{"id":737,"date":"2019-11-03T10:52:57","date_gmt":"2019-11-03T13:52:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=737"},"modified":"2019-11-03T10:52:57","modified_gmt":"2019-11-03T13:52:57","slug":"praga-no-telefone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/praga-no-telefone\/","title":{"rendered":"Praga no telefone"},"content":{"rendered":"<p>A esta altura, todo mundo j\u00e1 ouviu a m\u00fasica da caneta azul. Um certo Manoel Gomes apareceu em um v\u00eddeo de telefone cantando \u2013 ou tentando cantar \u2013 uma can\u00e7\u00e3o de pr\u00f3pria lavra que n\u00e3o obedece a nenhum dos par\u00e2metros conhecidos, da l\u00edngua portuguesa \u00e0 m\u00e9trica musical, e virou um fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Apresentada sem acompanhamento musical, mas longe de poder ser classificada como \u00e0 capela, a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 ganhou remixagens para todo tipo de mau-gosto, da guitarrada ao tecno brega, o que contribuiu para piorar a situa\u00e7\u00e3o do ouvinte. \u00c9, de certo, uma goza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O inspirado compositor brit\u00e2nico Noel Coward j\u00e1 tinha chamado a aten\u00e7\u00e3o para isso: \u201ca for\u00e7a da m\u00fasica vagabunda \u00e9 extraordin\u00e1ria\u201d, disse. De fato, as notas musicais ressaltam aspectos que chegam a transformar o sentido das palavras, muito mais do que uma \u00eanfase de discurso. Mas neste caso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a letra que \u00e9 vagabunda.<\/p>\n<p>Nos tempos pouco exigentes que vivemos, a can\u00e7\u00e3o se destaca entre a sofr\u00eancia sertaneja e a pornofonia do funk carioca \u2013 e ganha o destaque que at\u00e9 outro dia era de Periguete de Internet, mas que j\u00e1 foi de Tiririca com a sua <em>Clementina<\/em>, de Sandro Becker nas rimas infames de <em>Julieta<\/em> e de Jo\u00e3o da Praia (\u201caonde a vaca vai, o boi vai atr\u00e1s\u201d). A lista \u00e9 incont\u00e1vel.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que a moda pega: uma s\u00e9rie de contrafa\u00e7\u00f5es musicais j\u00e1 aparece em todos os telefones, desde o indiz\u00edvel rap <em>Cata, Cata o Pequi<\/em>, at\u00e9 um certo Delmir Pereira, autor da inacredit\u00e1vel <em>Ch\u00e1 de Mam\u00e3o<\/em>. D\u00e1 saudade das m\u00fasicas vagabundas do passado. A vantagem \u00e9 que \u2013 espera-se \u2013 a modinha vai passar r\u00e1pido, como tudo hoje em dia.<\/p>\n<p>A replicagem de material ruim \u00e9 comum, principalmente depois da populariza\u00e7\u00e3o dos aplicativos de mensagens, e muitas vezes atinge o grau de epidemia, com o poder de irritar mais que sarna. E foi muito irritado que o nosso companheiro chegou ao bar, despejando improp\u00e9rios a outro colega, que havia mandado um \u00e1udio com a tal m\u00fasica da caneta azul.<\/p>\n<p>Diz ele que estava em reuni\u00e3o e imaginando ser alguma coisa urgente, clicou sem checar o conte\u00fado. Um gaiato lembrou que podia ser pior: o gemid\u00e3o. N\u00e3o resolveu; at\u00e9 porque a irrita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com o raio da caneta que o rapaz perdeu, mas com a interfer\u00eancia das mensagens na vida das pessoas.<\/p>\n<p>Nossa amiga radicalizou. Saiu de todos os grupos. Mesmo aposentada, perdia tempo demais com piadinhas, v\u00eddeos, textos espirituais e bobagens, depois de ser alertada pelo pr\u00f3prio aplicativo de mensagens que tinha ficado cinco horas e meia ligada naquela mix\u00f3rdia. \u201cQuem quiser falar comigo que me ligue\u201d, disse.<\/p>\n<p>As pessoas que ainda trabalham n\u00e3o podem se dar a esse luxo. Muitas mensagens s\u00e3o assuntos profissionais. Mas h\u00e1 uma nova etiqueta no mundo digital, que precisa ser observada. Avisar pelo aplicativo n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que avisar, ou convidar, muito menos marcar. Parece convite de carioca: \u201cpassa l\u00e1 em casa\u201d (mas n\u00e3o d\u00e1 o endere\u00e7o).<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 para ir ao bar. A\u00ed vale at\u00e9 sinal de fuma\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 1 de novembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A esta altura, todo mundo j\u00e1 ouviu a m\u00fasica da caneta azul. 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