{"id":628,"date":"2019-06-30T15:35:32","date_gmt":"2019-06-30T18:35:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=628"},"modified":"2019-06-30T15:38:23","modified_gmt":"2019-06-30T18:38:23","slug":"tempo-de-fogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/tempo-de-fogueira\/","title":{"rendered":"Tempo de fogueira"},"content":{"rendered":"<p>Moraes Moreira lan\u00e7ou um xote para as festas juninas deste ano. Foi meio em cima da hora, n\u00e3o deu tempo de pegar e, convenhamos, <em>S\u00f3 Pensa Naquilo<\/em> \u2013 o xote \u2013 sequer faz refer\u00eancia aos festejos. Nem o santo homenageado, e que faz chover, faz parte da festa; S\u00e3o Jos\u00e9 \u00e9 de mar\u00e7o. Mas n\u00e3o interessa, \u00e9 um resgate importante.<\/p>\n<p>As festas juninas brasileiras, que come\u00e7aram com m\u00fasica e passos franceses da quadrille, hoje s\u00e3o uma express\u00e3o da nossa identidade como povo \u2013 ainda que o animador continue gritando seus anari\u00eas, nepadequ\u00e1s e alavantus.<\/p>\n<p>Na vestimenta s\u00f3 mudou a cal\u00e7a, antes remendada com panos coloridos \u2013 como o pessoal anda usando cal\u00e7a furada e pu\u00edda at\u00e9 em festa chique, perdeu o sentido \u2013, mas o chap\u00e9u de palha desfiada e a camisa quadriculada continuam firmes. Assim como os quitutes.<\/p>\n<p>As m\u00fasicas tamb\u00e9m s\u00e3o as mesmas. Em seus primeiros anos as festas eram embaladas por can\u00e7\u00f5es regionais, quase sempre de cunho religioso, at\u00e9 que o jornal <em>A Noite<\/em>, do Rio de Janeiro, em 1933, decidiu promover o primeiro concurso de marchinhas juninas, como era feito no carnaval.<\/p>\n<p>O valor do pr\u00eamio era polpudo \u2013 dois contos de reis \u2013 e atraiu os melhores compositores da \u00e9poca. Apesar do incentivo argent\u00e1rio, os concursos criaram a trilha sonora que perdura.<\/p>\n<p>No primeiro ano do concurso surgiram os dois primeiros cl\u00e1ssicos, ambos derrotados pelo j\u00fari, mas consagrados pelo povo. Assis Valente reservou <em>Cai, Cai, Bal\u00e3o<\/em> para sua musa Carmen Miranda, mas chegou atrasado. Ela j\u00e1 tinha prometido a Lamartine Babo gravar <em>Chegou a Hora da Fogueira<\/em>, o que efetivamente fez, em dueto com M\u00e1rio Reis.<\/p>\n<p><em>Cai, Cai, Bal\u00e3o<\/em> ficou com a irm\u00e3 de Carmen, Aurora Miranda em sua estreia, cantando com Francisco Alves e desde ent\u00e3o n\u00e3o deixou de ser tocada. A m\u00fasica ficou em quarto lugar, mas foi adotada pelo p\u00fablico; Lamartine ficou em quinto. Das tr\u00eas primeiro colocadas a \u00fanica que sobreviveu foi <em>Garimpeiro do Rio das Gar\u00e7as<\/em>, uma rumba (sim, rumba!) de Jo\u00e3o de Barro, gravada por Francisco Alves, nunca ouvida em festa junina.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que se abriu um novo fil\u00e3o e uma sequ\u00eancia de cl\u00e1ssicos. Em 1934, Carmen Miranda voltaria com <em>Isso \u00e9 L\u00e1 com Santo Ant\u00f4nio<\/em>; em 1936, Francisco Alves faria enorme sucesso com <em>Pula a Fogueira<\/em>; em 1939, o Trio de Ouro gravaria <em>Noite de Junho e <\/em>Dalva de Oliveira, sozinha, gravou Pedro, Ant\u00f4nio e Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde, em 1949, Dircinha Batista gravaria a polca <em>O Sanfoneiro S\u00f3 Tocava Isso<\/em>, sucesso tamb\u00e9m de Tonico e Tinoco e recentemente gravada por Suricato, at\u00e9 que chegou o rei da festa, Luiz Gonzaga, certamente o artista mais dedicado aos festejos juninos e que formatou os grupos musicais tradicionais, com sanfona, tri\u00e2ngulo e zabumba.<\/p>\n<p>Gonzaga redefiniu as festas juninas, que deixaram de ser manifesta\u00e7\u00e3o rural para virar dom\u00ednio nordestino. Olha pro C\u00e9u, de 1951, foi a primeira, seguida de S\u00e3o Jo\u00e3o na Ro\u00e7a, O Maior Tocador, Piriri e outras que foram sendo adaptadas. De l\u00e1 para c\u00e1, mais nada \u2013 <em>Festa do Interior<\/em>, de Moraes Moreira, \u00e9 frevo. E lugar de frevo \u00e9 no carnaval.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 30 de junho de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moraes Moreira lan\u00e7ou um xote para as festas juninas deste ano. Foi meio em cima da hora, n\u00e3o deu tempo de pegar e, convenhamos, S\u00f3 Pensa Naquilo \u2013 o xote \u2013 sequer faz refer\u00eancia aos festejos. Nem o santo homenageado, e que faz chover, faz parte da festa; S\u00e3o Jos\u00e9 \u00e9 de mar\u00e7o. Mas n\u00e3o interessa, \u00e9 um resgate importante. 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