{"id":540,"date":"2019-03-16T13:44:21","date_gmt":"2019-03-16T16:44:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=540"},"modified":"2019-03-16T13:44:21","modified_gmt":"2019-03-16T16:44:21","slug":"o-machismo-em-cantadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-machismo-em-cantadas\/","title":{"rendered":"O machismo em cantadas"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval acabou, Momo perdeu o reinado e as coisas voltam ao normal. Mas o normal mudou. N\u00e3o sei quem inaugurou cadeia por ter cometido o crime de ass\u00e9dio sexual, que estreou nessa folia, mas a hist\u00f3ria machista brasileira jamais ser\u00e1 a mesma.<\/p>\n<p>Mas o machismo n\u00e3o vai morrer por decreto. H\u00e1 toda uma cultura envolvida e que agora pode servir de alerta, ao inv\u00e9s de simplesmente ser proibida como querem alguns. \u00c9 o caso da m\u00fasica popular, cheia de exemplos de comportamentos pret\u00e9ritos, agora ilegais, que envolvia homens e mulheres, que podem servir de exemplo de uma \u00e9poca, jamais proibida.<\/p>\n<p>Carmen Miranda, em 1932, gravou <em>Mulato de Qualidade<\/em>, samba de Andr\u00e9 Filho, o autor de <em>Cidade Maravilhosa<\/em>, que dizia assim: \u201cVivo feliz, no meu canto, sossegada\/ Tenho amor, tenho carinho\/ Tenho tudo, at\u00e9 pancada\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo ano, Noel Rosa escreveu <em>Mulher Indigesta<\/em> \u2013 \u00a0\u201cmerece um tijolo na testa\u201d, cantou. Dois anos antes Ary Barroso ganhou o concurso de m\u00fasicas de carnaval na voz de Francisco Alves: \u201cEssa mulher h\u00e1 muito tempo me provoca\/ D\u00e1 nela! D\u00e1 Nela\u201d.<\/p>\n<p>Em 1974, nem tanto tempo atr\u00e1s, Simone cantou um samba de roda \u2013 tamb\u00e9m gravada por Martinho da Vila \u2013 que diz: \u201cSe essa mulher fosse minha\/ Eu tirava do samba j\u00e1, j\u00e1\/ Dava uma surra nela\/ Que ela gritava: chega\u201d.<\/p>\n<p>Francisco Alves, o rei da voz, em parceria com Jorge Faraj, gravou uma valsinha em 1936: \u201cCertas mulheres que conhe\u00e7o\/ Que vendem conforme o pre\u00e7o\/ Os seus amores banais\/ E eu volto a chorar pensando\/ Que fui bem tolo te amando\/ Pois tu deves ser das tais\u201d.<\/p>\n<p>E M\u00e1rio Lago que, com Ataulfo Alves, comporia <em>Am\u00e9lia<\/em>, s\u00edmbolo nacional da mulher submissa, treinou antes com Benedito Lacerda. A m\u00fasica <em>N\u00famero Um<\/em> foi gravada por Orlando Silva, em 1939: \u201cEras no fundo uma f\u00fatil\/ E foste de m\u00e3o em m\u00e3o\/ Satisfaz tua vaidade\/ Muda de dono \u00e0 vontade\/ Isto em mulher \u00e9 comum\u201d.<\/p>\n<p>Ainda houve Em\u00edlia \u2013 \u201cEu quero uma mulher, que saiba lavar e cozinhar\/ E de manh\u00e3 cedo, me acorde na hora de trabalhar\u201d \u2013 de Wilson Batista, gravada em 1942 por Vassourinha.<\/p>\n<p>Roberto Carlos, em <em>Esse Cara Sou Eu<\/em>, se coloca na pele do \u201dher\u00f3i esperado por toda mulher\u201d. Emicida, em Trepadeira, foi mais expl\u00edcito: &#8220;Dei todo amor, tratei como flor \/ mas no fim era uma trepadeira&#8221;. E Seu Jorge deu um tapa no cavalheirismo: \u201cSe fosse mulher feia tava tudo certo\/ Mulher bonita mexe com meu cora\u00e7\u00e3o\u201d, em <em>Amiga da Minha Mulher<\/em>.<\/p>\n<p>A m\u00fasica popular \u00e9 repleta de letras assim e se algu\u00e9m acha que \u00e9 coisa do passado \u00e9 porque est\u00e1 cultivando o salutar h\u00e1bito de n\u00e3o ouvir funk, que \u00e9 popular, mas n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. O curioso \u00e9 que mulheres de ontem e de hoje participam da detra\u00e7\u00e3o, idolatrando os cantores.<\/p>\n<p>Francisco Alves, por exemplo, que tantas m\u00fasicas machistas gravou, derreteu cora\u00e7\u00f5es femininos at\u00e9 a morte, em 1952, quando milhares de mulheres sa\u00edram \u00e0 rua para chorar pelo \u00eddolo. Mesmo caso do MC Catra, morto recentemente. O macho s\u00f3 vai deixar de existir quando ningu\u00e9m mais chorar por ele.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 8 de mar\u00e7o de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval acabou, Momo perdeu o reinado e as coisas voltam ao normal. Mas o normal mudou. N\u00e3o sei quem inaugurou cadeia por ter cometido o crime de ass\u00e9dio sexual, que estreou nessa folia, mas a hist\u00f3ria machista brasileira jamais ser\u00e1 a mesma. Mas o machismo n\u00e3o vai morrer por decreto. 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