{"id":812,"date":"2020-01-03T10:24:47","date_gmt":"2020-01-03T13:24:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=812"},"modified":"2020-01-03T10:24:47","modified_gmt":"2020-01-03T13:24:47","slug":"comida-proibida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/comida-proibida\/","title":{"rendered":"Comida proibida"},"content":{"rendered":"<p>Amigo viajando \u00e9 quase sempre boa not\u00edcia, ainda mais quando s\u00e3o pessoas solid\u00e1rias como o simp\u00e1tico casal que, vira e mexe, vai a Belo Horizonte matar as saudades de familiares e antigos companheiros. E volta com a bagagem recheada.<\/p>\n<p>Sim, porque, por mais que Bras\u00edlia seja hoje uma cidade de ar cosmopolita \u2013 embora o bolor provinciano exale da pele de algumas pessoas \u2013 n\u00e3o se encontra tudo por aqui; ainda mais se forem especiarias regionais.<\/p>\n<p>O paladar movimenta o mundo desde os s\u00e9culos XIII e XIV, quando a pax mong\u00f3lica, impulsionou o com\u00e9rcio entre ocidente e oriente e mostrou que comida n\u00e3o era apenas para matar a fome, introduzindo temperos como cravo, canela, pimenta do reino e noz moscada.<\/p>\n<p>O efeito colateral veio no que temos hoje: esse monte de programas culin\u00e1rios na TV, cada qual com um chef mais grosso que o outro.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia \u00e9 poss\u00edvel ter acesso a temperos do mundo todo, desde as garrafadas prontas da Tail\u00e2ndia a misturas de ervas secas da Provence ou Lig\u00faria \u2013 e at\u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o do momento, o true lemon, cristais de lim\u00e3o, que podem vir misturados com alho e coentro, ou puros.<\/p>\n<p>Mas alguns produtos brasileiros s\u00e3o sonegados; est\u00e3o proibidos, sob desconfian\u00e7a ou sofrendo mudan\u00e7as radicais na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A carne de sereno, t\u00edpica do norte de Minas e sul da Bahia, por exemplo, est\u00e1 sumindo \u2013 ou pelo menos se transformando. Assim como a carne de sol nordestina como a conhecemos. As mantas n\u00e3o ficam mais expostas em varais. Hoje a desidrata\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em ambiente protegido, quase industrializado, o que altera o sabor e a textura.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil encontrar um cupua\u00e7u como o de Macap\u00e1, mas temos simulacros por a\u00ed; assim como temos queijos \u201ctipo\u201d canastra, pepinos em conserva industrializados \u2013 nenhum cozido com parras, no entanto \u2013 e outros quitutes que enganam \u00e0 primeira vista, e nos enchem de saudades.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, algu\u00e9m que v\u00e1 a origem, caso do casal amigo. Na bagagem deles vem sempre alguns chouri\u00e7os leg\u00edtimos. Feito com sangue su\u00edno misturado a um tempero de lim\u00e3o, sal, vinagre um pouco de fub\u00e1 de milho para deixar as tripas mais resistentes, o chouri\u00e7o \u00e9 um petisco que n\u00e3o agrada aos t\u00e9cnicos da vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria, ainda que passe por uma fervura que, l\u00e1 no interior, dizem que mata os germes.<\/p>\n<p>Em todo o Brasil \u00e9 proibido, ou pelo menos perseguido, assim como o c\u00e9rebro bovino \u2013 e por isso anda sumida a moqueca de miolo. A lei n\u00e3o \u00e9 clara, mas donos de a\u00e7ougue \u2013 por precau\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o oferecem os produtos para n\u00e3o correr o risco de atrair a fiscaliza\u00e7\u00e3o. Aqui, como no sul do pa\u00eds, tentam nos empurrar morcela, que parece mas n\u00e3o \u00e9 chouri\u00e7o.<\/p>\n<p>Os mineiros, com aquele jeito de falar sem dizer nada, deram um jeito de manter tanto o queijo canastra (feito de leite cru) e o chouri\u00e7o na mesa \u2013 miolo \u00e9 mais dif\u00edcil. E \u00e9 por isso que nossos amigos, como aconteceu semana passada, s\u00e3o recebidos com festa e faixa no botequim: \u201cBenvindos, Agustim, Kelly e chouri\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 3 de janeiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amigo viajando \u00e9 quase sempre boa not\u00edcia, ainda mais quando s\u00e3o pessoas solid\u00e1rias como o simp\u00e1tico casal que, vira e mexe, vai a Belo Horizonte matar as saudades de familiares e antigos companheiros. E volta com a bagagem recheada. 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