{"id":733,"date":"2019-10-13T11:07:08","date_gmt":"2019-10-13T14:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=733"},"modified":"2019-10-13T11:07:08","modified_gmt":"2019-10-13T14:07:08","slug":"poesia-e-poetas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/poesia-e-poetas\/","title":{"rendered":"Poesia e poetas"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 raro ver um sujeito escrevendo num guardanapo, enquanto sorve uma cervejinha, um conhaque, um daiquiri&#8230; S\u00e3o os poetas de bar, movidos a \u00e1lcool, inspirados pela musa que mora no fundo das garrafas. Ou n\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m a poesia s\u00f3bria.<br \/>\nAdvogado de profiss\u00e3o, ele tem chegado para a et\u00edlica reuni\u00e3o meia hora mais cedo. \u00c9 o tempo que tem para jogar ideias e inspira\u00e7\u00e3o nos pap\u00e9is retirados do porta-guardanapos, impr\u00f3prios para escrever porque s\u00e3o lustrosos, muito lisos e finos. N\u00e3o seria este pequeno inc\u00f4modo a perturbar a chama da cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia mostrado as poesias para ningu\u00e9m, at\u00e9 porque diz estar retomando uma atividade interrompida quando terminou o curso de direito e come\u00e7ou no batente. Procede: criminalista n\u00e3o encontra beleza em muito lugar; e ningu\u00e9m mais quer saber daqueles versos brutos, sujos e \u00e9picos \u2013 ele n\u00e3o \u00e9 grego, nem Ferreira Gullar.<br \/>\nMas o lirismo do nosso amigo tem sofrido com o cinismo alheio. Os companheiros s\u00e3o desbocados, bukowskis de segunda categoria, embora alguns citem com admira\u00e7\u00e3o versos do poeta teuto-americano, como o Faixa: \u201cO que mais importa \u00e9\/ qu\u00e3o bem voc\u00ea\/ caminha pelo\/ fogo\u201d.<br \/>\nE o amigo sofre com as gaiatices. H\u00e1 quem, logo na chegada, recite \u201cbatatinha quando nasce\u201d s\u00f3 para tentar interromper o fluxo de inspira\u00e7\u00e3o do nosso incipente poeta. Outros apelam para os cl\u00e1ssicos de botequim:<\/p>\n<p><em>Eu bebo,<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>N\u00e3o \u00e9 por v\u00edcio, nem por nada<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>\u00c9 que olho no fundo do copo<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>E vejo o rosto da mulher amada<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>E eu n\u00e3o quero que ela morra afogada!<\/em><\/p>\n<p>Mas um poeta n\u00e3o se abala; recolhe a pena, amarfanha os guardanapos no bolso do palet\u00f3, abre o sorriso e pede a primeira dose. Tenta puxar um assunto, mas n\u00e3o consegue se desvencilhar do bulimento; sofre mais que vasca\u00edno. N\u00e3o h\u00e1 tr\u00e9gua; para os companheiros, o neg\u00f3cio \u00e9 rimar:<\/p>\n<p><em>Para curar a amargura, beba pinga sem mistura<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Contra dor-de-cotovelo, s\u00f3 cacha\u00e7a sem gelo<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Para ter um carinho, \u00e9 pinga, cerveja e vinho<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Quem ama e n\u00e3o recebe, mistura todas e bebe<\/em><\/p>\n<p>Ele vinha suportando a galhofa estoicamente; ria amarelo, mas maldizia o dia em que algum fofoqueiro \u2013 provavelmente o dono ou o gar\u00e7om da tasca \u2013 o viu escrevendo. Mas na semana passada cansou e resolveu tirar os versos do anonimato, com a promessa de ganhar uma dose de cada um dos camaradas \u00e0 mesa. Levantou-se e p\u00f4s-se a declamar:<\/p>\n<p><em>Meu verso \u00e9 minha consola\u00e7\u00e3o.<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Meu verso \u00e9 minha cacha\u00e7a. Todo mundo tem sua cacha\u00e7a.<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Para beber, copo de cristal, canequinha de folha de flandres,<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Folha de taioba, pouco importa: tudo serve.<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Para louvar a Deus como para aliviar o peito,<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>\u00c9 que fa\u00e7o meu verso. E meu verso me agrada.<\/em><\/p>\n<p>A turma ficou de boca aberta, sem saber o que dizer. N\u00e3o \u00e9 que o poeta era bom?, que maravilha!, surpreendente. Nosso poeta passou o resto da noite em paz, admirado at\u00e9. S\u00f3 no dia seguinte \u00e9 que ele revelou que na verdade o poema \u00e9 de Drummond.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de outubro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 raro ver um sujeito escrevendo num guardanapo, enquanto sorve uma cervejinha, um conhaque, um daiquiri&#8230; S\u00e3o os poetas de bar, movidos a \u00e1lcool, inspirados pela musa que mora no fundo das garrafas. Ou n\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m a poesia s\u00f3bria. 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