{"id":715,"date":"2019-10-07T15:01:26","date_gmt":"2019-10-07T18:01:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=715"},"modified":"2019-10-07T15:01:26","modified_gmt":"2019-10-07T18:01:26","slug":"mitos-subterraneos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mitos-subterraneos\/","title":{"rendered":"Mitos subterr\u00e2neos"},"content":{"rendered":"<p>Toda cidade tem um n\u00edvel subterr\u00e2neo. Alguns desses lugares s\u00e3o vis\u00edveis, palp\u00e1veis como as catacumbas de Paris, onde Umberto Eco encontrou um pergaminho dos Templ\u00e1rios, no livro <em>O P\u00eandulo de Foulcault<\/em>, e Victor Hugo ambientou parte do romance <em>Os Miser\u00e1veis<\/em>.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um outro tipo de subterr\u00e2neo. Fica bem abaixo das galerias pluviais, buracos de tatu peba, canos de esgoto ou do t\u00fanel do metr\u00f4. Para al\u00e9m do fundo do po\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 bem mais sub, mais ou menos no n\u00edvel da Londres de Baixo, a cidade descoberta por Neil Gaiman no livro <em>Lugar Nenhum<\/em>, habitada por seres caricatos, embora perigosos, em cen\u00e1rios l\u00fagubres.<\/p>\n<p>Alguns acham que \u00e9 s\u00f3 imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 que n\u00f3s, mortais, n\u00e3o podemos ver; ainda bem que h\u00e1 quem enxergue esse mundo escondido. \u00c9 o caso do escritor Vicente S\u00e1, que tem circulado por uma Bras\u00edlia subterr\u00e2nea, lugar que tem galos e cabur\u00e9s falantes, onde mortos deixam o Campo da Esperan\u00e7a para saber o que andam dizendo deles e pessoas comuns conversam com livros.<\/p>\n<p>Vicente \u00e9 um cronista do imposs\u00edvel. Ou, melhor, do improv\u00e1vel, uma vez que \u00e9 f\u00e1cil acreditar que ele possa conversar com bichos. Ou que se encontre regularmente com o Fil\u00f3sofo da Asa Norte, sujeito que se instala nos pontos de \u00f4nibus a procura de uma prosa. Ou converse com o Velho Poeta, em eterna peleja para convencer Don Quixote e Sancho Pan\u00e7a a voltarem para as p\u00e1ginas do livro de Cervantes.<\/p>\n<p>Ele costumava ser poeta em hor\u00e1rio integral \u2013 publicou nove livros com versos \u2013 mas de uns tempos para c\u00e1 deu de contar hist\u00f3rias com mais palavras e conjun\u00e7\u00f5es, abrindo espa\u00e7o para personagens que, mesmo que pare\u00e7am irreais, contam hist\u00f3rias da Bras\u00edlia real.<\/p>\n<p>A prosa sustenta melhor a carga da impress\u00e3o de um sujeito que n\u00e3o dirige e passa pela cidade ao mesmo tempo em que a v\u00ea passar, pela janela do \u00f4nibus (quando consegue viajar sentado).<\/p>\n<p>Dia desses foi visto andando com o colega poeta M\u00e1rio Quintana pela Candangol\u00e2ndia. N\u00e3o a que conhecemos, mas uma outra, parada no tempo. De outra feita, foi pego numa maratona et\u00edlica pelos bares da Asa Norte.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que, depois de reunir alguns textos no livro Cr\u00f4nicas S\/A, ele continua generosamente publicando suas impress\u00f5es no FaceBook, semanalmente, s\u00f3 para nos mostrar que Bras\u00edlia \u00e9 mais que uma maquete com gente. Que \u00e9 uma cidade que pulsa a partir da mitologia que a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a criar.<\/p>\n<p>Houve tempo que jornais da cidade contavam hist\u00f3rias de personagens que n\u00e3o s\u00e3o vistos h\u00e1 tempos, como a misteriosa loira do Chevette branco, um certo crioulo saltador, o fantasma do Teatro Nacional (este deve adorar o sepulcral sil\u00eancio das tr\u00eas salas de espet\u00e1culo) ou o homem da capa cinza, que vivia mostrando as partes \u00edntimas para as mocinhas de Ceil\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Mas Vicente S\u00e1 n\u00e3o se interessa por essas figuras sensacionalistas feitas de papel. Ainda mais depois que foi escolhido porta-voz de um conc\u00edlio de deuses ind\u00edgenas no Gin\u00e1sio Nilson Nelson. S\u00f3 nessa Bras\u00edlia subterr\u00e2nea um ateu poderia se encontrar com Niamissum.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 27 de setembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda cidade tem um n\u00edvel subterr\u00e2neo. Alguns desses lugares s\u00e3o vis\u00edveis, palp\u00e1veis como as catacumbas de Paris, onde Umberto Eco encontrou um pergaminho dos Templ\u00e1rios, no livro O P\u00eandulo de Foulcault, e Victor Hugo ambientou parte do romance Os Miser\u00e1veis. Mas h\u00e1 um outro tipo de subterr\u00e2neo. 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