{"id":650,"date":"2019-07-23T22:31:52","date_gmt":"2019-07-24T01:31:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=650"},"modified":"2019-07-23T22:33:40","modified_gmt":"2019-07-24T01:33:40","slug":"a-cizania-do-camarao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-cizania-do-camarao\/","title":{"rendered":"A ciz\u00e2nia do camar\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Cabe at\u00e9 discuss\u00e3o sobre a companhia ideal para uma gelada. Mas eu tenho um fraco por camar\u00f5es. E nem devia ser assim; um crust\u00e1ceo quase causou a morte de um xar\u00e1 chegado, salvo, enfim, por uma dose de licor de menta que interrompeu a brutal intoxica\u00e7\u00e3o. Santo rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Andava muito para ir ao boteco \u2013 tinha o her\u00e9tico nome de Capela do Chope, \u00e0s margens da velha EPTG \u2013 que nos atraia com camar\u00f5es fritos de exagerada bitola. N\u00e3o h\u00e1 mais. Ros\u00e2ngela Rabello, a dona, se dedica hoje a l\u00ednguas e rabos em seu bar na Quituart, Lago Norte \u2013 incluindo um pastel de rabada de primeira.<\/p>\n<p>Andei muito mais. Pode parecer exagero cruzar quil\u00f4metros de dunas e lagoas pluviais para saborear um prato. Mas h\u00e1 muito que o tal camar\u00e3o grelhado da Luzia atentava o ju\u00edzo.<\/p>\n<p>E ele s\u00f3 pode ser apreciado num restaurante localizado no cora\u00e7\u00e3o dos len\u00e7\u00f3is maranhenses. Ludovico Ribondi \u2013 que andou muito por aquelas areias \u2013 provocava inveja. Aos amigos maranhenses eu n\u00e3o dava muito cr\u00e9dito: quem gosta daquele Guaran\u00e1 Jesus&#8230; sei n\u00e3o.<\/p>\n<p>A viagem, enfim, come\u00e7a. De S\u00e3o Lu\u00eds a Barreirinhas s\u00e3o 240 quil\u00f4metros de estrada bem conservada, mas com obst\u00e1culos na forma de porcos, jegues e crian\u00e7as que s\u00e3o criados soltos. De l\u00e1, toma-se uma lancha que serpenteia o rio Pregui\u00e7a por 40 quil\u00f4metros at\u00e9 a foz, onde est\u00e1 Atins, um povoado de pescadores, cercado de \u00e1gua \u2013 mar, rio, igarap\u00e9 e lagoas. O tal camar\u00e3o fica mais a frente, no Canto do Atins \u2013 mais sete quil\u00f4metros de praias e dunas, que podem ser percorridos a p\u00e9, cavalo ou de jipe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E vamos ao camar\u00e3o da Luzia.\u00a0 Ou n\u00e3o. Ainda em Atins chega a informa\u00e7\u00e3o da ciz\u00e2nia: Luzia e Magn\u00f3lia, cunhadas, brigaram. Magn\u00f3lia, diz a maledic\u00eancia do local, foi a criadora do prato mais famoso do Canto do Atins, e Antonio, irm\u00e3o de Luzia, marido de Magn\u00f3lia, ergueu outro restaurante. Bem ao lado. E agora?<\/p>\n<p>Com a d\u00favida na cabe\u00e7a e disposi\u00e7\u00e3o nos p\u00e9s, enfrentamos praias, mangues e dunas antes de chegar \u00e0 encruzilhada: de um lado a Luzia, do outro, Magn\u00f3lia. Entramos na Luzia; \u00e9 dif\u00edcil resistir a uma grife. Mas o restaurante do Ant\u00f4nio oferecia valor agregado: redes para a soneca da siesta \u2013 mudamos.<\/p>\n<p>Veio, afinal, o camar\u00e3o grelhado. A experi\u00eancia \u00e9 \u00fanica. O camar\u00e3o branco, comum na regi\u00e3o, \u00e9 cortado ao meio, limpo, marinado e grelhado \u2013 por cima, j\u00e1 ressecado pelo calor, um molho secreto \u00e9 incorporado ao crust\u00e1ceo. Parece conversa de degustador profissional, mas v\u00e1rios sabores parecem invadir a boca. Inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, se houvesse pol\u00edtico s\u00e9rio no Brasil, o camar\u00e3o da Luzia \u2013 ou da Magn\u00f3lia \u2013 deveria ser elevado ao pante\u00e3o dos patrim\u00f4nios imateriais do Maranh\u00e3o. Antes mesmo do tambor de crioula e do bumba meu boi. E at\u00e9 do nada santificado Guaran\u00e1 Jesus.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabe at\u00e9 discuss\u00e3o sobre a companhia ideal para uma gelada. Mas eu tenho um fraco por camar\u00f5es. E nem devia ser assim; um crust\u00e1ceo quase causou a morte de um xar\u00e1 chegado, salvo, enfim, por uma dose de licor de menta que interrompeu a brutal intoxica\u00e7\u00e3o. Santo rem\u00e9dio. 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