{"id":659,"date":"2019-08-03T13:27:07","date_gmt":"2019-08-03T16:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=659"},"modified":"2019-08-03T13:27:07","modified_gmt":"2019-08-03T16:27:07","slug":"traducoes-perdidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/traducoes-perdidas\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00f5es perdidas\u00a0\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou com um cafun\u00e9. Ou melhor, antes que me entendam mal: com a tentativa de traduzir o significado de cafun\u00e9 para o ingl\u00eas. Na falta de palavras, o gesto quebrou o galho, mas ainda assim ficou faltando explicar aquela sensa\u00e7\u00e3o de quem recebe o carinho.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos o que acontece quando se tenta explicar o que \u00e9 saudade. N\u00e3o \u00e9 apenas sentir falta; h\u00e1 uma melancolia envolvida, imposs\u00edvel de ser traduzida ou explicada.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras palavras que s\u00e3o exclusivas de seus povos ou at\u00e9 mais espec\u00edficas. \u201cTudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, \u00e9 brasileiro, j\u00e1 passou de portugu\u00eas\u201d, ensinou Noel Rosa no samba <em>N\u00e3o Tem Tradu\u00e7\u00e3o<\/em>. N\u00e3o sei se o rapaz entendeu a explica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o importa: a calva avan\u00e7ada mostrava que ele nunca iria experimentar um bom cafun\u00e9.<\/p>\n<p>O bar \u00e9 uma babel. H\u00e1 quem demonize esse tipo de estabelecimento, acreditando que s\u00e3o antros de gente \u00e0 toa, que est\u00e1 ali por n\u00e3o ter o que fazer de \u00fatil ou para fugir de situa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas mais complicadas, sem saber que culturas diversas s\u00e3o trocadas \u00e0 beira do balc\u00e3o ou nas mesas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 quem saia do boteco sem uma informa\u00e7\u00e3o nova. S\u00f3 num bar bem frequentado o sujeito ficar\u00e1 sabendo, por exemplo, que uma barata pode sobreviver por tr\u00eas semanas sem a cabe\u00e7a. Ou que os homens, que n\u00e3o conheceram os dinossauros, conviveram com mamutes. E que existe um v\u00edrus \u2013 o ATCV-1, que deve estar se espalhando pelo Brasil \u2013 transmitido pela \u00e1gua e causa estupidez.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m num boteco que fiquei sabendo que um caracol tem mais dentes que um tubar\u00e3o \u2013 claro que fui conferir; esses moluscos podem ter de 12 mil a 20 mil dentes. E experimentei uma certa apreens\u00e3o pelos escargots \u00e0 Bourgnone ingeridos. E gra\u00e7as \u00e0 vasta sabedoria de um caus\u00eddico soube que, se um chin\u00eas quiser reencarnar, deve antes preencher formul\u00e1rios para quatro \u00f3rg\u00e3os do governo. Informa\u00e7\u00f5es vitais, como se v\u00ea.<\/p>\n<p>Tem sempre novidade. Era uma tarde-noite de reencontros num boteco \u00e0 beira-mar, semana passada, quando o gar\u00e7om trouxe uma nova rodada de chope para substituir os copos quase vazios e foi subitamente interrompido por um dos comensais. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai querer levar nossos norgerls, n\u00e3o \u00e9?\u201d, perguntou.<\/p>\n<p>Eu achei que eram nuggets, mas o \u00fanico petisco que havia ali era uma por\u00e7\u00e3o de amendoins murchos. O amigo poliglota tomou o \u00faltimo gole do chope, j\u00e1 quente e sem efervesc\u00eancia, estalou os l\u00e1bios e exclamou vitorioso: \u201cAgora sim, norgerl ingerido, eu aceito outro\u201d.<\/p>\n<p>Descendente de alem\u00e3es, ele p\u00f4s-se a explicar que norgerl \u00e9 uma dessas palavras germ\u00e2nicas \u2013 como fr\u00fchjahrsm\u00fcdigkeit, ohrwurm e backpfeifengesicht \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o traduz\u00edveis. E \u00e9 usada apenas para definir o restinho de bebida \u2013 quase intrag\u00e1vel \u2013 que fica nos copos. Ou, traduzindo: \u00e9 quando a campanha contra o desperd\u00edcio vence o mau gosto.<\/p>\n<p><strong>Em tempo<\/strong>: Fr\u00fchjahrsm\u00fcdigkeit \u00e9 aquela sensa\u00e7\u00e3o desanimada que antecede uma nova temporada, ohrwurm define m\u00fasicas que n\u00e3o saem da cabe\u00e7a e backpfeifengesicht \u00e9 o sujeito que merece levar um cacete. Esse \u00faltimo adjetivo faz falta em portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 5 de agosto de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou com um cafun\u00e9. Ou melhor, antes que me entendam mal: com a tentativa de traduzir o significado de cafun\u00e9 para o ingl\u00eas. 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