{"id":532,"date":"2019-03-03T13:11:54","date_gmt":"2019-03-03T16:11:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=532"},"modified":"2019-03-03T13:13:09","modified_gmt":"2019-03-03T16:13:09","slug":"a-musica-abandonada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-musica-abandonada\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica abandonada"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m me tira da cabe\u00e7a que Renato Vivacqua desistiu de escrever sobre m\u00fasica brasileira, principalmente sobre marchinhas de carnaval, s\u00f3 para n\u00e3o ter que comentar o que achava de Jenifer, Dalila, Juliana e outras mulheres \u2013 temas carnavalescos recentes \u2013 que tomaram o lugar das mulatas, loirinhas e outras musas sem nome, mas com gra\u00e7a, de ontem.<\/p>\n<p>Vivacqua \u00e9 um ex-carioca, j\u00e1 candango, que passa a vida recolhendo hist\u00f3rias e analisando a tal MPB, e exercendo o que ele chama de indigna\u00e7\u00e3o c\u00edvica. Autor de livros e artigos sobre personagens e momentos da m\u00fasica brasileira, anunciou aos amigos que vai parar. Ningu\u00e9m acredita. Deix\u00e1-lo sem m\u00fasica \u00e9 como tirar o ar.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo ele encheu um porta-malas grande com uma pequena parte de seu acervo. Sorte que eu estava por perto. Mas n\u00e3o me considero herdeiro desse tesouro; estou mais para um fiel deposit\u00e1rio, que vem usufruindo de revistas de modinhas, cat\u00e1logos de partituras de sambas e marchas, discos e fitas.<\/p>\n<p>\u00c9 o registro de grande parte do que foi produzido para o chamado tr\u00edduo momesco, notadamente depois dos anos 50, quando os compositores come\u00e7aram a ver que poderiam fazer dinheiro com a criatividade e as sociedades arrecadadoras come\u00e7aram a cobrar pela execu\u00e7\u00e3o das marchinhas e sambas. Antes, como disse Sinh\u00f4, samba era como passarinho: de quem pegar primeiro.<\/p>\n<p>Vivacqua passou a vida recolhendo essas revistas e discos, n\u00e3o com o esp\u00edrito do colecionador que apenas acumula coisas, mas com a sagacidade do pesquisador e a curiosidade do amante. Apaixonado por todo tipo de m\u00fasica boa produzida no Brasil, viveu o apogeu e o decl\u00ednio do que ainda chama de \u201cm\u00fasica popular mais rica do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Diz que cansou. Mas \u00e9 bobagem: \u00e9 s\u00f3 sentar com ele por algumas horas na padaria \u2013 sim, a boemia n\u00e3o combina com a idade \u2013 que as hist\u00f3rias v\u00eam aos borbot\u00f5es, revelando a inabal\u00e1vel paix\u00e3o. Seu livro mais recente, ali\u00e1s, \u00e9 bem isso. Em parceria com o m\u00e9dico Eudes Fernandes, \u00e9 colet\u00e2nea de artigos sobre grandes artistas, casos, sempre buscando a perspectiva hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mas em parte Vivacqua tem raz\u00e3o de anunciar a despedida. H\u00e1 um des\u00e2nimo generalizado entre as pessoas que gostam da MPB. Enquanto a nossa m\u00fasica instrumental viceja e provoca arrepios; os trovadores parecem nos ter abandonado. Est\u00e1 certo que faz tempo que o Brasil n\u00e3o inspira ningu\u00e9m, mas at\u00e9 mesmo as marchinhas de carnaval, pequenas p\u00e9rolas de insol\u00eancia que o pa\u00eds se acostumou a ouvir, sucumbiram.<\/p>\n<p>H\u00e1 marchinhas cr\u00edticas, mas a raiva embutida nos versos impede que a gente se divirta. \u00c9 mais para dizer \u201cbem feito\u201d, como se fosse um tomate podre imagin\u00e1rio sendo arremessado, do que para se divertir. Pensando bem, depois que homem passou a se vestir de mulher at\u00e9 na hora do expediente, o carnaval perdeu o sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso categoria at\u00e9 para avacalhar. E n\u00e3o sei o que Renato Vivacqua acha de Jenifer, a m\u00fasica do carnaval deste ano, que veio do Mato Grosso, tradicionalmente terra de outros g\u00eaneros musicais; mas tor\u00e7o para que ele nem tenha ouvido.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 1 de mar\u00e7o de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m me tira da cabe\u00e7a que Renato Vivacqua desistiu de escrever sobre m\u00fasica brasileira, principalmente sobre marchinhas de carnaval, s\u00f3 para n\u00e3o ter que comentar o que achava de Jenifer, Dalila, Juliana e outras mulheres \u2013 temas carnavalescos recentes \u2013 que tomaram o lugar das mulatas, loirinhas e outras musas sem nome, mas com gra\u00e7a, de ontem. 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