{"id":610,"date":"2019-06-16T12:24:59","date_gmt":"2019-06-16T15:24:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=610"},"modified":"2019-06-16T12:24:59","modified_gmt":"2019-06-16T15:24:59","slug":"o-grande-exodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-grande-exodo\/","title":{"rendered":"O grande \u00eaxodo"},"content":{"rendered":"<p>Botequim \u00e9 um lugar que n\u00e3o existe. Ou melhor, h\u00e1 um espa\u00e7o f\u00edsico, balc\u00e3o, cadeiras e geladeiras; mas o que importa mesmo s\u00e3o os frequentadores, pessoas que v\u00e3o formando uma confraria, estreitando la\u00e7os, dividindo problemas, ang\u00fastias e alegrias. \u00c9 um porto seguro para gente que nem navega, embora alguns enjoem.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o do elenco de um bar \u00e9 lenta, passa por etapas que v\u00e3o desde mudan\u00e7as de resid\u00eancia a idade, quando o sujeito passa a ir \u00e0 farm\u00e1cia com mais frequ\u00eancia que ao boteco. Mas quando acontece o \u00eaxodo, o caso \u00e9 mais s\u00e9rio; como na cena b\u00edblica, \u00e9 um espet\u00e1culo triste de se observar.<\/p>\n<p>Est\u00e1 acontecendo uma retirada em massa agora mesmo. O bar que o pessoal frequentava h\u00e1 anos, alguns h\u00e1 mais de d\u00e9cada, est\u00e1 sendo substitu\u00eddo por outro estabelecimento; como na B\u00edblia, homens cansados da escravid\u00e3o e dos maus tratos que vinham sofrendo desde que a idade os obrigou a beber mais parcimoniosamente e dispensar os gordurosos \u2013 e deliciosos \u2013 petiscos do lugar v\u00e3o em busca do bar prometido.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de gentrifica\u00e7\u00e3o bo\u00eamia. Gentrifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um termo relativamente novo que define mudan\u00e7as urbanas criadas a partir de motiva\u00e7\u00f5es externas, normalmente por quest\u00f5es econ\u00f4micas. Assim, fam\u00edlias v\u00e3o sendo levadas para regi\u00f5es cada vez mais perif\u00e9ricas, de acordo com a valoriza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas em que moram originalmente; no DF \u00e9 um fen\u00f4meno constante por causa do crescimento acelerado.<\/p>\n<p>Quando o neg\u00f3cio chega \u00e0s bodegas \u00e9 mais complicado. Ningu\u00e9m gosta de mudar de bar; quando o faz \u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 outro jeito. O caso recente come\u00e7ou lentamente. Um dos veteranos frequentadores, ali\u00e1s, o decano, deixou de ir depois de se sentir ofendido a partir de uma miser\u00e1vel conta.<\/p>\n<p>O consumo do bo\u00eamio \u00e9 coisa s\u00e9ria. Colocar uma cerveja a mais na conta \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima, equivale a chamar o sujeito de descontrolado. N\u00e3o \u00e9 pelo dinheiro, ainda mais no caso do nosso personagem, bem de vida, que amealhou um bom patrim\u00f4nio durante suas d\u00e9cadas de trabalho como m\u00e9dico. \u00c9 pela satisfa\u00e7\u00e3o de ter consci\u00eancia do que consumiu.<\/p>\n<p>Que se cobre por um quitute a mais; nunca por uma dose n\u00e3o consumida. Foi o que aconteceu e ele, orgulhoso como um toureiro espanhol, preferiu mudar de ares. O bodegueiro n\u00e3o se interessou em demov\u00ea-lo da ideia, talvez porque j\u00e1 n\u00e3o consumisse como antes.<\/p>\n<p>Como um Mois\u00e9s de Cecil B. DeMille, mas sem cajado, arrastou outros companheiros tamb\u00e9m maltratados para outro bar \u2013 que nem \u00e9 realmente um bar, mas um barraco improvisado.<\/p>\n<p>Com a altivez de um Charlton Heston na fita Os Dez Mandamentos, guiou o povo para um lugar ainda in\u00f3spito, mas que j\u00e1 servia cerveja gelada e empada. Mais nada. H\u00e1 coisa de alguns dias, foi instalada uma churrasqueira para servir espetinhos; tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel consumir um caldo de frango e a promessa para o pr\u00f3ximo final de semana \u00e9 uma galinhada.<\/p>\n<p>\u00c9 o ciclo da vida que se renova permanentemente. E nesses tempos de filosofia barata, \u00e9 como dizem Tim\u00e3o e Pumba em <em>O Rei Le\u00e3o<\/em>, usando o sua\u00edle: Hakuna Matata.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 14 de junho de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Botequim \u00e9 um lugar que n\u00e3o existe. Ou melhor, h\u00e1 um espa\u00e7o f\u00edsico, balc\u00e3o, cadeiras e geladeiras; mas o que importa mesmo s\u00e3o os frequentadores, pessoas que v\u00e3o formando uma confraria, estreitando la\u00e7os, dividindo problemas, ang\u00fastias e alegrias. \u00c9 um porto seguro para gente que nem navega, embora alguns enjoem. 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