{"id":644,"date":"2019-07-21T23:50:30","date_gmt":"2019-07-22T02:50:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=644"},"modified":"2019-07-21T23:51:34","modified_gmt":"2019-07-22T02:51:34","slug":"nas-batucadas-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/nas-batucadas-da-vida\/","title":{"rendered":"Nas batucadas da vida"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8hoJvoQj-q4\">http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8hoJvoQj-q4<\/a><\/p>\n<p>\u2013 \u00a0N\u00e3o se faz mais samba como antigamente&#8230;<br \/>\nO alto-falante tocava <em>Luz Negra<\/em> na voz de Elizeth Cardoso, quando nosso amigo soltou a frase em tom de lamento. Ele pegou um exemplo duro de ser superado; este samba \u00e9 de uma arrasadora e tr\u00e1gica beleza, podia ser assinado por Sheakespeare ou Amado Batista. N\u00e3o foi \u00e0 toa que Cazuza \u00e0 regravou com tempero blues.<br \/>\nMas a frase deu o que pensar. N\u00e3o \u00e9 o caso deste samba, constru\u00eddo sobre as notas do peculiar e inimit\u00e1vel viol\u00e3o de Nelson Cavaquinho \u2013 com uma letra que ningu\u00e9m sabe ao certo se \u00e9 de Am\u00e2ncio Cardoso ou Irani Barros \u2013 mas a qualidade do que se faz hoje pode estar ligada \u00e0 aus\u00eancia de dois instrumentos fundamentais e que praticamente n\u00e3o existem mais; n\u00e3o pelo menos com a qualidade de antanho.<br \/>\nS\u00e3o eles, a caixinha de f\u00f3sforos e o chap\u00e9u de palhinha. Grandes p\u00e1ginas do samba foram escritas sobre o ritmo extra\u00eddo desses prosaicos objetos de uso pessoal.<br \/>\nO introdutor da caixinha de f\u00f3sforo e do chap\u00e9u de palhinha na m\u00fasica brasileira foi Lu\u00eds Barbosa, tamb\u00e9m pioneiro do samba de breque, mas que morreu cedo demais, aos 28 anos, v\u00edtima de tuberculose.<\/p>\n<p>Foi a doen\u00e7a, ali\u00e1s, a respons\u00e1vel pelos novos instrumentos; Lu\u00eds Barbosa tocava pandeiro de tarracha, muito pesado, e na medida que o mal avan\u00e7ou, o substituiu pelo chap\u00e9u Ramenzoni; entre amigos, batucava na caixinha de f\u00f3sforos. No filme <em>Al\u00f4 Al\u00f4 Carnaval<\/em> est\u00e1 a \u00fanica cena que ele aparece em a\u00e7\u00e3o, cantando <em>Seu Lib\u00f3rio<\/em>.<br \/>\nOutros seguiram a tend\u00eancia. Vassourinha, cantor talentoso e morto aos 19 anos, e Dilermando Pinheiro tamb\u00e9m se notabilizaram pela batucada na palhinha. Mas o chap\u00e9u saiu de moda, a f\u00e1brica Ramenzoni foi implodida e hoje s\u00f3 se usa bon\u00e9, que n\u00e3o d\u00e1 para batucar.<br \/>\nA inven\u00e7\u00e3o do isqueiro descart\u00e1vel e as campanhas antitabagismo foram outros duros golpes no velho samba. E n\u00e3o d\u00e1 para fazer samba com isqueiro. Para piorar, as caixas de f\u00f3sforo passaram a ser de papel\u00e3o, o que abafa o som\u00a0e desanda o ritmo.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas John Walker, que inventou o palito de f\u00f3sforo em 1827, n\u00e3o poderia imaginar que iria parar na hist\u00f3ria do samba. O expoente do instrumento foi Ciro Monteiro, introdutor do samba sincopado, e que tocava o instrumento com indisfar\u00e7\u00e1vel orgulho. Mas s\u00e3o incont\u00e1veis os compositores que usaram a caixinha para marcar o ritmo quando mostravam uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Elton Medeiros n\u00e3o gosta quando algu\u00e9m diz que ele comp\u00f5e batucando palitos, mas se apresenta com, digamos, utens\u00edlio. Adoniram Barbosa, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o se importava quando algu\u00e9m ligasse os f\u00f3sforos \u00e0s suas composi\u00e7\u00f5es, embora na verdade ele compusesse seus sambas caminhando, sem necessidade de marcar o ritmo. O baiano Batatinha e o paulista Oswaldinho da Cu\u00edca n\u00e3o largavam a caixinha.<\/p>\n<p>Hoje os m\u00fasicos s\u00e3o bem formados, d\u00e1 gosto de ouvir o bandolim de Victor Angeleas e o cavaquinho de M\u00e1rcio Marinho, para ficar em dois jovens brasilienses. Mas pode ser que ainda haja lugar para um chap\u00e9u de palhinha e uma caixinha de f\u00f3sforos bem tocados.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 21 de julho de 2017<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 \u00a0N\u00e3o se faz mais samba como antigamente&#8230; O alto-falante tocava Luz Negra na voz de Elizeth Cardoso, quando nosso amigo soltou a frase em tom de lamento. 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