{"id":771,"date":"2019-11-30T19:47:39","date_gmt":"2019-11-30T22:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=771"},"modified":"2019-11-30T19:47:39","modified_gmt":"2019-11-30T22:47:39","slug":"musica-para-o-cerebro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/musica-para-o-cerebro\/","title":{"rendered":"M\u00fasica para o c\u00e9rebro\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Vov\u00f3 costuma dizer que surpresa faz mal ao cora\u00e7\u00e3o. Mas a m\u00fasica est\u00e1 desmentindo a senhorinha, que normalmente \u00e9 um po\u00e7o de raz\u00e3o, a partir das sensa\u00e7\u00f5es que a m\u00fasica oferece ao ouvinte. Foi exatamente a surpresa que fez uma can\u00e7\u00e3o bobinha, Ob-La-Di, Ob-La-Da, dos Beatles, ser considerada a mais perfeita m\u00fasica popular j\u00e1 escrita.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de mais uma dessas listas que aparecem de quando em vez para provocar celeuma. Setecentas m\u00fasicas gravadas entre 1958 e 1991 foram analisadas com o aux\u00edlio de computadores, o que resultou no estudo de 80 mil varia\u00e7\u00f5es de acordes, tendo como base a imprevisibilidade das mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Os humanos s\u00f3 entraram na fase final do estudo, mesmo assim com os ouvidos meio tapados e ajudados por uma m\u00e1quina de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional, que mediu a atividade na am\u00edgdala, hipocampo e no c\u00f3rtex auditivo, \u00e1reas do c\u00e9rebro que respondem pelo prazer musical. Quanto mais se iluminava, melhor a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ouviu exatamente m\u00fasica. As sequ\u00eancias de acordes foram apresentadas sem letra e sem melodia para que n\u00e3o fossem reconhecidas e pudessem influenciar no julgamento. As surpresas, ou seja, as modula\u00e7\u00f5es mais inesperadas, foram respons\u00e1veis pelas m\u00fasicas mais bem avaliadas.<\/p>\n<p>Depois da m\u00fasica dos Beatles, aparecem <em>Invisible Touch<\/em>, do Genesis, <em>Hooked on a Feeling<\/em>, de Blue Swede, e <em>I Want You Back<\/em>, de Jackson Five. O curioso \u00e9 que, dessas grava\u00e7\u00f5es, a \u00fanica que n\u00e3o chegou ao primeiro lugar da parada da Billboard foi exatamente a dos Beatles.<\/p>\n<p>Os Jackson Five alcan\u00e7aram a ponta em janeiro de 1970, os suecos Blue Swede em abril de 1974 e os brit\u00e2nicos Genesis em julho de 1986. Ob-La-Di, Ob-La-Da chegaria ao topo, mas sem Beatles e s\u00f3 na Gr\u00e3-Bretanha, na voz dos Marmalades \u2013 a gravadora CBS, sabendo que n\u00e3o seria lan\u00e7ado o compacto (single) dos Beatles com a can\u00e7\u00e3o, fez com que o grupo, ent\u00e3o iniciante, lan\u00e7asse. E deu certo, apesar de a grava\u00e7\u00e3o ser paup\u00e9rrima.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paul McCartney - Ob-La-Di, Ob-La-Da - HD en Brasil 720p HDTV\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mvbs07wwBjo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende que <em>Ob-La-Di, Ob-La-Da<\/em> seja a \u00fanica can\u00e7\u00e3o da fase adulta dos Beatles que teve a participa\u00e7\u00e3o de todos os quatro na cria\u00e7\u00e3o, embora seja registrada como obra de Lennon-McCartney e reconhecida como uma can\u00e7\u00e3o do baixista. O t\u00edtulo McCartney extraiu de uma express\u00e3o que Jimmy Scott, m\u00fasico nigeriano, vivia repetindo e que, na l\u00edngua iorub\u00e1, significaria \u201ca vida continua\u201d \u2013 \u2018life goes on\u2019, em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Paul contou que ele, Harrison e Ringo estavam trabalhando com o ritmo, um ska jamaicano, mas n\u00e3o saiam do lugar. At\u00e9 que Lennon, atrasado, chegou ao est\u00fadio e perguntou qual era o primeiro acorde; e atacou a introdu\u00e7\u00e3o com acordes velozes, percutindo o piano. O resultado \u00e9 que, h\u00e1 exatos 40 anos, a m\u00fasica vem inspirando pessoas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m colocou m\u00fasicas brasileiras em computador para saber se h\u00e1 alguma perfeita, ou que motive mais as pessoas. Seria dif\u00edcil escolher; talvez uma marchinha ca\u00edsse bem, embora a m\u00fasica brasileira n\u00e3o trabalhe muito com rupturas para surpreender o c\u00e9rebro do ouvinte. Mas eu votaria em qualquer uma que me fizesse parar de assoviar o dem\u00f4nio da Caneta Azul.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 24 de novembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vov\u00f3 costuma dizer que surpresa faz mal ao cora\u00e7\u00e3o. Mas a m\u00fasica est\u00e1 desmentindo a senhorinha, que normalmente \u00e9 um po\u00e7o de raz\u00e3o, a partir das sensa\u00e7\u00f5es que a m\u00fasica oferece ao ouvinte. Foi exatamente a surpresa que fez uma can\u00e7\u00e3o bobinha, Ob-La-Di, Ob-La-Da, dos Beatles, ser considerada a mais perfeita m\u00fasica popular j\u00e1 escrita. 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