{"id":711,"date":"2019-09-20T08:57:00","date_gmt":"2019-09-20T11:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=711"},"modified":"2019-09-20T08:57:00","modified_gmt":"2019-09-20T11:57:00","slug":"entre-uivos-e-cancoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/entre-uivos-e-cancoes\/","title":{"rendered":"Entre uivos e can\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Os suspiros brasileiros iam para Clark Gable e Rita Hayworth, emo\u00e7\u00f5es se misturaram entre John Wayne e Ava Gardner \u2013 atores norte-americanos mandavam nos cinemas na virada dos anos 1930 para 1940, quando o pesadelo da Segunda Guerra Mundial se sobrep\u00f4s aos sonhos de Hollywood; os est\u00fadios de cinema estavam envolvidos no esfor\u00e7o de guerra contra os nazistas. Mas \u00e9 imposs\u00edvel deixar de sonhar.<\/p>\n<p>Uma nova leva de artistas apareceu nas telas brasileiras, trazendo uma l\u00edngua mais amig\u00e1vel, contando hist\u00f3rias distintas e embalados numa m\u00fasica diferente. E outros rostos: Ram\u00f3n Valdez substitu\u00eda Humphrey Bogart, Maria Felix ocupava o lugar de Veronica Lake, havia Pedro Infante ao inv\u00e9s de Cary Grant, Dolores del Rio no lugar de Ginger Rogers.<\/p>\n<p>Eram mexicanos, estrelaram de 80 a 100 filmes por ano \u2013 quase dois por semana! \u2013 e supriam o espa\u00e7o deixado pelas estrelas norte-americanas. E encantaram o Brasil.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, um adolescente de Inh\u00famas, Goi\u00e1s, n\u00e3o saia do cinema. Era atra\u00eddo pelas hist\u00f3rias, mas muito mais pela m\u00fasica, rancheiras tocadas por mariachis do estado de Jalisco, grupos criados a partir de instrumentos de cordas, mas que s\u00e3o mais lembrados pelos sopros esgani\u00e7ados que acompanham um cantor se esgoelando.<\/p>\n<p>O jovem Eduardo vibrava com as atua\u00e7\u00f5es de cantores\/atores como Jorge Negrete e Miguel Aceves Mej\u00eda, que entre um romance e uma cavalgada, soltavam a voz em agudos e falsetes de arrepiar o \u00faltimo cabelinho da nuca. Can\u00e7\u00f5es como <em>Yo Ten\u00eda um Chorro de Voz, Alma Llanera, El Jinete<\/em> ficaram na mem\u00f3ria \u2013 imagine-se quantas vezes era preciso assistir a um filme para decorar letras que n\u00e3o sa\u00edam nas revistas de modinhas.<\/p>\n<p>O mundo girou, o rapaz virou cantor e, j\u00e1 em Bras\u00edlia, de sombrero, colete e cal\u00e7a acima do umbigo, emulou um mexicano como contratado da R\u00e1dio Nacional; e passou a se chamar Fernando Lopes, para n\u00e3o ser confundido com um pol\u00edtico da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Chegava a usar ferro pelando de quente para esticar os cabelos \u2013 todo sacrif\u00edcio pela arte \u2013 at\u00e9 que numa excurs\u00e3o a Manaus, sob os efeitos da umidade amazonense, sentiu a cabeleira encolher, voltando \u00e0 carapinha normal. Afundou o sombrero e seguiu cantando.<\/p>\n<p>Encantava pelo timbre, extens\u00e3o vocal e repert\u00f3rio com os melhores boleros, mas principalmente pelos finais apote\u00f3ticos com as can\u00e7\u00f5es rancheiras, quando encarnava um cantor mariachi, com todos os uivos e trejeitos vocais. N\u00e3o perdeu o jeito.<\/p>\n<p>De uns dias para c\u00e1, Fernando Lopes sentiu vontade de retomar a estrada para Jalisco, estado mexicano que abriga Guadalajara, onde o Brasil forjou a hist\u00f3ria do tricampeonato de futebol. E, sem esquecer dos boleros, come\u00e7ou a cantar <em>Ay Jalisco no te Rajes<\/em>, do repert\u00f3rio de Mejia, e <em>La Bamba<\/em>, do folclore mexicano, mas na vers\u00e3o dos Hermanos Huesca.<\/p>\n<p>Todo domingo \u00e0 noite ele tem transformado o Grao, bar do \u00faltimo com\u00e9rcio do Lago Norte, num pedacinho de Guadalajara e solta a voz, com direito a todos os uivos: \u201cMe gusta escuchar los mariachis, cantar com el alma sus lindas canciones, oir como suenam esos guitarrones, y echarma un tequila com los valentones\u201d.<\/p>\n<p>E completa: \u201cui, ui, ui!\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 20 de setembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os suspiros brasileiros iam para Clark Gable e Rita Hayworth, emo\u00e7\u00f5es se misturaram entre John Wayne e Ava Gardner \u2013 atores norte-americanos mandavam nos cinemas na virada dos anos 1930 para 1940, quando o pesadelo da Segunda Guerra Mundial se sobrep\u00f4s aos sonhos de Hollywood; os est\u00fadios de cinema estavam envolvidos no esfor\u00e7o de guerra contra os nazistas. 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