{"id":550,"date":"2019-03-17T16:53:59","date_gmt":"2019-03-17T19:53:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=550"},"modified":"2019-03-17T16:53:59","modified_gmt":"2019-03-17T19:53:59","slug":"onde-estao-os-herois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/onde-estao-os-herois\/","title":{"rendered":"Onde est\u00e3o os her\u00f3is?"},"content":{"rendered":"<p>A mangueira foi campe\u00e3 do carnaval carioca buscando her\u00f3is que n\u00e3o est\u00e3o nos livros, reduzindo os que est\u00e3o; mas essa hist\u00f3ria de recontar a Hist\u00f3ria n\u00e3o cabe num samba. Ao contr\u00e1rio, a revis\u00e3o pode trazer surpresas \u2013 para o bem e para o mal.<\/p>\n<p>Essas confus\u00f5es come\u00e7am ainda na \u00e9poca do descobrimento. Nas primeiras narrativas, Cabral era tratado como um sortudo, que para escapar de uma violenta tormenta, teria desviado seus navios e deu na costa brasileira.<\/p>\n<p>Hoje sabemos que os portugueses j\u00e1 dispunham de informa\u00e7\u00f5es que davam como certa a presen\u00e7a de terras desconhecidas por aqui. E os nativos foram chamados de \u00edndios n\u00e3o porque Cabral achava que estava na \u00cdndia, terra das especiarias, mas porque o continente foi chamado de \u00cdndias Ocidentais.<\/p>\n<p>O caso de Tiradentes \u00e9 bem diferente. Ao contr\u00e1rio do que nos contaram, o alferes era um personagem menor na Inconfid\u00eancia Mineira, movimento elitista, e sua luta tinha muito menos a ver com a liberdade \u2013 foi como m\u00e1rtir da Independ\u00eancia que ele foi impresso na nota de cinco mil cruzeiros \u2013 do que com os pesados impostos cobrados pela coroa. Nem t\u00e3o heroicamente, foi preso em fuga, escondido atr\u00e1s das cortinas de uma casa.<\/p>\n<p>Outro her\u00f3i que teve problemas com revis\u00e3o foi Aleijadinho. Ant\u00f4nio Francisco Lisboa realmente existiu, mas quem passou para a Hist\u00f3ria foi um personagem inventado por Rodrigo Jos\u00e9 Ferreira Bretas numa monografia. No af\u00e3 de tornar o personagem ainda mais interessante, inspirou-se no quas\u00edmodo de <em>O Corcunda de Notre Dame<\/em>, de Victor Hugo.<\/p>\n<p>Escreveu at\u00e9 que os problemas f\u00edsicos do artista come\u00e7aram quando ele tomou uma subst\u00e2ncia para ampliar seus dotes art\u00edsticos. Para piorar, sabemos hoje que nem todas as 360 obras atribu\u00eddas a ele sa\u00edram de sua oficina.<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos o Brasil viu os bandeirantes com olhos desconfiados. Respons\u00e1veis pelas incurs\u00f5es ao interior que desenharam nosso pa\u00eds, foram acusados de exterminar \u00edndios. N\u00e3o \u00e9 verdade. Muitos ind\u00edgenas chegaram a se incorporar \u00e0s Bandeiras, irritando padres jesu\u00edtas que s\u00f3 pensavam na catequiza\u00e7\u00e3o, e inventaram hist\u00f3rias para difamar os aventureiros em busca de riquezas.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m uma revis\u00e3o hist\u00f3rica que mostrou que os escravos vindos da \u00c1frica eram capturados pelos inimigos locais e vendidos. E aqui mesmo, fugidos ou alforriados, n\u00e3o era incomum um rec\u00e9m liberto ter seus pr\u00f3prios escravos. At\u00e9 Zumbi, s\u00edmbolo da luta pela liberdade no quilombo dos Palmares, tinha escravos.<\/p>\n<p>Outras verdades apareceram. Se durante muito tempo as bananas foram uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo nacional, \u00e9 porque n\u00e3o nos contaram que \u00e9 fruta alien\u00edgena, do sudeste asi\u00e1tico. Assim como o coco, manga e jaca. Caminha acertou quando escreveu que, plantando, tudo d\u00e1.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria contava que a feijoada nasceu na senzala, porque as carnes nobres do porco eram servidas na casa grande. Na verdade, a feijoada segue a tradi\u00e7\u00e3o europeia dos cozidos, acrescentada do feij\u00e3o; \u00e9, portanto, uma inven\u00e7\u00e3o portuguesa com certeza, assim como a dobradinha, feita com v\u00edsceras de bovinos ou ovinos.<\/p>\n<p>Melhor parar. Se continuar a revis\u00e3o \u00e9 capaz de n\u00e3o sobrar nada. Vamos ficar s\u00f3 com os \u201cher\u00f3is\u201d do BBB.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 17 de mar\u00e7o de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mangueira foi campe\u00e3 do carnaval carioca buscando her\u00f3is que n\u00e3o est\u00e3o nos livros, reduzindo os que est\u00e3o; mas essa hist\u00f3ria de recontar a Hist\u00f3ria n\u00e3o cabe num samba. 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