{"id":740,"date":"2019-11-03T11:03:20","date_gmt":"2019-11-03T14:03:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=740"},"modified":"2019-11-03T11:03:20","modified_gmt":"2019-11-03T14:03:20","slug":"para-que-voar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/para-que-voar\/","title":{"rendered":"Para qu\u00ea voar?"},"content":{"rendered":"<p>Bicho de asa pode ir aonde quiser. \u00c9 dif\u00edcil imaginar algu\u00e9m que nunca tenha tido vontade de ser um passarinho, voar a esmo, como o menino (e futuro rei) Arthur no desenho animado <em>A Espada era a Lei<\/em>, de Walt Disney. Ele, transformado num pardal para conviver com a sabida coruja Archimedes, descobriu a magia de voar.<\/p>\n<p>Passarinho \u00e9, n\u00e3o por acaso, um sin\u00f4nimo de liberdade absoluta, ainda que, como toda independ\u00eancia, carrega seus riscos \u2013 no caso, um estilingue, uma espingarda de chumbinho ou, pior, uma gaiola. Mas o c\u00e9u \u00e9 o limite. De \u00e1rvore em \u00e1rvore, de poste em poste, um can\u00e1rio pode passar seus 10 anos de vida, um pardal pode viver seus tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>A\u00ed eu fico me perguntando porque aquele sabi\u00e1-laranjeira n\u00e3o sai do meu quintal. Eu sei que \u00e9 o mesmo passarinho porque s\u00f3 tem uma perna, a esquerda, e vive saltitando perto da jabuticabeira, embora d\u00ea rasantes para se aproveitar da ra\u00e7\u00e3o da Bagun\u00e7a, a boxer.<\/p>\n<p>\u00c9 um lugar de comida farta para bicudos e a \u00fanica amea\u00e7a \u00e9 o mau-humor dos bem-te-vis, parrudos e que piam mais alto; mas ainda assim s\u00e3o poucos metros quadrados para quem tem asas. Imagino que, se tivesse asas, n\u00e3o moraria em lugar nenhum.<\/p>\n<p>Pensei chamar o sabi\u00e1 de saci, mas al\u00e9m de soar preconceituoso, n\u00e3o condiz com a personalidade do ser de carapu\u00e7a vermelha, rebelde, bagunceiro, indom\u00e1vel. O sabi\u00e1 de uma perna s\u00f3 \u00e9 bem mais t\u00edmido; as vezes fica encarando, mas sempre de uma dist\u00e2ncia segura; e s\u00f3 gorjeia quando est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p>Ele se d\u00e1 bem com o casal de Jo\u00f5es de Barro \u2013 sim, ela tamb\u00e9m se chama Jo\u00e3o \u2013 que faz o maior escarc\u00e9u na pitangueira, esperando o bem-te-vi terminar de engolir os gr\u00e3os de ra\u00e7\u00e3o da cadela, depois de bat\u00ea-los contra a borda do pote de alum\u00ednio. Os tr\u00eas ficam sempre pr\u00f3ximos, sem d\u00favida se protegendo do valent\u00e3o de peito amarelo.<\/p>\n<p>O casal n\u00e3o mora no quintal; s\u00f3 aparece na hora de comer. Ao contr\u00e1rio dos dois asa-brancas que estufam o peito para arrulhar quase sem abrir o bico e que adotaram os galhos da mangueira como lar; os ovos n\u00e3o est\u00e3o mais no ninho, mas n\u00e3o h\u00e1 sinal de filhotes.<\/p>\n<p>Toda essa fauna sumiu recentemente quando os cajuzinhos do cerrado apareceram com seu vermelho vivo, atraindo um trio de imensas araras. Os outros p\u00e1ssaros devem ter se intimidado com as majestosas vestes de penas azuis e largas asas; sumiram todos. At\u00e9 os saguis, que pulam mas n\u00e3o voam, desistiram da visita matinal.<\/p>\n<p>Mas as araras prezam as asas que t\u00eam. Bastou a safra do cajuzinho passar que elas foram procurar outro lugar, ou lugar nenhum, como devia ser regra para quem pode voar. Os demais est\u00e3o de volta. O casal oleiro, que acredito ser o mesmo, embora n\u00e3o d\u00ea para afirmar; os dois asa-brancas (tamb\u00e9m conhecidos como pombas do mato), os valent\u00f5es bem-te-vis e at\u00e9 o sabi\u00e1 perneta, meu favorito.<\/p>\n<p>De que adiantam as asas se a gente n\u00e3o sabe para onde ir?<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 3 de novembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bicho de asa pode ir aonde quiser. \u00c9 dif\u00edcil imaginar algu\u00e9m que nunca tenha tido vontade de ser um passarinho, voar a esmo, como o menino (e futuro rei) Arthur no desenho animado A Espada era a Lei, de Walt Disney. Ele, transformado num pardal para conviver com a sabida coruja Archimedes, descobriu a magia de voar. 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