{"id":774,"date":"2019-11-30T19:52:27","date_gmt":"2019-11-30T22:52:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=774"},"modified":"2019-11-30T19:56:36","modified_gmt":"2019-11-30T22:56:36","slug":"sem-aplausos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/sem-aplausos\/","title":{"rendered":"Sem aplausos"},"content":{"rendered":"<p>O mundo aplaude h\u00e1 pelo menos tr\u00eas mil\u00eanios. Inicialmente, bat\u00edamos palmas para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos deuses; depois, j\u00e1 na Gr\u00e9cia, os artistas se apropriaram do ato para pedir prote\u00e7\u00e3o, no que eram acompanhados pela audi\u00eancia; em Roma, aplausos serviam de aprova\u00e7\u00e3o para discursos pol\u00edticos \u2013 foi quando o incendi\u00e1rio Nero inventou a claque; chegava a levar cinco mil pessoas para aplaud\u00ed-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras formas de aprova\u00e7\u00e3o, como sorrisos, gritos, acenos, mas \u00e9 o aplauso que acompanha as manifesta\u00e7\u00f5es de maior alegria e satisfa\u00e7\u00e3o desde a mais tenra inf\u00e2ncia, nas festinhas de anivers\u00e1rio. O aplauso \u00e9 um gesto universal; at\u00e9 mesmo povos orientais, mais discretos, reverentes, renderam-se \u00e0 alegria de bater palmas.<\/p>\n<p>Depois de tanto tempo, a gente descobre que nem todo mundo gosta de palmas e, por isso, as Universidades de Manchester e Oxford, ambas na Gr\u00e3-Bretanha, proibiram a manifesta\u00e7\u00e3o em debates e palestras realizadas nos campi. Agora, se algu\u00e9m quiser mostrar aprova\u00e7\u00e3o por alguma ideia ou por algu\u00e9m ter\u00e1 que usar \u201cm\u00e3os de jazz\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, ter\u00e1 que sacudir as m\u00e3os como faziam os dan\u00e7arinos \u2013 e at\u00e9 alguns cantores \u2013 de teatro vaudeville que, para completar os passos, balan\u00e7avam as m\u00e3os e abriam o maior sorriso que a boca poderia suportar. \u00c9 o mesmo expediente usado pelos surdos.<\/p>\n<p>O motivo apresentado para aplaudir em sil\u00eancio, ali\u00e1s, seria evitar o desencadeamento de ansiedade nos alunos. Assim, alunos autistas, surdos ou com problemas sensoriais (seja l\u00e1 o que for isso) n\u00e3o teriam mais inc\u00f4modo com o ru\u00eddo provocado pelas palmas \u2013 n\u00e3o quero ser chato, mas eu tiraria pelo menos os surdos dessa lista; e talvez inclu\u00edsse os manetas, que est\u00e3o sendo claramente discriminados.<\/p>\n<p>Obviamente, isso faz parte daquela imensa novela \u2018n\u00e3o temos mais o que fazer\u2019 que vem assolando o planeta. No caso dos aplausos, \u00e9 s\u00f3 mais uma modinha, na sequ\u00eancia rid\u00edcula da pol\u00edtica (pseudo) correta que, oxal\u00e1, vai passar para que possa ser contada como piada no futuro. Ainda bem que nem tudo nas universidades merece aplausos.<\/p>\n<p>Por exemplo, ningu\u00e9m vibrou com o estudo desenvolvido por tr\u00eas psic\u00f3logos americanos, que ensinaram pombos a diferenciar um quadro de Monet de um Picasso. Ou com a tese, aprovada por banca, que mostra que a melhor forma de evitar escorreg\u00f5es no gelo \u00e9 usar uma meia por cima da bota. E nem com a comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da famosa Lei de Murphy, feita por um f\u00edsico ingl\u00eas, provando que a torrada sempre cai com a manteiga voltada para baixo.<\/p>\n<p>A curiosidade inerente aos cientistas \u00e9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para a conclus\u00e3o de que as mulheres piscam mais que os homens \u2013 19 vezes por minuto, contra 11 piscadas masculinas. Hoje tamb\u00e9m sabemos que ratos gostam mais de ouvir tocatas de Bach do que Sonatas de Beethoven. E que os peixes podem usar os puns para se comunicar.<\/p>\n<p>No mais, as festas de anivers\u00e1rio v\u00e3o ficar ainda mais insuport\u00e1veis. E eu s\u00f3 queria que algu\u00e9m me explicasse como faremos para cantar o <em>Parab\u00e9ns Pra Voc\u00ea<\/em> sem bater palmas. O festival de desafina\u00e7\u00f5es agora tamb\u00e9m ter\u00e1 ritmo atravessado.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 1 de dezembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo aplaude h\u00e1 pelo menos tr\u00eas mil\u00eanios. 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