{"id":647,"date":"2019-07-22T00:05:27","date_gmt":"2019-07-22T03:05:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=647"},"modified":"2019-07-22T00:05:27","modified_gmt":"2019-07-22T03:05:27","slug":"e-proibido-rir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/e-proibido-rir\/","title":{"rendered":"\u00c9 proibido rir"},"content":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m ainda tinha alguma d\u00favida de quem o mundo est\u00e1 ficando cada vez mais chato, a prova \u00e9 o cancelamento da revista sat\u00edrica norte-americana <em>Mad<\/em>. O jornal <em>The New York Times<\/em> tamb\u00e9m anunciou que parou de publicar cartuns em sua edi\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>No caso da revista, o cancelamento interrompe 67 anos de afiada cr\u00edtica social e \u00e1cida observa\u00e7\u00e3o contra a ind\u00fastria cultural. O \u00faltimo n\u00famero ser\u00e1 publicado em agosto; depois, s\u00f3 edi\u00e7\u00f5es especiais com material j\u00e1 publicado \u2013 ou seja, s\u00f3 piada velha.<\/p>\n<p><em>Mad<\/em> n\u00e3o poupava ningu\u00e9m e \u00e9 mais uma v\u00edtima do patrulhamento politicamente correto de hoje. E segue uma linha de cancelamentos que j\u00e1 havia vitimado <em>Spy<\/em>, <em>The Onion<\/em> e <em>Cracked<\/em> (esta \u00faltima sobrevive porcamente como site).<\/p>\n<p>No Brasil, as publica\u00e7\u00f5es sat\u00edricas s\u00e3o tradicionais \u2013 vem desde o s\u00e9culo XIX \u2013 mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 mais nada nas bancas. A primeira publica\u00e7\u00e3o do <em>estilo foi Lanterna M\u00e1gica<\/em>, em 1844, que abriu caminho para <em>Don<\/em> Quixote, de Angelo Agostini, em 1895, e outros.<\/p>\n<p>As publica\u00e7\u00f5es galhofeiras se consolidaram no in\u00edcio do novo s\u00e9culo, com O Malho (1902), Fon-Fon (1907), Careta (1908) e A S\u00e1tira (1911), entre outras. Eram miscel\u00e2nea de artigos, desenhos \u2013 os de <em>Don Quixote<\/em> eram deslumbrantes \u2013 coment\u00e1rios sobre not\u00edcias dos jornais e cr\u00edticas que hoje seriam consideradas pueris.<\/p>\n<p>O Malho, por exemplo, criticou a tradu\u00e7\u00e3o do romance <em>La Verit\u00e8<\/em>, de Emile Zola, que o <em>Jornal do Commercio<\/em> publicava em cap\u00edtulos. \u201cO homem traduz mademoiselle por senhorinha, omelette por omeleta\u201d (aqui a reclama\u00e7\u00e3o foi pela aus\u00eancia do vern\u00e1culo fritada ou fritura de ovos).<\/p>\n<p>Mais tarde veio <em>A Manha<\/em> (1926), do Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, que apostava num humor direto, com textos maiores \u2013 \u201cSemana de Cinco Dias: Um projeto de Lei para fortalecer e revigorar a Lei do menor esfor\u00e7o\u201d \u2013 e charges \u2013 \u201cDiz o cr\u00edtico: Acho pouca claridade nos seus quadros&#8230; E o pintor: \u00c9 que a Light me cortou a luz\u201d. Tudo muito inocente.<\/p>\n<p>Em 1964 apareceu <em>Pif Paf<\/em>, de Mill\u00f4r Fernandes, herdeiro da coluna semanal que o humorista tinha na revista <em>O Cruzeiro<\/em>, de onde foi demitido com um editorial pesado. Durou apenas oito n\u00fameros, mas abriu caminho para que fosse lan\u00e7ado <em>O Pasquim<\/em>, cinco anos depois.<\/p>\n<p><em>Pif Paf<\/em> era uma reuni\u00e3o de craques do humor, mas hoje seria considerado impr\u00f3prio e ofensivo. Logo no n\u00famero de estreia, Stanislaw Ponte Preta atacou: \u201chomem que desmunheca e mulher que pisa duro, n\u00e3o enganam nem no escuro\u201d. O <em>Pif Paf<\/em>, como muitos de seus antecessores, pode ser lido na hemeroteca da Biblioteca Nacional (bndigital.bn.br)<\/p>\n<p>Mais tarde surgiriam as \u00faltimas publica\u00e7\u00f5es sat\u00edricas brasileiras, <em>Casseta Popular<\/em> (1978) e <em>Planeta Di\u00e1rio<\/em> (1984), que tamb\u00e9m n\u00e3o teriam lugar no mundo atual. Como justificar, por exemplo, as impag\u00e1veis manchetes do Planeta Di\u00e1rio? \u2013 \u201cCandidatos a gay d\u00e3o tudo na reta final\u201d, \u201cPapa bota ovo na missa do galo\u201d, \u201cAcidente nuclear: cad\u00e1veres de Goi\u00e2nia est\u00e3o fora de perigo\u201d ou \u201cSaci Perer\u00ea come\u00e7a o ano com p\u00e9 direito\u201d.<\/p>\n<p>O fim da revista Mad marca o fechamento de uma \u00e9poca; de agora em diante a ordem \u00e9 rir de boca fechada.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 19 de julho de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m ainda tinha alguma d\u00favida de quem o mundo est\u00e1 ficando cada vez mais chato, a prova \u00e9 o cancelamento da revista sat\u00edrica norte-americana Mad. O jornal The New York Times tamb\u00e9m anunciou que parou de publicar cartuns em sua edi\u00e7\u00e3o internacional. 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