{"id":725,"date":"2019-10-07T17:37:38","date_gmt":"2019-10-07T20:37:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=725"},"modified":"2019-10-07T17:37:38","modified_gmt":"2019-10-07T20:37:38","slug":"maos-de-defunto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/maos-de-defunto\/","title":{"rendered":"M\u00e3os de defunto"},"content":{"rendered":"<p>Eu nunca havia entendido porque o cemit\u00e9rio de Bras\u00edlia se chama Campo da Esperan\u00e7a. O dicion\u00e1rio ensina que esperan\u00e7a \u00e9 a cren\u00e7a em que alguma coisa muito desejada vai acontecer e acho que posso falar pela maioria: embora seja inevit\u00e1vel, ningu\u00e9m espera morar ali. Pelo menos n\u00e3o t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>O Z\u00e9 Natal, que trouxe o primeiro ovo de seriema para Bras\u00edlia, me explica que o nome \u00e9 homenagem a uma escrava benzedeira chamada Esperan\u00e7a, morta h\u00e1 mais de 200 anos, v\u00edtima de lepra. Como os fazendeiros n\u00e3o queriam que ela fosse enterrada em suas terras, acharam um espa\u00e7o onde hoje est\u00e1 o cemit\u00e9rio para fazer a cova. Pode ser lenda, mas ficou.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma fascina\u00e7\u00e3o de algumas pessoas com essas necr\u00f3poles. Alguns s\u00e3o at\u00e9 atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Certa vez, em Buenos Aires, preferi ficar tomando uma Quilmes numa tasca ao inv\u00e9s de seguir o alegre grupo de amigos que insistia \u2013 e foi \u2013 em visitar a Recoleta ver o t\u00famulo de Rufina Cambaceres que, segundo a lenda, morreu duas vezes (se decepcionaram ao ver que h\u00e1 somente um t\u00famulo).<\/p>\n<p>O caso de Rufina \u2013 provavelmente v\u00edtima de catalepsia \u2013 \u00e9 apenas uma das excentricidades portenhas, ao lado do coveiro que se suicidou s\u00f3 para inaugurar a tumba que construiu e da mulher que teve os restos mortais depositados numa urna feita com o ferro dos canh\u00f5es do navio comandado pelo noivo, morto na guerra.<\/p>\n<p>Mas a maior atra\u00e7\u00e3o \u00e9 o t\u00famulo de Salvador del Carril e Tib\u00farcia, com as respectivas est\u00e1tuas de costas uma para a outra, para lembrar que, embora casados, ficaram 30 anos sem se falar. Estranho \u00e9 que haja s\u00f3 uma tumba assim no mundo.<\/p>\n<p>Em Paris, tentaram me levar ao P\u00e8re-Lachaise. Balzac, Proust, Jim Morrison, Piaf, Chopin, Moli\u00e8re e Oscar Wilde foram enterrados ali, onde h\u00e1 uma grande quantidade de est\u00e1tuas, bustos e constru\u00e7\u00f5es. N\u00e3o fui. S\u00f3 me interesso pelas obras deles, n\u00e3o pelos ossos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, vou ao cemit\u00e9rio muito contrariado. Tenho amigos que adoram vel\u00f3rio, contam piadas, lembram hist\u00f3rias do finado; v\u00e3o ao barzinho, comem um salgado, voltam a conversar, riem mais um pouco, chegam perto do caix\u00e3o, ficam encarando o corpo, falam das flores.<\/p>\n<p>Recentemente, no enterro de um camarada, meu amigo estava evidentemente consternado. O morto era jovem, sofreu um infarto fulminante e o choque era generalizado. Quando \u00e9 assim, algumas pessoas exageram, t\u00eam rea\u00e7\u00f5es estranhas, que v\u00e3o al\u00e9m do choro, da tristeza e da afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quieto no canto, meu amigo observava. Como eu, ele tamb\u00e9m n\u00e3o gosta de ficar encarando o corpo maquiado dentro do caix\u00e3o. Mas via pessoas passando as m\u00e3os no rosto defunto, deitando a cabe\u00e7a sobre o corpo, apertando as m\u00e3os frias. Achava tudo estranho, mas continuava na sua comisera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente, o mesmo grupo veio em sua dire\u00e7\u00e3o. E ele sentiu as mesmas m\u00e3os que acariciavam o falecido, no rosto, cabelos, m\u00e3os, no corpo todo. Sentiu um comich\u00e3o, at\u00e9 que consegui se desvencilhar e correr para o chuveiro de casa. Jurou que nunca mais vai ao cemit\u00e9rio. E j\u00e1 encomendou a crema\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 6 de outubro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu nunca havia entendido porque o cemit\u00e9rio de Bras\u00edlia se chama Campo da Esperan\u00e7a. O dicion\u00e1rio ensina que esperan\u00e7a \u00e9 a cren\u00e7a em que alguma coisa muito desejada vai acontecer e acho que posso falar pela maioria: embora seja inevit\u00e1vel, ningu\u00e9m espera morar ali. Pelo menos n\u00e3o t\u00e3o cedo. 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