{"id":556,"date":"2019-03-24T14:52:00","date_gmt":"2019-03-24T17:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=556"},"modified":"2019-03-24T14:52:00","modified_gmt":"2019-03-24T17:52:00","slug":"sabedoria-sobre-rodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/sabedoria-sobre-rodas\/","title":{"rendered":"Sabedoria sobre rodas"},"content":{"rendered":"<p>Desde que encheram as estradas de pardais e buracos, desisti de vez de viajar de carro. Mas dias atr\u00e1s peguei uma estradinha; nada muito cumprido, pista boa, algum movimento. Mas senti falta de algo que costumava me divertir quando era um motorista mais contumaz: as frases nas carrocerias dos caminh\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando menino meu pai me desfiava a contar o n\u00famero de fenem\u00eas que eu conseguia ver na estrada; era uma forma de diminuir a excita\u00e7\u00e3o causada pela viagem e pelo pouco espa\u00e7o que havia na Kombi 1959, originalmente marrom escura, repintada de azul e branco. Fenem\u00ea, meus jovens, eram caminh\u00f5es fabricados pela F\u00e1brica Nacional de Motores (FNM), nos primeiros tempos da ind\u00fastria automobil\u00edstica brasileira.<\/p>\n<p>Bastou come\u00e7ar a ler melhor para mudar de distra\u00e7\u00e3o. A moda de criar frases espirituosas para escrev\u00ea-las na carroceria, soube depois, veio da Argentina, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o do fileteado, a colorida arte dos Hermanos que enfeitava carro\u00e7as e faz, por exemplo, a alegria do Caminito, em Buenos Aires. Um av\u00f4 do grafite.<\/p>\n<p>Nos caminh\u00f5es havia um pouco de filosofia (\u201ccom os pneus, vou marcando os caminhos do meu trabalho\u201d), poesia (\u201ccom teus olhos me ilumino\u201d) e muito humor (\u201cpardal que acompanha jo\u00e3o-de-barro vira ajudante de pedreiro\u201d).<\/p>\n<p>Pode ser falta de sorte, mas nos 100 quil\u00f4metros que rodei vi v\u00e1rios caminh\u00f5es, mas nenhuma frase. Acho que os motoristas aut\u00f4nomos perderam a gra\u00e7a e as empresas n\u00e3o permitem macular suas marcas com frases melhores que os slogans delas (nem mesmo o imbat\u00edvel \u201co mundo gira e a Lusitana roda\u201d, que marcava a tradicional transportadora).<\/p>\n<p>No passado recente havia um verdadeiro comp\u00eandio da vida sobre rodas: \u201cMais perigoso que cavalo na pista s\u00f3 burro na dire\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cseja paciente na estrada para n\u00e3o ser paciente no hospital\u201d, \u201cn\u00e3o me siga: estou perdido\u201d, \u201cn\u00e3o xingue o caminhoneiro, ele pode ser seu pai\u201d, \u201ca velocidade que emociona \u00e9 a mesma que mata\u201d.<\/p>\n<p>Na terra sem freio das estradas, havia muito de misoginia; hoje muitos caminhoneiros seriam enquadrados numa dessas leis antitudo: \u201ccaminhoneiro que tem mulher feia viaja tranquilo\u201d, as mulheres perdidas s\u00e3o as mais procuradas\u201d, \u201cmulher \u00e9 como rem\u00e9dio: agite antes de usar\u201d, \u201cem casa que mulher manda at\u00e9 o galo canta fino\u201d, \u201cmulher \u00e9 como rel\u00f3gio: depois do primeiro defeito nunca mais anda direito\u201d, \u201cmulher feia e morcego s\u00f3 saem \u00e0 noite\u201d, \u201cmarido de mulher feia s\u00f3 acorda assustado\u201d. Mas ningu\u00e9m apanhava tanto quanto as sogras: \u201caqui jaz minha sogra: descanso em paz\u201d.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m um espa\u00e7o para a sabedoria popular: \u201ccada ovo comido \u00e9 uma galinha perdida\u201d, \u201cdireito tem quem direito anda\u201d, \u201ccal\u00fania \u00e9 como carv\u00e3o: quando n\u00e3o queima, suja\u201d, \u201cquem madruga fica com sono o dia todo\u201d, \u201cnas curvas da vida, entre devagar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E muito exploravam o absurdo: \u00a0\u201calegria de poste e ficar em mato sem cachorro\u201d, \u201crico tem veia po\u00e9tica, pobre tem varize\u201d, \u201csou um eu a procura de um tu para sermos n\u00f3s\u201d, \u201cmalandra \u00e9 a pulga que espera comida na cama\u201d. E alguma inf\u00e2mia: \u201cn\u00e3o sou m\u00e1gico, mas vivo nesse truck.<\/p>\n<p>As estradas ficaram sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 22 de mar\u00e7o de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que encheram as estradas de pardais e buracos, desisti de vez de viajar de carro. Mas dias atr\u00e1s peguei uma estradinha; nada muito cumprido, pista boa, algum movimento. Mas senti falta de algo que costumava me divertir quando era um motorista mais contumaz: as frases nas carrocerias dos caminh\u00f5es. 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