{"id":559,"date":"2019-03-24T15:04:00","date_gmt":"2019-03-24T18:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=559"},"modified":"2019-03-24T15:04:00","modified_gmt":"2019-03-24T18:04:00","slug":"revoltas-juvenis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/revoltas-juvenis\/","title":{"rendered":"Revoltas juvenis"},"content":{"rendered":"<p>A arma ficava em cima do guarda-roupas do arm\u00e1rio. Ningu\u00e9m nunca imaginou, mas eu sabia que a .45 do meu pai, militar, ficava no canto esquerdo, ao fundo, ao lado de uma caixa de muni\u00e7\u00e3o. Eu puxava as tr\u00eas gavetas de baixo e fazia uma escada para ver e mexer na pistola. Mas era muito pesada; preferia brincar com os proj\u00e9teis.<\/p>\n<p>Na rua, a brincadeira favorita da turma era mocinho contra \u00edndio (ningu\u00e9m queria ser bandido, mas os silv\u00edcolas \u2013 embora fossem inspirados nas tribos do cinema, portanto, importados \u2013 sofriam menos rejei\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, eram os que perdiam o par ou \u00edmpar). Todos armados. Eram tempos deliciosamente incorretos, politicamente.<\/p>\n<p>Mais tarde, o sonho de consumo era uma espingarda de chumbinho para mirar em passarinho. Atiradeira de pau de goiabeira tamb\u00e9m servia.<\/p>\n<p>Um dia, o menino maior que todos \u2013 que a gente achava retardado (palavra hoje proibida) \u2013 apareceu com um arremedo de arma feita de canos de ferro, improvisada mas carregada, amarrou o pr\u00f3prio cachorrinho em um toco \u00e0 frente de um barranco e disparou. O vira-latas se safou por pouco; o menino-grande errou o tiro e n\u00e3o tinha mais p\u00f3lvora para carregar bolinhas de rolim\u00e3 que faziam vez de muni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do col\u00e9gio era praxe formar-se um bolinho de gente; algu\u00e9m esticava o bra\u00e7o, abria a palma da m\u00e3o e desfiava: cospe aqui quem for homem. Tirava a m\u00e3o antes da cusparada que invariavelmente atingia algu\u00e9m e dava in\u00edcio \u00e0 pancadaria. Testosterona demais, namoros de menos, \u00e9ramos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>A disputa era quem tinha o canivete mais afiado e com o acabamento mais bonito. Ambr\u00f3sio fazia inveja com cabo de madrep\u00e9rola, at\u00e9 que algu\u00e9m apareceu com um canivete su\u00ed\u00e7o, com prote\u00e7\u00e3o vermelha e uma cruz branca, cheio de fun\u00e7\u00f5es \u2013 al\u00e9m de arma branca, tinha abridor de lata, chave de fenda e mais um monte de coisa. Ningu\u00e9m furou ningu\u00e9m, sequer talhou um dedo.<\/p>\n<p>Passei horas trepado num flamboyant para tentar escapar de uma surra por causa de alguma peraltice. Desci de fome, resignado, levei meus tapas e jantei. Foi dormir com os gl\u00fateos em chamas mas de barriga cheia. N\u00e3o deu tempo de ficar revoltado; depois de um dia inteiro de rua e pelada, ca\u00ed logo no sono.<\/p>\n<p>Na estante, havia uma cole\u00e7\u00e3o de livros de Jorge Amado. O que me atra\u00eda \u2013 e aos amigos a quem mostrava \u2013 eram as ilustra\u00e7\u00f5es picantes de Caryb\u00e9, devoradas pelos olhos curiosos. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 que os livros foram lidos, quase todos mais de uma vez. E ningu\u00e9m ficou muito tarado.<\/p>\n<p>Pior foi a ocasi\u00e3o que o padre Z\u00e9 Maria nos surpreendeu no fosso do campo de futebol quando l\u00edamos um catecismo de Carlos Z\u00e9firo \u2013 revistinhas com desenhos pornogr\u00e1ficos e aventuras cheias de situa\u00e7\u00f5es mirabolantes que enchiam cora\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7a e os cal\u00e7\u00f5es de desejo. Todo s\u00e1bado a turma fazia uma vaquinha para comprar um n\u00famero novo na banca do italiano, que fazia vista grossa para a idade da petizada.<\/p>\n<p>Ao que me consta, ningu\u00e9m da turminha virou assassino. Do menino-grande nunca mais ouvi falar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 24 de mar\u00e7o de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arma ficava em cima do guarda-roupas do arm\u00e1rio. Ningu\u00e9m nunca imaginou, mas eu sabia que a .45 do meu pai, militar, ficava no canto esquerdo, ao fundo, ao lado de uma caixa de muni\u00e7\u00e3o. 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