{"id":675,"date":"2019-08-26T00:06:16","date_gmt":"2019-08-26T03:06:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=675"},"modified":"2019-08-26T00:08:10","modified_gmt":"2019-08-26T03:08:10","slug":"racismo-em-versos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/racismo-em-versos\/","title":{"rendered":"Racismo em versos"},"content":{"rendered":"<p>Como se faltassem pol\u00eamicas recentes, volta-se a falar do racismo na m\u00fasica brasileira e, de novo, da letra da marchinha <em>O Teu Cabelo n\u00e3o Nega<\/em>, de Lamartine Babo. Pois o carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, escola que vai homenagear o compositor no ano que vem, vai mudar a letra do samba \u2013 o mesmo de 1981.<\/p>\n<p>O pessoal reclama de ouvir \u201cmas como a cor n\u00e3o pega\/ mulata eu quero seu amor\u201d; \u00e9 racista, mas era o mundo em 1932. Talvez a rea\u00e7\u00e3o fosse menor se soubessem que o arranjo da marchinha \u00e9 de Pixinguinha, tamb\u00e9m diretor da orquestra na grava\u00e7\u00e3o original, de Castro Barbosa. Ainda menor se soubesse que o pistom que se ouve ali \u00e9 do estupendo Bonfiglio de Oliveira.<\/p>\n<p>A nota racista da hist\u00f3ria ocorreu no lan\u00e7amento da m\u00fasica, nos sal\u00f5es do Fluminense. Irritados com a presen\u00e7a de artistas negros \u2013 Pixinguinha e Bonfiglio, entre eles \u2013 alguns s\u00f3cios se retiraram do sal\u00e3o. E o que Lamartine n\u00e3o gostava de dizer \u00e9 que os versos pol\u00eamicos nem eram dele, mas dos irm\u00e3os Jo\u00e3o e Raul Valen\u00e7a, e que eram de uma outra m\u00fasica, <em>Mulata<\/em>.<\/p>\n<p>Por um desses acasos, esta semana herdei um dos \u201ccadernos de letras\u201d em que o pesquisador Renato Vivacqua reproduz de pr\u00f3prio punho, letras de can\u00e7\u00f5es hoje praticamente esquecidas, que ele encontrava esparsamente. E ali h\u00e1 uma boa medida de como a m\u00fasica brasileira tratou a quest\u00e3o racial; felizmente, pelo menos neste caderno, o saldo \u00e9 positivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Patr\u00edcio Teixeira - ESSA VIDA N\u00c3O \u00c9 SOPA - Wilson Batista-Haroldo Lobo - Grava\u00e7\u00e3o de 1941\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YIdSyipT0zo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para in\u00edcio de conversa, Haroldo Lobo e Wilson Batista fizeram <em>Essa Vida n\u00e3o \u00e9 Sopa<\/em>, uma constata\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u2013 \u201cpra que ter orgulho, com o nosso esqueleto, se o branco e o preto, t\u00eam o mesmo fim\u201d. O mesmo Wilson Batista, com Marino Pinto, tratou da desilus\u00e3o amorosa em <em>Preconceito<\/em>: \u201cEu vou fazer serenata, eu vou cantar minha dor\/ meu samba vai e diz a ela, que cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem cor\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 homenagens aos negros. Algumas destacando feitos heroicos, como <em>Negro Artilheiro (<\/em>1946), de Herivelto Martins e Sinval Silva, sobre a bravura dos os expedicion\u00e1rios. \u201cNegro quando foi convocado\/ Esqueceu seu ro\u00e7ado, e partiu para brigar\/ Negro dispensou o ordenado\/ Esqueceu que \u00e9 casado e tem filho pra criar\/ Preferiu brigar, preferiu morrer\/ Pra que o filho crescesse e pudesse viver\u201d.<\/p>\n<p>Em <em>O Negro e o Caf\u00e9<\/em>, de Ataulfo Alves e Orestes Barbosa, buscava extrair poesia do terror. \u201cNegro de ferro no p\u00e9, chorava muito e sangrava enquanto plantava caf\u00e9\/ o caf\u00e9, fruto vermelho, transforma depois a cor, na cor da pele onde o velho, fez sangrar rubis de dor\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 at\u00e9 homenagens estapaf\u00fardias, como <em>Escurinha<\/em> (1950), de Leduvy de Pina e Brasinha: \u201cDa cor do petr\u00f3leo, a escurinha tem cartaz\/ quebra qualquer monop\u00f3lio, manda mais que a Petrobr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Mas o preconceito era evidente, caso da marchinha surreal <em>Cabelo Couve-Flor<\/em> (1946), de Pereira Matos e Ayrton Amorim. \u201cEu vi sair, l\u00e1 de dentro do vapor, uma nega de luneta e de cabelo couve-flor\/ quando eu vi aquela negra t\u00e3o bacana, eu pensei que ela fosse uma artista americana\/ dei risada quando ela me falou: eu sou a nega maluca do carnaval que passou\u201d.<\/p>\n<p>Preconceito a gente combate, mas a Hist\u00f3ria n\u00e3o se apaga.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 24 de agosto de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se faltassem pol\u00eamicas recentes, volta-se a falar do racismo na m\u00fasica brasileira e, de novo, da letra da marchinha O Teu Cabelo n\u00e3o Nega, de Lamartine Babo. 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