{"id":706,"date":"2019-09-15T10:47:11","date_gmt":"2019-09-15T13:47:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=706"},"modified":"2019-09-15T10:47:11","modified_gmt":"2019-09-15T13:47:11","slug":"um-buda-no-choro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-buda-no-choro\/","title":{"rendered":"Um buda no choro"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil reconhecer um buda. Pois era sempre essa a impress\u00e3o quando encontrava Carlinhos 7 Cordas, m\u00fasico que morreu h\u00e1 exatamente um m\u00eas; sen\u00e3o pelos defeitos \u2013 que n\u00e3o conheci \u2013, as virtudes gritantes n\u00e3o permitiam d\u00favidas, expostas pelo olhar pl\u00e1cido e comportamento tolerante de um homem que usava seus viol\u00f5es e seus rel\u00f3gios, bens materiais, para escancarar a perfei\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Carlinhos foi um buda bem brasileiro: a ilumina\u00e7\u00e3o era evidente; havia serenidade, equil\u00edbrio emocional e eleva\u00e7\u00e3o. Mas todas essas qualidades vinham misturadas com sorriso largo, conversa mansa, olhar matreiro e uma generosidade sem tamanho. E tudo isso se refletia na sua m\u00fasica, enganosamente simples, imensamente bela e que servia de par\u00e2metro e estofo para solistas \u2013 estes sim, uns exibidos.<\/p>\n<p>Quando chegou a Bras\u00edlia, Carlinhos encontrou choro por aqui \u2013 Avena, seu Bide, Valcir e muitos outros j\u00e1 tinham trazido as sementes. Mas quase n\u00e3o havia violonistas de sete cordas e certamente nenhum como ele, que encantou Waldir Azevedo logo na primeira audi\u00e7\u00e3o. \u201cDe hoje em diante, voc\u00ea fica do meu lado. O resto fica para l\u00e1\u201d, disse o cavaquinhista ao ouvi-lo.<\/p>\n<p>Carlinhos era tamb\u00e9m bom cantor. N\u00e3o gostava muito de soltar a voz, mas fez sucesso pelo menos uma vez, quando esteve com Waldir em Tucuru\u00ed, Par\u00e1, tocando para oper\u00e1rios que constru\u00edam a barragem. \u201cO p\u00fablico n\u00e3o batia palma, pe\u00e3o n\u00e3o bate palma para m\u00fasico. Da\u00ed o Waldir me pediu e eu cantei umas coisinhas. A\u00ed o pessoal aplaudiu\u201d, contava satisfeito.<\/p>\n<p>Assista Carlinhos &#8211; com o Trio Baru &#8211; tocando Pedacinho do C\u00e9u, de Waldir Azevedo:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=N5bZDUWr0s8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=N5bZDUWr0s8<\/a><\/p>\n<p>Tinha algumas retic\u00eancias na vida. N\u00e3o gostava de tocar <em>Flor do Cerrado<\/em>, uma das m\u00fasicas que Waldir Azevedo fez para homenagear Bras\u00edlia, porque foi a \u00faltima composi\u00e7\u00e3o do mestre e amigo. \u201cMe d\u00e1 uma coisa ruim quando eu toco\u201d, dizia.<\/p>\n<p>Gostava de tocar <em>Minhas M\u00e3os, Meu Cavaquinho<\/em>, que Waldir fez quando se recuperou do transplante do dedo anular, decepado pelo cortador de grama. E lembrava: \u201cJ\u00e1 estavam no hospital quando dona Olinda voltou para casa e viu o gatinho brincando com o dedo. Waldir treinou muito num cavaquinho de cordas de nylon e voltou tocando ainda melhor que antes\u201d.<\/p>\n<p>Carlinhos era assim, preferia falar dos outros. Se comportava como um coadjuvante das hist\u00f3rias e at\u00e9 da m\u00fasica; mas tinha plena consci\u00eancia de seu valor como m\u00fasico, de sua rela\u00e7\u00e3o com o chorinho. N\u00e3o precisava falar muito sobre isso. \u201cTive a honra de tocar com essas pessoas\u201d, dizia dos companheiros.<\/p>\n<p>Intuitivo, soube ensinar com generosidade. \u201cO choro tem seus caminhos. Deus me deu isso de gra\u00e7a e sempre sei mais ou menos para onde vai; eu consigo tocar uma m\u00fasica que nunca ouvi. Posso at\u00e9 errar uma, mas na hora de repetir eu vou em cima\u201d, contava.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas horas de vida, confessou a Alcione Tom\u00e9, companheira de quase toda a vida, que estava vivendo seus piores dias, o que mostrava a fragilidade de um otimista perene, que brincava at\u00e9 com as coisas mais s\u00e9rias. Certa vez, falando da neuropatia na coluna que dificultava a locomo\u00e7\u00e3o concluiu: \u201cainda vou voltar a jogar bola\u201d.<\/p>\n<p>Nessas horas o sil\u00eancio incomoda muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0Publicado no Correio Braziliense, em 15 de setembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil reconhecer um buda. 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