{"id":639,"date":"2019-07-12T10:45:05","date_gmt":"2019-07-12T13:45:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=639"},"modified":"2019-07-12T10:45:05","modified_gmt":"2019-07-12T13:45:05","slug":"o-senhor-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-senhor-do-tempo\/","title":{"rendered":"O senhor do tempo"},"content":{"rendered":"<p>Para o pessoal que vai ver Anitta e Xan Avi\u00e3o no Na Praia, amanh\u00e3, aqui em Bras\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples captar a m\u00fasica de Jo\u00e3o Gilberto, morto h\u00e1 uma semana. S\u00e3o mundos diferentes. E que desafiam o velho ad\u00e1gio que sustenta que gosto n\u00e3o se discute.<\/p>\n<p>Para entender Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 preciso compreender o tempo. Desde o tempo que ele desenvolveu na batida do viol\u00e3o, que pode ser esticado ou encurtado, de acordo com a inflex\u00e3o desejada, at\u00e9 aquele marcado pelo rel\u00f3gio, com minutos e segundos, e que rende de modo diferente para cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e f\u00edsica podem ajudar na explica\u00e7\u00e3o: a m\u00fasica de Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 como o monolito de <em>2001 Uma Odisseia no Espa\u00e7o<\/em> (do filme de Kubrick, n\u00e3o do livro de Arthur C. Clark), que cruza \u00e9pocas, demole conceitos e interliga passado, presente e futuro. Na f\u00edsica, Einstein teorizou que espa\u00e7o e tempo em si mesmos n\u00e3o s\u00e3o fixos e imut\u00e1veis; uma forma de comprova\u00e7\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica de Jo\u00e3o Gilberto.<\/p>\n<p>Ou seja: Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 o senhor do tempo. Fala-se muito dos acordes dissonantes provocados pelas posi\u00e7\u00f5es inusitadas cheias de s\u00e9timas e nonas \u2013 ou aquela quinta menor em <em>Desafinado<\/em>, que muda tudo. Mas o fundamental s\u00e3o as inflex\u00f5es vocais e a constante busca pela perfei\u00e7\u00e3o que pode ser observada na obsessiva repeti\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio limitado.<\/p>\n<p>As repeti\u00e7\u00f5es s\u00e3o eficazes, mas renderam folclore. \u00c9 o caso da hist\u00f3ria do gato que teria se matado ao pular da janela do pr\u00e9dio, depois de ouvir a mesma can\u00e7\u00e3o dezenas de vezes. O fato real \u00e9 que mais de uma pessoa presenciou ele tocando uma \u00fanica m\u00fasica durante horas, na procura de acorde, inflex\u00e3o e tempo exatos \u2013 Ronaldo B\u00f4scoli teve que ouvir <em>O Pato<\/em>, m\u00fasica que o cantor recolheu do repert\u00f3rio dos Garotos da Lua, incont\u00e1veis vezes no corredor do apartamento (ele testava a ac\u00fastica e a altura da emiss\u00e3o). N\u00e3o se tem not\u00edcia que pulou de algum lugar.<\/p>\n<p>Navegando entre a superficialidade da m\u00fasica popular, constru\u00edda sobre elementos simples, e a profundidade de estruturas n\u00e3o-lineares e assim\u00e9tricas, Jo\u00e3o Gilberto ampliou os limites das can\u00e7\u00f5es. Na verdade, explorou todas as possibilidades, do timbre \u00e0 harmonia, do ritmo \u00e0 entona\u00e7\u00e3o, do contraponto \u00e0 pr\u00f3pria melodia \u2013 era como reconstruir cada can\u00e7\u00e3o a partir dos escombros que ele mesmo provocava.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil saber o que seria de Jo\u00e3o Gilberto sem a m\u00fasica de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mas o contr\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro. Afinal, \u00e9 gra\u00e7as a Jo\u00e3o Gilberto, seu banquinho e seu viol\u00e3o, que a bossa venceu o tempo e permanece nova.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que o Brasil entenda que a m\u00fasica que ele produziu \u00e9 maior que qualquer folclore em torno da personalidade multifacetada do artista.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gilberto mudou a m\u00fasica de um pa\u00eds musical e a levou para todo o mundo, abrindo uma janela sem precedentes ao influenciar gera\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos e ouvintes. Encheu o Brasil de orgulho ao fazer a l\u00edngua portuguesa ser ouvida em todo canto, de mexer com a m\u00fasica de culturas t\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>\u00c9 certamente o brasileiro que mais influenciou o mundo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 12 de julho de 2019<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o pessoal que vai ver Anitta e Xan Avi\u00e3o no Na Praia, amanh\u00e3, aqui em Bras\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples captar a m\u00fasica de Jo\u00e3o Gilberto, morto h\u00e1 uma semana. S\u00e3o mundos diferentes. E que desafiam o velho ad\u00e1gio que sustenta que gosto n\u00e3o se discute. Para entender Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 preciso compreender o tempo. 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