{"id":636,"date":"2019-07-09T21:13:35","date_gmt":"2019-07-10T00:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=636"},"modified":"2019-07-09T21:13:35","modified_gmt":"2019-07-10T00:13:35","slug":"direto-do-engradado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/direto-do-engradado\/","title":{"rendered":"Direto do engradado"},"content":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a estava ali improvisada, quebrando um galho. Se tem algo que frequentador de botequim n\u00e3o gosta \u00e9 de novidade; fica todo mundo cheio de mania, at\u00e9 o mais descolado parece desenvolver o tal transtorno obsessivo\u00a0 compulsivo (TOC) no \u00faltimo grau. Basta tirar a garrafa de Drink Dreher do lugar de sempre para chover reclama\u00e7\u00e3o; se as mesas estiverem fora de lugar ent\u00e3o \u00e9 motivo de levante.<\/p>\n<p>Ainda assim era necess\u00e1rio. Por um problema qualquer, a mocinha que ajuda nas tarefas n\u00e3o p\u00f4de ir. E a outra veio decidida. J\u00e1 era mais velha, certamente com suas idiossincrasias, mas claramente era uma caloura; nunca tinha estado na posi\u00e7\u00e3o de servir algu\u00e9m. Mesmo assim, se esfor\u00e7ava e atendia os pedidos.<\/p>\n<p>Boa vontade tem limite. Atendente novo em boteco \u00e9 complicado porque eles nunca sabem que os verdadeiros patr\u00f5es est\u00e3o sentados, bebendo uma coisinha, beliscando uns tremo\u00e7os; e n\u00e3o o sujeito mal-humorado que fica no balc\u00e3o com cara de bedel de gin\u00e1sio, mascando e grunhindo.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, o choro. Atendente novo n\u00e3o chora. N\u00e3o deixa nem a bebida vazar pelo dosador como manda a boa cortesia do boteco, quanto mais deixar o l\u00edquido da garrafa escorrer mais um pouquinho. Outra caracter\u00edstica do novato \u00e9 economizar guardanapo e palito \u2013 pe\u00e7a um palito e ele entrega <strong><u>um<\/u><\/strong> \u00fanico, escasso e solit\u00e1rio palito, embrulhadinho no pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Acontece que chegou um estrangeiro. Frequentadores contumazes de um estabelecimento se comportam como paisanos; aquilo ali \u00e9 territ\u00f3rio conquistado, bandeira fincada no solo. Mas ningu\u00e9m tem topete alaranjado e nem quer construir muro: n\u00e3o se exige sequer passaporte para permitir a entrada de novi\u00e7os. S\u00e3o recebidos quase com bom humor.<\/p>\n<p>O rapaz chegou mansamente e, antes mesmo de sentar-se, perguntou \u00e0 novi\u00e7a: \u201cA madame tem cerveja quente?\u201d. Imposs\u00edvel n\u00e3o ouvir, mas ficou dif\u00edcil saber o que era mais estranho, se perguntar por cerveja quente ou chamar a atendente de madame. A mo\u00e7a n\u00e3o reagiu ao respeitoso substantivo, mas n\u00e3o gostou do pedido.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 isso, meu senhor, o bar \u00e9 conhecido por ter a cerveja mais gelada da regi\u00e3o. Mais gelada o senhor n\u00e3o vai encontrar.<\/p>\n<p>O rapaz tentou se explicar dizendo que n\u00e3o duvidava da pot\u00eancia do refrigerador \u2013 ou <em>friza,<\/em> como diz o Manoelzinho \u2013 mas preferia beber uma cerveja que viesse direto do engradado. A mo\u00e7a pelo jeito n\u00e3o havia lido o quadrinho precursor do Procon e que diz que o fregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o; e argumentava que ningu\u00e9m bebe cerveja sem passar pela geladeira. E n\u00e3o queria servir porque poderia ir contra a pol\u00edtica do bar.<\/p>\n<p>O rapaz estava de bota e chap\u00e9u, ou seja, tinha pinta de goiano e n\u00e3o de alem\u00e3o ou sueco, essa gente que toma cerveja na temperatura ambiente, at\u00e9 porque n\u00e3o precisam exatamente se refrescar. Mas ele explicou: tem uma condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade que o impede de tomar qualquer coisa gelada.<\/p>\n<p>Gastou saliva, mas foi atendido e, educado, ofereceu um copo \u00e0 mo\u00e7a. \u201cExperimenta!, disse. Ela aceitou o desafio, mas ficou no primeiro gole:<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o \u00e9 de Deus, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 6 de julho de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a estava ali improvisada, quebrando um galho. Se tem algo que frequentador de botequim n\u00e3o gosta \u00e9 de novidade; fica todo mundo cheio de mania, at\u00e9 o mais descolado parece desenvolver o tal transtorno obsessivo\u00a0 compulsivo (TOC) no \u00faltimo grau. 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