{"id":661,"date":"2019-08-09T08:59:38","date_gmt":"2019-08-09T11:59:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=661"},"modified":"2019-08-09T08:59:38","modified_gmt":"2019-08-09T11:59:38","slug":"entre-lama-e-pulgas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/entre-lama-e-pulgas\/","title":{"rendered":"Entre lama e pulgas"},"content":{"rendered":"<p>Tem gente que gosta das letras, dos livros. Mas o que o livreiro Jorge Brito ama de verdade s\u00e3o as p\u00e1ginas \u2013 e quanto mais amareladas, melhor. H\u00e1 anos ele trocou a ger\u00eancia do seu Armaz\u00e9m do Livro Usado, na 403 Norte, hoje tocado pelo filho, para se tornar um garimpeiro das letras.<\/p>\n<p>Jorge trocou o Cear\u00e1 por Bras\u00edlia em 1979 e tem se especializado em comprar bibliotecas inteiras, algumas de autoridades, algumas de gente comum; e fu\u00e7ar no que as pessoas guardaram, anotaram, fotografaram.<\/p>\n<p>Herdeiro nunca sabe o que tem realmente valor e Jorge sabe que as pepitas aparecem no que parece lixo; e guarda, principalmente se tiver rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria de Bras\u00edlia. Recentemente, encontrou uma carta an\u00f4nima de 30 de janeiro de 1961, em que o missivista narra sua estada no Hotel Aquino, do N\u00facleo Bandeirante, que viraria cinzas um ano depois.<\/p>\n<p>O cicerone diz que \u00e9 um dos melhores da Cidade Livre. Mas a propaganda n\u00e3o surtiu efeito. Escreve o h\u00f3spede:<\/p>\n<p>\u201cO aspecto desagrada. \u00c9 um vasto casar\u00e3o de madeira, de constru\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, sem caprichos de acabamento. O beiral de zinco, amarfanhado e j\u00e1 corro\u00eddo de ferrugem, denuncia logo o emprego de material velho de segunda ou terceira m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAs janelas, quadradas e pequeninas, de uma \u00fanica folha de madeira, quando fechadas vedam por completo a entrada de ar e luz; em compensa\u00e7\u00e3o, se abertas, servem para entrar chuva.<\/p>\n<p>\u201cQue algu\u00e9m, estando do lado de fora, possa espiar dentro dos quartos.<\/p>\n<p>\u201cA fachada encosta diretamente da lama da rua. De sua cor primitiva, azul escuro, mal se v\u00ea estreita faixa na parte superior \u2013 o resto desaparece sob os chapiscos de lama que as rodas dos caminh\u00f5es arremessam continuamente.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 outros hot\u00e9is, talvez de melhor apar\u00eancia \u2013 concorda o cicerone, desolado \u2013 mas este \u00e9 o mais familiar\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a mais agrad\u00e1vel das noites do nosso an\u00f4nimo h\u00f3spede, que reconhece os donos do estabelecimento que liam o <em>Correio Braziliense<\/em> na recep\u00e7\u00e3o, e descreve com min\u00facias os fatos que antecederam a dormida.<\/p>\n<p>\u201cDe qualquer forma, o banho, gelado, d\u00e1 para uma ilus\u00e3o de limpeza. Resta cair na cama e esperar por um soninho reparador&#8230; Se a roupa de cama atende a confortos de higiene pouco importa: sob a luz morti\u00e7a de uma l\u00e2mpada a tremelicar por falta de voltagem, ningu\u00e9m distingue branco de bege, qualquer roupa de cama serve&#8230;<\/p>\n<p>\u201cO mal s\u00e3o as pulgas: come\u00e7a num co\u00e7ar sem fim, por todas as partes do corpo. As pulgas atacam nos lugares mais dif\u00edceis, obrigando a gin\u00e1sticas incr\u00edveis de contorcionismos&#8230; Co\u00e7ar sobre a terceira v\u00e9rtebra cervical n\u00e3o \u00e9 sopa!<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m certos ru\u00eddos atrapalham, choferes de caminh\u00e3o, estacionados junto ao tabique externo do quarto se divertem contando piadas e rindo alto&#8230; Uns p\u00e2ndegos! De quando em quando um caminh\u00e3o, encostando de marcha \u00e0 r\u00e9, acontece bater no tabique, que estala, afunda, amea\u00e7a desabar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Jorge Brito tem recolhido relatos como este que contam a hist\u00f3ria n\u00e3o oficial de Bras\u00edlia no que fam\u00edlias acreditam ser lixo. S\u00f3 falta ele arrumar os alfarr\u00e1bios.<\/p>\n<p><strong>\u00cdntegra da carta<\/strong><\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 2 \u2013 Cidade Livre<\/p>\n<p>O Hotel Aquino, segundo providencial cicerone, \u00e9 um dos melhores da Cidade Livre.<\/p>\n<p>O aspecto desagrada. \u00c9 um vasto casar\u00e3o de madeira, de constru\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, sem caprichos de acabamento. O beiral de zinco, amarfanhado e j\u00e1 corro\u00eddo de ferrugem, denuncia logo o emprego de material velho de segunda ou terceira m\u00e3o.<\/p>\n<p>As janelas, quadradas e pequeninas, de uma \u00fanica folha de madeira, quando fechadas vedam por completo a entrada de ar e luz; em compensa\u00e7\u00e3o, se abertas, servem para entrar chuva<\/p>\n<p>Que algu\u00e9m, estando de lado de fora possa espiar dentro dos quartos.<\/p>\n<p>A fachada encosta diretamente da lama da rua. De sua cor primitiva, azul escuro, mal se v\u00ea estreita faixa na parte superior \u2013 o resto desaparece sob os chapiscos de lama que as rodas dos caminh\u00f5es arremessam continuamente.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros hot\u00e9is, talvez de melhor apar\u00eancia \u2013 concorda o cicerone, desolado \u2013 mas este \u00e9 o mais familiar.<\/p>\n<p>O argumento valeu.<\/p>\n<p>O gerente do hotel atende meio displicente, por detr\u00e1s de um balc\u00e3ozinho. E enquanto ouve, com a ponta da l\u00edngua passa de um canto para o outro da boca a \u201cbagana\u201d de cigarro que lhe pende sob os fartos bigodes.<\/p>\n<p>Prova de identidade, para qu\u00ea? Seiscentos cruzeiros por dormida. Barato, barat\u00edssimo, levando-se em conta os pre\u00e7os de Bras\u00edlia. Evidentemente n\u00e3o se trata de apartamento com banheiro privativo, tapetes, \u201cbreak-fast\u201d servido por \u201cchambermaids\u201d e outros luxos desnecess\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>Nessa altura, um casal que l\u00ea o \u201cCorreio Braziliense\u201d suspende a leitura, olha por cima do jornal aberto. E ambos \u2013 ele, um velhote de pijama listadinho, ela, uma velhota muito vermelha e muito magra, visivelmente os donos da espelunca, sorriem, satisfeitos, aprovando os atos do gerente,<\/p>\n<p>Assim, o jeito \u00e9 concordar de cara alegre.<\/p>\n<p>&#8211; O pagamento \u00e9 adiantado?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, adiantado. E o senhor est\u00e1 de sorte: ainda temos um quarto vago, o 28.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se vai uma nota de mil cruzeiros estalando de novinha. Vem o troco em notinhas velhas, imundas, dilaceradas, emendadas, algumas com papel de jornal. Chega a vez de reclamar a chave.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem chave, explica o gerente. Para qu\u00ea chave? A porta do quarto tem por dentro uma tramela.<\/p>\n<p>O quarto 28 \u00e9 um cub\u00edculo, com uma caminha estreita, na qual mal cabe uma pessoa magra e de estatura mediana&#8230; Mas quem tem sono e o corpo mo\u00eddo, n\u00e3o faz caso&#8230; \u00a0O importante, agora, \u00e9 um banhozinho morno. Mas onde encontrar o banheiro?<\/p>\n<p>&#8211; Muito f\u00e1cil \u2013 informa o \u201cboy\u201d, um rapaz imberbe, de cara viciada, metido numa camiseta mais encardida que as t\u00e1buas do soalho.<\/p>\n<p>De fato, a coisa \u00e9 simples. Basta seguir pelo corredor afora, quebrar \u00e0 esquerda por outro corredor, prosseguir por um terceiro, cruzar um cimentado descoberto, ao fim do qual tr\u00eas banheiros, rescendendo a cantina, funcionam, n\u00e3o muito limpos, mas suficientes para os h\u00f3spedes de cinquenta e poucos quartos.<\/p>\n<p>O crivo do chuveiro, pendurado de uma travessa de pau, mal deixa escorrer um fiozinho d\u2019\u00e1gua. Em compensa\u00e7\u00e3o, pinga sempre sobre quem tiver de servir-se do vaso sanit\u00e1rio. Nada de banco, nada de estrado&#8230; O despir-se, ou o vestir-se, faz-se mesmo sobre o cimento alagado, sem ligar para os peda\u00e7os suspeitos de papel que transbordam de um caixote velho de madeira&#8230;<\/p>\n<p>De qualquer forma, o banho, gelado, d\u00e1 para uma ilus\u00e3o de limpeza. Resta cair na cama e esperar por um soninho reparador&#8230; Se a roupa de cama atende a confortos de higiene pouco importa: sob a luz morti\u00e7a de uma l\u00e2mpada a tremelicar por falta de voltagem, ningu\u00e9m distingue branco de bege, qualquer roupa de cama serve&#8230;<\/p>\n<p>O mal s\u00e3o as pulgas: come\u00e7a num co\u00e7ar sem fim, por todas as partes do corpo, As pulgas atacam nos lugares mais dif\u00edceis, obrigando a gin\u00e1sticas incr\u00edveis de contorcionismos&#8230; Co\u00e7ar sobre a terceira v\u00e9rtebra cervical n\u00e3o \u00e9 sopa!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m certos ru\u00eddos atrapalham, Choferes de caminh\u00e3o, estacionados junto ao tabique externo do quarto se divertem contando piadas e rindo alto&#8230; Uns p\u00e2ndegos! De quando em quando um caminh\u00e3o, encostando de marcha \u00e0 r\u00e9, acontece bater no tabique, que estala, afunda, amea\u00e7a desabar&#8230;<\/p>\n<p>E tem tamb\u00e9m, para atrapalhar, o toc-toc intermitente de tac\u00f5es de botas ferindo o soalho nos corredores&#8230; O toc-toc, onde quer que aconte\u00e7a, faz vibrar o soalho cont\u00ednuo de madeira, transmite-se ao\u00a0\u00a0 , repercute no ouvido colado ao travesseiro.<\/p>\n<p>Por sorte, a luz macia da madrugada, penetrando pelas frestas do tabique, anuncia o momento de levantar&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, manh\u00e3zinha cedo, o gerente, mais bem disposto, indaga:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor dormiu bem?<\/p>\n<p>Sim, tudo parece bem. \u00c9 sempre agrad\u00e1vel meter a cara fora do quarto ao despontar da manh\u00e3.<\/p>\n<p>A rua se estende, larga, imensa, com suas casinhas de com\u00e9rcio coloridas, todas de madeira. O loda\u00e7al da v\u00e9spera virou atoleiro. Os pesados caminh\u00f5es, num tr\u00e1fego intenso, chapinham, espalhando lama em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O hotel n\u00e3o serve caf\u00e9. A dormida \u00e9 a seco, mas o solicito gerente apontando, atrav\u00e9s da chuva e do lameiro, para a esquina oposta, indica o botequim onde se toma o melhor cafezinho da manh\u00e3.<\/p>\n<p>30-01-61<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 9 de agosto de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem gente que gosta das letras, dos livros. Mas o que o livreiro Jorge Brito ama de verdade s\u00e3o as p\u00e1ginas \u2013 e quanto mais amareladas, melhor. H\u00e1 anos ele trocou a ger\u00eancia do seu Armaz\u00e9m do Livro Usado, na 403 Norte, hoje tocado pelo filho, para se tornar um garimpeiro das letras. 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