{"id":689,"date":"2019-09-01T09:03:48","date_gmt":"2019-09-01T12:03:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=689"},"modified":"2019-09-01T09:03:48","modified_gmt":"2019-09-01T12:03:48","slug":"poesias-pioneiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/poesias-pioneiras\/","title":{"rendered":"Poesias pioneiras"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Brito entrou exultante na padaria P\u00e3o Mineiro. Tinha conseguido um exemplar \u2013 exatamente o de n\u00famero 11 \u2013 dos 50 volumes impressos de um op\u00fasculo publicado pela editora Cultrix com a poesia <em>Toada para se ir a Bras\u00edlia<\/em>, de Cassiano Ricardo. E mais: com a assinatura do autor.<\/p>\n<p>Era de se compreender a excita\u00e7\u00e3o do nosso livreiro-garimpeiro naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado. \u00c9 uma poesia pouco conhecida do modernista, fundador de <em>A Nov\u00edssima<\/em>, revista que defendia uma nova abordagem po\u00e9tica, e tamb\u00e9m autor do \u00e9pico <em>Martim Cerer\u00ea<\/em>.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o \u00e9 de mar\u00e7o de 1960, um m\u00eas antes da inaugura\u00e7\u00e3o, e vem em formato grande, com apenas 12 p\u00e1ginas \u2013 incluindo capas. E como acontece em muitas raridades que Jorge Brito encontra, estava numa pilha desprezada, colocada ao lado de mais uma batelada de livros que ele havia comprado para abastecer o acervo do seu Armaz\u00e9m do Livro Usado.<\/p>\n<p>A poesia n\u00e3o est\u00e1 relacionada entre as grandes obras de Cassiano Ricardo, fato estranho apesar da evidente falta de inspira\u00e7\u00e3o, uma vez que consolida o pensamento anterior do poeta, expresso principalmente em <em>Marcha para o Oeste<\/em>, que nasceu como pe\u00e7a de propaganda da era Vargas. O livro foi lan\u00e7ado originalmente em 1940, em pleno Estado Novo, quando Ricardo trabalhava como censor; foi reeditado em 1959 apoiando a proposta desenvolvimentista de JK.<\/p>\n<p>Diz o poema: \u201cVou-me embora pra Bras\u00edlia\/ sol nascido em c\u00e9u agreste\/ Como quem vai para uma ilha\/ A esperan\u00e7a mora a oeste.\/ Vou-me embora pra Bras\u00edlia,\/ por determina\u00e7\u00e3o celeste.\/ Pouco me importa a dist\u00e2ncia, l\u00e1 encontrarei minha inf\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<p>Mais adiante, o poeta reafirma sua posi\u00e7\u00e3o de apoio \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o. \u201cVou-me embora pra Bras\u00edlia\/ porque neste azul mar\u00edtimo\/ a paisagem me faz mal.\/ Por excesso de azul e sal. \/ Vou-me embora pra Bras\u00edlia\/ que j\u00e1 nos meus olhos brilha, porque \u00e9 a \u00fanica cidade\/ onde n\u00e3o haver\u00e1 saudade. \/Sei que no fim desta rua\/ tem um sert\u00e3o que se chama,\/ que se chama solid\u00e3o&#8230;\/ \u00c9 onde mora meu irm\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Desta vez, o garimpeiro de livros bamburrou. Mas nem sempre \u00e9 assim. Outro dia Jorge achou que tinha encontrado mais uma gema, desta vez na forma de cordel \u2013 ainda datilografado \u2013 que estava no meio de documentos e livros comprados de um pioneiro na Cidade Livre, atual N\u00facleo Bandeirante.<\/p>\n<p>De autoria de um certo Waldemar Phelippe \u2013 Jorge Brito, como bom cearense deveria saber que isso n\u00e3o \u00e9 nome de cordelista; pelo menos n\u00e3o de um que preste. O apelido Titio do N\u00facleo Bandeirante n\u00e3o melhora muito a situa\u00e7\u00e3o. O poema \u00e9 apenas uma reclama\u00e7\u00e3o \u2013 e vem com pedido. Come\u00e7a assim:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 triste mas vou falar\/ \u00c9 duro ser pioneiro\/ H\u00e1 (sic) cada passo tem que mudar\/ N\u00e3o ganha o p\u00e3o e n\u00e3o tem dinheiro\/ E a v\u00f3s senhor presidente\/ Em nome dessa na\u00e7\u00e3o\/ E a v\u00f3s senhora Iolanda\/ Em nome da Legi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo um garimpeiro de livros est\u00e1 sujeito a encontrar algumas piritas \u2013 que parece ouro, mas \u00e9 s\u00f3 dissulfeto de ferro \u2013 pelo meio do caminho.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 1 de setembro de 2019<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Toada para se ir a Bras\u00edlia<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Cassiano Ricardo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia<\/p>\n<p>sol nascido em c\u00e9u agreste<\/p>\n<p>Como quem vai para uma ilha<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a mora a oeste.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia,<\/p>\n<p>por determina\u00e7\u00e3o celeste.<\/p>\n<p>Pouco me importa a dist\u00e2ncia,<\/p>\n<p>l\u00e1 encontrarei minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(N\u00e3o foi l\u00e1 que meu av\u00f4,<\/p>\n<p>pra encantar crian\u00e7as grandes,<\/p>\n<p>num misto de magia e m\u00e1goa,<\/p>\n<p>um dia p\u00f4s fogo na \u00e1gua?)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia<\/p>\n<p>porque neste azul mar\u00edtimo<\/p>\n<p>a paisagem me faz mal.<\/p>\n<p>Por excesso de azul e sal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia<\/p>\n<p>que j\u00e1 nos meus olhos brilha,<\/p>\n<p>porque \u00e9 a \u00fanica cidade<\/p>\n<p>onde n\u00e3o haver\u00e1 saudade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sei que no fim desta rua<\/p>\n<p>tem um sert\u00e3o que se chama,<\/p>\n<p>que se chama solid\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 onde mora meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para que serve a grandeza<\/p>\n<p>dessa solid\u00e3o em flor<\/p>\n<p>se l\u00e1 n\u00e3o for o meu amor?<\/p>\n<p>Pra morada da tristeza?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Aqui o barulho do mar<\/p>\n<p>n\u00e3o me deixa ouvir a queixa<\/p>\n<p>do meu irm\u00e3o, no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia,<\/p>\n<p>pois tudo o que vem de fora<\/p>\n<p>j\u00e1 me enfara, j\u00e1 me cansa.<\/p>\n<p>S\u00f3 me traz desesperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ah n\u00e3o sei mais partir<\/p>\n<p>e, a toda hora, chegar,<\/p>\n<p>como acontece a quem mora,<\/p>\n<p>como eu, em frente do mar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenho a chave do futuro;<\/p>\n<p>n\u00e3o quero outra maravilha.<\/p>\n<p>Que os outros viajem pra lua,<\/p>\n<p>eu n\u00e3o; irei pra Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia de asas abertas<\/p>\n<p>para me contar, em segredo,<\/p>\n<p>o dom de acordar mais cedo<\/p>\n<p>do que os p\u00e1ssaros no arvoredo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia onde se diz que houve<\/p>\n<p>uma lagoa dourada.\/<\/p>\n<p>Brasilia onde Oscar Niemeyer,<\/p>\n<p>arquitetou \u2013 rosa em arco \u2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio da Alvorada.<\/p>\n<p>E nesta noite em que vivo<\/p>\n<p>eu preciso \u00e9 de alvorada,<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso de mais nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora sem m\u00e1goa.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o do Brasil<\/p>\n<p>deve estar mas em seu peito,<\/p>\n<p>n\u00e3o aqui, \u00e0 beira d\u00b4\u00e1gua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora, satisfeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou nenhum girassol<\/p>\n<p>mas pade\u00e7o de um mal b\u00edblico<\/p>\n<p>que \u00e9 correr atr\u00e1s do sol.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Solu\u00e7\u00e3o a quem espera<\/p>\n<p>por um mundo menos v\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 fugir para o sert\u00e3o<\/p>\n<p>e esconder-se atr\u00e1s da esfera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chegarei de madrugada,<\/p>\n<p>quando cantar a siriema.<\/p>\n<p>Brasil, capital \u2013 Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Onde mais bonito poema?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou-me embora pra Bras\u00edlia,<\/p>\n<p>que j\u00e1 nos meus olhos brilha<\/p>\n<p>Porque \u00e9 a \u00fanica cidade<\/p>\n<p>onde nunca haver\u00e1 saudade.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 1 de setembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Brito entrou exultante na padaria P\u00e3o Mineiro. 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