{"id":703,"date":"2019-09-13T09:44:41","date_gmt":"2019-09-13T12:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=703"},"modified":"2019-09-13T09:44:41","modified_gmt":"2019-09-13T12:44:41","slug":"outras-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/outras-palavras\/","title":{"rendered":"Outras palavras"},"content":{"rendered":"<p>C\u00e1spite! \u2013 A exclama\u00e7\u00e3o saiu da boca de um rapaz que certamente n\u00e3o tinha ainda seus 20 anos. E pelo jeito n\u00e3o sabia bem o que estava dizendo; pelo menos n\u00e3o ao se considerar o significado original da express\u00e3o carcamano-brasileira, usada para representar uma estupefa\u00e7\u00e3o qualquer, sin\u00f4nimo de caramba, poxa, nossa, vixe, e dezenas de outros.<\/p>\n<p>Mas o rapaz estava apenas provando e \u2013 pelo jeito \u2013 aprovando um quitute na mesa da padaria, como se estivesse dizendo \u00f3timo, sensacional. Se fosse para ir a antanho, melhor seria dizer supimpa, mir\u00edfico ou, quem sabe, pind\u00e1rico.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou muito por dentro dessas g\u00edrias mais novas, mas pode ser que mais uma vez tenham invertido ou mudado o sentido original da palavra, como j\u00e1 aconteceu com o adjetivo cabuloso, que antigamente dava nome a quem trazia m\u00e1 sorte e recentemente passou a ser algo irado que, ali\u00e1s, significava furioso e que, por sua vez, j\u00e1 foi sin\u00f4nimo de col\u00e9rico, que agora pode ser traduzido como impetuoso.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que tinha ouvido \u2013 ou melhor, lido \u2013 a palavra c\u00e1spite foi num dos livros de Monteiro Lobato \u2013 talvez <em>Em\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica<\/em>, talvez <em>Dom Quixote das Crian\u00e7as<\/em>, provavelmente nos dois. Curioso, porque s\u00e3o livros infantis, mas o termo vem de uma palavra bem adulta, cazzo, que os italianos usam para muitas coisas, nenhuma delas edificante.<\/p>\n<p>C\u00e1spite estava na boca das crian\u00e7as, ao lado de outras interjei\u00e7\u00f5es hoje em desuso, como homessa (que nasceu na uni\u00e3o de homem com essa) e alv\u00edssaras, ou ainda express\u00f5es que hoje soam estranhas, como \u201cv\u00e1 pentear macacos\u201d ou \u201cpensar na morte da bezerra\u201d.<\/p>\n<p>Talvez o primeiro intransigente da l\u00edngua portuguesa tenha sido o fil\u00f3logo Ant\u00f4nio Castro Lopes, que viveu entre 1827 e 1901. Por odiar estrangeirismos, prop\u00f4s uma s\u00e9rie de novos voc\u00e1bulos para a l\u00edngua de Cam\u00f5es e do ministro Weintraub, quase todos derivados do latim ou grego e, diga-se, horrorosos, como lud\u00e2nbulo (turista), focalo (abajur) e cines\u00edforo (motorista), como lembra artigo de Mouzar Benedito, coletado por Rold\u00e3o Simas Filho.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu muito certo. E daria muito menos hoje, quando a inform\u00e1tica imp\u00f5e novas palavras todo dia, todas derivadas do ingl\u00eas. E tem acontecido at\u00e9 o contr\u00e1rio: express\u00f5es que j\u00e1 absorvidas est\u00e3o mudando, caso do cachorro-quente, que voltou a ser hot-dog; mais um pouco, v\u00e3o nos exigir o sotaque.<\/p>\n<p>A l\u00edngua das ruas vive a desafiar o idioma. Mas os neologismos v\u00eam de todo canto, at\u00e9 do gibi do Batman, onde petralha \u2013 a jun\u00e7\u00e3o de petista com metralha proposta pelo jornalista Reynaldo Azevedo \u2013 virou tradu\u00e7\u00e3o para nasty (sujo, s\u00f3rdido) num dos bal\u00f5es da historinha \u2013 \u201cE o maldito petralha tem o dia todo para desfraldar seus improp\u00e9rios\u201d, diz um carcereiro ao pr\u00f3prio homem-morcego.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende, ou n\u00e3o devia: em 2017 o jornal <em>The Washington Post<\/em> relacionou petralha entre seis palavras fundamentais para se entender o Brasil. As outras seriam: coxinha, crise, jeitinho, zoeira e&#8230; gourmetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se me arriscaria a escolher palavras que possam definir o pa\u00eds hoje, apenas dois anos depois. Mas c\u00e1spite seria uma delas \u2013 ou no original mesmo: cazzo!!<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e1spite! \u2013 A exclama\u00e7\u00e3o saiu da boca de um rapaz que certamente n\u00e3o tinha ainda seus 20 anos. E pelo jeito n\u00e3o sabia bem o que estava dizendo; pelo menos n\u00e3o ao se considerar o significado original da express\u00e3o carcamano-brasileira, usada para representar uma estupefa\u00e7\u00e3o qualquer, sin\u00f4nimo de caramba, poxa, nossa, vixe, e dezenas de outros. 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