{"id":579,"date":"2019-04-28T14:51:18","date_gmt":"2019-04-28T17:51:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=579"},"modified":"2019-04-28T14:57:36","modified_gmt":"2019-04-28T17:57:36","slug":"verdades-e-mentiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/verdades-e-mentiras\/","title":{"rendered":"Verdades e mentiras"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m mais pode duvidar que voltamos ao tempo das Marocas. Ou da Candinha. Um fuxico, hoje, vale muito mais que uma informa\u00e7\u00e3o e o que interessa mesmo \u00e9 o rebuli\u00e7o; nunca a verdade valeu t\u00e3o pouco. Assim, n\u00e3o surpreende a pesquisa que mostra que a maioria das pessoas se informam por meio das redes de amigos, na internet.<\/p>\n<p>E n\u00e3o vai melhorar. Se antigamente a express\u00e3o \u2018deu no jornal\u2019 tinha o valor reconhecido na face como uma nota promiss\u00f3ria da verdade, hoje \u00e9 bem o contr\u00e1rio; a mesma pesquisa mostra que a imprensa \u00e9 vista com muita desconfian\u00e7a pelo cidad\u00e3o. Perde feito para outra express\u00e3o: \u2018um amigo me contou\u2019.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso apurar mais nada. Se o fato, do jeito que chegou, agrada, espalha-se, inclusive com coment\u00e1rios enriquecidos. As d\u00favidas ficam reservadas a quem pensa diferente; at\u00e9 no botequim, onde os pontos de vista mais esdr\u00faxulos sempre foram respeitados, est\u00e1-se aderindo \u00e0 moda e as discuss\u00f5es vem sendo abolidas em nome de uma falsa pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dia desses fui convidado para falar com futuros jornalistas. N\u00e3o sei bem por que insistem em querer falar comigo sobre essas coisas, mas como n\u00e3o sou mal-educado e n\u00e3o dispenso uma prosa, voltei a uma sala de aula. S\u00f3 queriam saber do futuro da profiss\u00e3o diante do avan\u00e7o das redes sociais; n\u00e3o tinha respostas a oferecer. Preferi ouvir.<\/p>\n<p>E pelo que pude perceber os futuros jornalistas tamb\u00e9m n\u00e3o gostam do jornalismo que recebem. Eles tamb\u00e9m preferem se informar pelos amigos, numa conversa de conflu\u00eancias, que n\u00e3o admite contr\u00e1rios, como se as pessoas estivessem \u00e0 procura de s\u00f3sias, de espelhos de imagens imut\u00e1veis, confort\u00e1veis e que n\u00e3o apresentem surpresas.<\/p>\n<p>Ou seja: o problema n\u00e3o \u00e9 do jornalismo. Pelo menos n\u00e3o at\u00e9 esses jovens assumirem o comando das reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As not\u00edcias falsas existem desde que o mundo \u00e9 mundo, mas nunca foram mais importantes que a verdade. Sempre foram tratadas como anomalias, pura e simplesmente mentiras ou serviam para aforismos divertidos, como o do franc\u00eas Georges Duhamel, autor de Civilization (1918), que escreveu: &#8220;Como toda pessoa s\u00e9ria, n\u00e3o acredito na verdade hist\u00f3rica, mas na verdade da lenda&#8221;. Mas \u00e9 preciso lembrar que ele tamb\u00e9m disse que \u00e9 \u201caben\u00e7oado o homem que n\u00e3o tem nada a dizer\u201d.<\/p>\n<p>E ficou famosa a frase do editor do jornal Shinbone Star, no filme <em>O Homem Que Matou o Fac\u00ednora<\/em> (1961), de John Ford, ao ouvir a confiss\u00e3o do senador Stoddard (James Stewart), que havia feito carreira com a mentira de que havia matado o tal fac\u00ednora (Lee Marvin), na verdade morto por um pistoleiro, personagem de John Wayne. \u201cQuando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda\u201d, disse o jornalista, rasgando as anota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acreditar nos amigos \u00e9 bom; mas barrar o fluxo da informa\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o seja agrad\u00e1vel, \u00e9 a pior escolha. \u00c9 como disse o Alcides, outro dia no bar, ao anunciar que ficaria de costas para a TV a partir daquele momento e n\u00e3o veria mais as not\u00edcias: \u201cN\u00e3o gosto de ver esse cara me desmentindo todo dia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 28 de abril de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m mais pode duvidar que voltamos ao tempo das Marocas. 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