{"id":781,"date":"2019-12-08T15:38:34","date_gmt":"2019-12-08T18:38:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=781"},"modified":"2019-12-08T15:38:34","modified_gmt":"2019-12-08T18:38:34","slug":"o-cortador-de-piada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-cortador-de-piada\/","title":{"rendered":"O cortador de piada"},"content":{"rendered":"<p>Contar piada \u00e9 uma arte. H\u00e1 o contador minucioso, que entra em detalhes, sai do trilho e, quando menos se espera, volta para o arremate, normalmente rindo mais do que quem ouve a hist\u00f3ria pela primeira vez; h\u00e1 o conciso, que usa poucas frases e normalmente \u00e9 cortante, frequentemente maldoso; o histri\u00f4nico, que muda a voz, se levanta, interpreta e exagera, o pornogr\u00e1fico, que acha palavr\u00e3o engra\u00e7ado, o verborr\u00e1gico, que emenda uma piada na outra, entre muitos outros.<\/p>\n<p>Toda boa roda de botequim tem que ter algum contador de anedota de repert\u00f3rio amplo, mem\u00f3ria prodigiosa e&#8230; paci\u00eancia. Ainda mais se de vez em quando aparecer na conversa um outro personagem, o cortador de piada. Sim; um conta, o outro corta, normalmente se introduzindo na hist\u00f3ria alheia, estragando o final.<\/p>\n<p>Toda boa piada tem seu cl\u00edmax no final. N\u00e3o \u00e9 como um conto, uma narrativa, um cordel ou at\u00e9 mesmo um \u2018causo\u2019, quando a gra\u00e7a muitas vezes est\u00e1 no desenvolvimento da a\u00e7\u00e3o. O fecho da piada tem que ser surpreendente, definitivo, deve conter toda gra\u00e7a em poucas palavras que muitas vezes torcem a l\u00f3gica exposta anteriormente.<\/p>\n<p>O cortador de piada \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como o chato. Por mais velha que seja o chiste, \u00e9 preciso respeitar o contador, ainda que n\u00e3o seja dos mais cativantes, que n\u00e3o tenha o brilho e a gra\u00e7a de um Chico An\u00edsio. O cortador muitas vezes interrompe a narrativa sem a menor cerim\u00f4nia, com aquela inoc\u00eancia insuport\u00e1vel dos enjoados \u2013 o chato de verdade nunca \u00e9 proposital; \u00e9 um tra\u00e7o de car\u00e1ter inato, o que s\u00f3 piora a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es piores, quando o chato se transforma no ladr\u00e3o de piada. Tamb\u00e9m querendo dominar o ambiente, o ladino se apodera da hist\u00f3ria alheia e conta o final, deixando o dono da anedota com a boca aberta e sem ter o que dizer. Foi o que aconteceu, n\u00e3o faz muito tempo, num famoso boteco da W2 Sul \u2013 ou melhor, famoso para n\u00f3s, frequentadores, j\u00e1 que n\u00e3o sai nas colunas de jornal.<\/p>\n<p>A noite ainda era juvenil, mas aquela turma dava impress\u00e3o de estar por ali desde o caf\u00e9 da manh\u00e3, tamanha a anima\u00e7\u00e3o. Cascos vazios de cerveja j\u00e1 tinham enchido um engradado e j\u00e1 eram colocados com a boca para baixo, entre os outros. Um dos rapazes come\u00e7ou a contar uma piada comprida e que era constantemente interrompida por coment\u00e1rios diversos por outro sujeito.<\/p>\n<p>Havia interessados na narrativa, at\u00e9 porque \u00e9 uma piada sobre advogados e os caus\u00eddicos s\u00e3o fregueses habituais do estabelecimento. O chato n\u00e3o sossegava, queria ser o centro das aten\u00e7\u00f5es e diante de tantos \u2018psius\u2019 pedindo sil\u00eancio, disparou:<\/p>\n<p>&#8211; Que tatu? N\u00e3o vi nenhum tatu por aqui!<\/p>\n<p>E se contorcia como o Orlando Furioso, da \u00f3pera de Vivaldi. Ele havia contado o fim da piada numa cena que s\u00f3 pode ser explicada pelo alto n\u00edvel et\u00edlico daquela mesa, quando o tempo fechou como uma final com Grenal. At\u00e9 hoje tem gente querendo saber como a piada chegaria ao tatu, mas tem medo de perguntar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 6 de dezembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contar piada \u00e9 uma arte. 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