{"id":789,"date":"2019-12-13T14:42:32","date_gmt":"2019-12-13T17:42:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=789"},"modified":"2019-12-16T13:20:46","modified_gmt":"2019-12-16T16:20:46","slug":"a-musa-que-cisca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-musa-que-cisca\/","title":{"rendered":"A musa que cisca"},"content":{"rendered":"<p>Nos grot\u00f5es brasileiros, onde o politicamente correto ainda n\u00e3o chegou, era chamado de abobado. Mas o rapaz tinha olhar esperto, era prestativo e sabia tudo sobre passarinhos \u2013 imitava alguns cantos, inclusive. Sabia at\u00e9 que sanha\u00e7o e pipira \u00e9 o mesmo bicho. E piava com aquela sonoridade aguda que a gente s\u00f3 ouve sair de garganta de passarinho e de soprano grega.<\/p>\n<p>E, ali na Serra do Cip\u00f3, contava alguma curiosidade sobre o bicho, antes de mudar para o pr\u00f3ximo canto, s\u00f3 se distraindo quando algum deles pousava por perto, chamando a aten\u00e7\u00e3o. Algumas vezes incorporava um S\u00e3o Francisco, pegava um punhado de quirela e abria a m\u00e3o. Alguns passarinhos mais abusados iam.<\/p>\n<p>Mais urbano, mas n\u00e3o menos curioso, Chic\u00e3o era outro que \u2013 entre um improp\u00e9rio e outro, no bar \u2013 desfilava conhecimentos sobre o mundo dos passeriformes. Mas n\u00e3o sei nem se sabia assoviar. E tamb\u00e9m n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de avaliar se toda aquela sabedoria n\u00e3o era apenas chute de gaiato.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam amantes dos passarinhos. O jornalista Silvestre Gorgulho, por exemplo, gostava de presentear os amigos com discos de gorjeios e livros produzidos por Johan Dalgas Frisch, que come\u00e7ou gravando os cantos com um cone de papel\u00e3o. O professor Luiz Gonzaga Mota prefere sair pelo mato a fotograf\u00e1-los.<\/p>\n<p>E tem o Bartolomeu Rodrigues, um renascentista. Jornalista reconhecido, escritor de m\u00e3o cheia, m\u00fasico (toca caj\u00f3n), contador de causos, empres\u00e1rio, sindicalista, degustador profissional de frutos do cerrado, apresentador de programa de r\u00e1dio sobre a m\u00fasica do cinema, fabricante de sorvetes e mais uma infinidade de talentos. Entre eles, o de retratista de passarinhos, quando atende pelo nome de Bart\u00f4.<\/p>\n<p>Faz poucos dias que ele encontrou uma curicaca nos gramados da cidade, onde ciscava e beliscava insetos incautos. Enxergou dignidade nos olhos do pequeno animal, o que n\u00e3o surpreende, pois trata-se de um parente \u2013 ainda que distante \u2013 da \u00edbis eg\u00edpcia, ave sagrada e que era mumificada e enterrada com os fara\u00f3s e que emprestou sua cabe\u00e7a para Toth, o poderoso deus da sabedoria e do tempo.<\/p>\n<p>\u00cdbis \u00e9 tamb\u00e9m uma equipe de futebol de Pernambuco, autoproclamado pior time do mundo, e que \u00e9 tamb\u00e9m a terrinha do Bart\u00f4, filho de Serra Talhada; para quem n\u00e3o sabe, a capital mundial do xaxado. Depois dele, o filho mais ilustre da cidade \u00e9 Virgulino Lampi\u00e3o, coroado rei do canga\u00e7o.<\/p>\n<p>Pois foi na pequena curicaca de olhar r\u00fatilo e bico altivo que Bart\u00f4 encontrou sua Mona Lisa. Ele j\u00e1 desenhou sabi\u00e1, seriema, periquito, coruja buraqueira, pomba rola e outros passarinhos, todos muito bem retratados pelos l\u00e1pis, lapiseiras e bast\u00f5es de pastel do artista. Mas foi na curicaca que ele encontrou a modelo ideal, sua obra-prima.<\/p>\n<p>Amigos acreditam que Bart\u00f4 foi hipnotizado pelo bichinho, encantamento que pode ser visto no brilho do olhar. A distra\u00e7\u00e3o pode ter sido o motivo de o artista, durante passeio com a cachorrinha, perder os \u00f3culos no gramado alto da quadra. Mas o poder do bicho-deus \u00e9 forte: dia seguinte, esperan\u00e7as quase perdidas, l\u00e1 estavam os \u00f3culos. Brilhando como os olhos desenhados da caricaca.<\/p>\n<p>P.S. &#8211; A curicaca da imagem deste post \u00e9 outra; n\u00e3o tem os olhos da musa do Bart\u00f4.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 15 de dezembro de 2019<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos grot\u00f5es brasileiros, onde o politicamente correto ainda n\u00e3o chegou, era chamado de abobado. Mas o rapaz tinha olhar esperto, era prestativo e sabia tudo sobre passarinhos \u2013 imitava alguns cantos, inclusive. 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