{"id":625,"date":"2019-06-30T15:03:53","date_gmt":"2019-06-30T18:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=625"},"modified":"2019-06-30T15:03:53","modified_gmt":"2019-06-30T18:03:53","slug":"tudo-menos-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/tudo-menos-isso\/","title":{"rendered":"Tudo menos isso"},"content":{"rendered":"<p>Tudo na vida tem hora e lugar, diz o pessoal que tem bom senso. Mas o que dizer do quent\u00e3o? \u00c9 talvez a mais absurda inven\u00e7\u00e3o depois que o pessoal come\u00e7ou a misturar bebida, fazendo essas coisas perigosas, coquet\u00e9is que v\u00eam em cores bonitinhas, com espetos e guarda-chuvinhas nos copos baccarat.<\/p>\n<p>Os gregos come\u00e7aram essa orgia ao misturar vinho com mel, mas o neg\u00f3cio tomou corpo em 1860, quando foi publicado o primeiro livro de receitas \u2013 todas com pelo menos um tipo de licor na mistura. E o mundo inteiro passou a criar seus drinques.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o ficou para tr\u00e1s e come\u00e7ou a produzir suas pr\u00f3prias varia\u00e7\u00f5es; certamente a mais conhecida \u00e9 a caipirinha, mas tamb\u00e9m temos batidinhas e o inef\u00e1vel leite-de-on\u00e7a, que mistura pinga, coco e leite condensado para produzir a mais monumental dor de cabe\u00e7a que o ser humano \u00e9 capaz de suportar.<\/p>\n<p>Mas nada se compara ao quent\u00e3o. Tem algo errado numa bebida que precisa ser aquecida para ser ingerida e n\u00e3o \u00e9 ch\u00e1. Para fazer quent\u00e3o o cidad\u00e3o mistura cacha\u00e7a, lim\u00e3o, gengibre, mel, cravinho da \u00edndia, canela e a\u00e7\u00facar e bota para ferver. E h\u00e1 quem beba!<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, h\u00e1 um comparativo: o vinho quente. \u00c9 praticamente uma salada de frutas (com abacaxi, uva, laranja e ma\u00e7\u00e3) misturada com canela e cravinhos da \u00edndia e colocada num vinho \u2013 o mais vagabundo que se encontra no supermercado \u2013 que \u00e9 fervido.<\/p>\n<p>Em comum, as duas beberagens s\u00e3o servidas nas festas juninas e \u00e9 praticamente uma ofensa n\u00e3o aceitar, at\u00e9 porque invariavelmente v\u00eam acompanhada da frase: \u201cFaz bem \u00e0 sa\u00fade\u201d. E este tem sido um dos motivos de ningu\u00e9m me encontrar numa festa junina h\u00e1 anos; outro dia fui parar numa delas, mas com a garantia de que n\u00e3o teria quent\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 sempre um amanh\u00e3, como cantava Tito Madi. E naquela noite o Faixa chegou ao bar carregando uma garrafa t\u00e9rmica. Ele n\u00e3o \u00e9 ga\u00facho e nem tem cuia de chimarr\u00e3o, caf\u00e9 requentado tem no boteco e n\u00e3o chegamos ainda na fase de tomar leitinho quente com bolacha. Mas n\u00e3o houve mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Logo anunciou que tinha passado numa festinha e comprou o quent\u00e3o para nos oferecer. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o trouxe um pacote com quitutes juninos: minipamonhas, broa e forminhas de curau. S\u00f3 melhorou a situa\u00e7\u00e3o quando ele disse que queria trazer tamb\u00e9m por\u00e7\u00f5es de mungunz\u00e1, que o sulista chama de canjica e o maranhense de ch\u00e1 de burro, mas n\u00e3o deu.<\/p>\n<p>Quem aprecia uma bebidinha n\u00e3o se d\u00e1 muito bem com essas especialidades que v\u00eam do milho. A mistura \u00e9 terr\u00edvel. Mesmo sabendo que o suco g\u00e1strico \u00e9 capaz de derreter metais e rochas como o m\u00e1rmore, o encontro deles no est\u00f4mago nunca \u00e9 pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Os copos que estavam na mesa continham u\u00edsque, conhaque e at\u00e9 pinga; bebidas nobres, respeit\u00e1veis. Do lado, ainda havia restos de pele de frango frita. Houve um entreolhar coletivo que trazia um veredito un\u00e2nime: ningu\u00e9m ia chegar perto daquele quent\u00e3o. Inconformado com a rea\u00e7\u00e3o, o Faixa apelou: \u201cPessoal, faz bem \u00e0 sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 28 de junho de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo na vida tem hora e lugar, diz o pessoal que tem bom senso. 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