{"id":510,"date":"2019-02-10T14:12:40","date_gmt":"2019-02-10T16:12:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=510"},"modified":"2019-02-10T14:12:40","modified_gmt":"2019-02-10T16:12:40","slug":"a-hibernacao-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-hibernacao-das-palavras\/","title":{"rendered":"A hiberna\u00e7\u00e3o das palavras"},"content":{"rendered":"<p>Dr. Jo\u00e3o \u00e9 sujeito culto. Dia desses deixou escapar, numa frugal conversa no bar, que estava impressionado com a quantidade de atoardas que se espalham diariamente. Se ele falasse que estava abismado com tanta fake news, embora poucos no recinto falem ingl\u00eas, ningu\u00e9m estranharia, mas atoarda \u00e9 hoje uma palavra que s\u00f3 se encontra nas palavras cruzadas de <em>A Recreativa<\/em>.<\/p>\n<p>Foi o bastante para mudar o assunto, porque ali ningu\u00e9m mais aguenta esses casos envolvendo nomes de pol\u00edticos; sejam os que se defenestram ou aqueles que s\u00e3o defenestrados. O objeto passou a ser as palavras que n\u00e3o se usam mais, que dormem nos dicion\u00e1rios \u00e0 espera de um beijo que as despertem para uma nova vida.<\/p>\n<p>Palavras n\u00e3o morrem; hibernam. Muitas voltam renovadas, com significado mais amplo, caso do verbo defenestrar, que na origem francesa significava jogar pela janela (fen\u00eatre), mas hoje serve para falar de qualquer coisa atirada para longe.<\/p>\n<p>\u201cHomessa!\u201d, disse algu\u00e9m, usando uma express\u00e3o que s\u00f3 n\u00e3o morreu por causa dos livros de Monteiro Lobato e do programa do Chaves, na boca do carteiro Jaiminho. A origem est\u00e1 na contra\u00e7\u00e3o da express\u00e3o de pasmo \u2018homem, e essa?\u2019. Mas hoje \u2013 \u00e9poca em que \u00e9 bonito falar palavr\u00e3o \u2013 n\u00e3o use usa nem mais o puxa vida.<\/p>\n<p>H\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es, caso de catatau, que pode significar um volume grande ou um sujeito pequeno, mas tamb\u00e9m podia ser uma briga no berro, sem agress\u00e3o f\u00edsica, ou \u2013 veja s\u00f3 \u2013 como sin\u00f4nimo de pancada, coque. O fato \u00e9 que as palavras est\u00e3o a\u00ed para serem usadas e foi o pr\u00f3prio Dr. Jo\u00e3o que sacou outro exemplo: espaventado.<\/p>\n<p>Pode ser trocado por assustado mas, convenhamos, \u00e9 bem mais elegante; lembrou tamb\u00e9m de hum\u00edlimo, que ele traduziu como um sujeito muito modesto, o contr\u00e1rio de otimates, que v\u00eam a ser homens de grande influ\u00eancia. E iniciou-se uma pegadilha \u2013 uma discuss\u00e3o mais acalorada \u2013 sobre a vida das palavras.<\/p>\n<p>Culpa desses sujeitos orgulhosos da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, que desdenham de qualquer rasgo de cultura \u2013 andam cada vez mais abundantes, fen\u00f4meno que pode ser atribu\u00eddo \u00e0s redes sociais, que incentivam essa gente a tomar posi\u00e7\u00e3o sobre tudo, ainda que a melhor contribui\u00e7\u00e3o deles fosse o sil\u00eancio. Profundo.<\/p>\n<p>Outro dia mesmo levei uma bronca de um leitor por ter usado a palavra lanfranhudo numa croniquinha dessas; mesmo com a ressalva de que era uma palavra rara nos dias de hoje. Podia ter usado mal-humorado, torvo, carrancudo, iracundo, sanhudo, col\u00e9rico ou at\u00e9 ensimesmado; mas n\u00e3o reagi. N\u00e3o sou um tourunguenga, n\u00e3o quero briga.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no bar n\u00e3o era caso de reprochar, at\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 lugar de repreender ningu\u00e9m. E est\u00e1vamos ali para espantar o calor; que can\u00edcula. Quem trabalha de gravata chegava sem palet\u00f3 e afrouxando a inc\u00f4moda pe\u00e7a, acenando em busca de um copo e de uma cerveja gelada; nenhum chato nos privaria daquele prazer.<\/p>\n<p>A sorte \u00e9 que quase sempre os inconvenientes v\u00e3o embora cedo; s\u00e3o apressados, parecem ter uma cota de chatice para preencher todo dia e saem de bar em bar.\u00a0 E ficamos n\u00f3s com nossas palavras.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em\u00a0 8 de fevereiro de 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dr. Jo\u00e3o \u00e9 sujeito culto. Dia desses deixou escapar, numa frugal conversa no bar, que estava impressionado com a quantidade de atoardas que se espalham diariamente. Se ele falasse que estava abismado com tanta fake news, embora poucos no recinto falem ingl\u00eas, ningu\u00e9m estranharia, mas atoarda \u00e9 hoje uma palavra que s\u00f3 se encontra nas palavras cruzadas de A Recreativa. 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