/em> sustenta que Assis Valente, compositor de alguns dos maiores sucessos de Carmen Miranda, n\u00e3o era homossexual, como corria \u00e0 boca solta. O jornalista Gon\u00e7alo Junior garante que os problemas que levaram o compositor a tentar o suic\u00eddio cinco vezes antes da sexta vez fatal foram causados pela coca\u00edna.<\/p>\n<p>E no jornal aparece o bas-fond envolvendo M\u00e1rio de Andrade com a carta que escreveu a Manuel Bandeira, comentando sua \u201ct\u00e3o falada (pelos outros) homossexualidade\u201d e afirmando que sempre se portou com \u201cabsoluta e elegante discri\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>E eu achando que a crise ia causar a impot\u00eancia da sociedade.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 5 de setembro de 2015<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A culpa \u00e9 da coloca\u00e7\u00e3o das mesas, muito pr\u00f3ximas, e n\u00e3o do ouvido comprido. As duas mulheres j\u00e1 haviam se servido e, antes mesmo de tirar os talheres do saquinho de papel, come\u00e7aram a conversar. 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