{"id":566,"date":"2019-04-21T20:30:22","date_gmt":"2019-04-21T23:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=566"},"modified":"2019-04-21T20:36:19","modified_gmt":"2019-04-21T23:36:19","slug":"isso-vai-passar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/isso-vai-passar\/","title":{"rendered":"Isso vai passar"},"content":{"rendered":"<p>O ermo. Vinicius de Moraes tinha alguma obsess\u00e3o com este substantivo, presente em algumas de suas poesias \u2013 er\u00f3ticas, como <em>Ah, como eram belos neste instante os ermos mar\u00edtimos&#8230;<\/em>, ou rom\u00e2nticas como <em>Redondilhas para Tati <\/em>e<em> Soneto do Amor como um Rio<\/em> \u2013 e que definiu o local onde surgiu Bras\u00edlia, na <em>Sinfonia da Alvorada<\/em>.<\/p>\n<p>Sabe-se que nesta terra viveram tribos pr\u00e9-colombianas que deixaram instrumentos rudimentares e pinturas rupestres para marcar presen\u00e7a; sabe-se que garimpeiros em busca de ouro criaram pequenos n\u00facleos habitacionais na \u00e9poca dos bandeirantes; e que depois fazendeiros portugueses ocuparam a regi\u00e3o, trazendo escravos.<\/p>\n<p>Mas o poeta tem raz\u00e3o. S\u00f3 o canto agudo e insistente da siriema quebrava o sil\u00eancio absoluto, quando chegaram os homens abrindo picadas no cerrado, que logo se transformariam em rasgos sim\u00e9tricos e que, em mil dias, ergueriam uma cidade; n\u00e3o uma qualquer, mas um marco para come\u00e7ar um novo Brasil. Um monumento.<\/p>\n<p>59 anos depois, Bras\u00edlia ainda \u00e9 um mist\u00e9rio para a maioria dos brasileiros. Mas a febre inicial daquela contagiante loucura passou e deu lugar a uma passiva sanidade nacional, um racionalismo radical que reduziu a promessa bem-aventurada; a cidade nasceu de uma mistura de utopia e loucura e caiu nas m\u00e3os de gente que n\u00e3o sabia sonhar.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia cumpriu parte de seu destino, exatamente a ditada pelo neoc\u00f3rtex cerebral, que lida exatamente com o pensamento reto e menos sofisticado \u2013 tirou a elite do litoral, aumentou o tamanho do pa\u00eds, fez o Brasil se enxergar como um todo. No hemisf\u00e9rio direito, habitam as emo\u00e7\u00f5es; este foi deixado de lado pelas tais autoridades.<\/p>\n<p>Ainda bem que o povo tomou conta. Houve tempo em que o brasiliense tinha obriga\u00e7\u00e3o de falar bem da sua cidade; havia um mecanismo de defesa rapidamente absorvido at\u00e9 mesmo pelos rec\u00e9m-chegados, que rebatiam at\u00e9 com certa viol\u00eancia qualquer ressalva que se fazia \u00e0 cidade. Tudo fruto do combate sistem\u00e1tico contra a nova capital.<\/p>\n<p>Hoje Bras\u00edlia nem liga para a capital. A rela\u00e7\u00e3o amorosa da cidade com sua gente independe das opini\u00f5es alheias; \u00e9 uma cidade calorosa que juntou o melhor que cada col\u00f4nia trouxe de todos os cantos do Brasil e misturou num cadinho que nem precisou ir ao forno.<\/p>\n<p>A santa loucura de JK e seus camaradas impulsionou a cidade em seus anos de forma\u00e7\u00e3o cultural; hoje, abra\u00e7amos o convencional, a brasa da inven\u00e7\u00e3o anda abafada pelas cinzas de pol\u00edticas culturais equivocadas, que valorizam as manifesta\u00e7\u00f5es mais universais e deixam de lado as inven\u00e7\u00f5es da cidade. Mas isso vai passar.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u00e9 filha da inven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o merece ser tratada como uma cidade qualquer; se os problemas sociais s\u00e3o os mesmos de toda grande metr\u00f3pole \u00e9 preciso investir na identidade da nossa gente, na cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de um jeito e um sotaque pr\u00f3prios. Nossos poetas andam calados, os m\u00fasicos tocam em surdina, os atores e dramaturgos n\u00e3o saem mais da coxia. A lei do sil\u00eancio se imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Mas a loucura est\u00e1 no ar. Basta catalisar e transformar em atividade e arte. N\u00e3o vamos voltar ao ermo.<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns, Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 21 de abril de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ermo. Vinicius de Moraes tinha alguma obsess\u00e3o com este substantivo, presente em algumas de suas poesias \u2013 er\u00f3ticas, como Ah, como eram belos neste instante os ermos mar\u00edtimos&#8230;, ou rom\u00e2nticas como Redondilhas para Tati e Soneto do Amor como um Rio \u2013 e que definiu o local onde surgiu Bras\u00edlia, na Sinfonia da Alvorada. 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