{"id":815,"date":"2020-01-03T10:42:29","date_gmt":"2020-01-03T13:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=815"},"modified":"2020-01-03T10:42:29","modified_gmt":"2020-01-03T13:42:29","slug":"um-otario-barato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-otario-barato\/","title":{"rendered":"Um ot\u00e1rio barato"},"content":{"rendered":"<p>Fim de um ano, in\u00edcio de outro, a gente fica suscet\u00edvel a um monte de bobagens. E foi assim que a mulher me pegou de surpresa, entrando na minha frente com o bra\u00e7o esticado e a m\u00e3o espalmada na altura do meu peito: \u201cVoc\u00ea tem coisa mandada; t\u00e1 tudo escuro. Vou ler a sua sorte\u201d, disse.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito c\u00ednico que fica no meu ombro esquerdo me fez pagar para ver, mesmo que o esp\u00edrito mais racional \u2013 o do ombro direito \u2013 ficasse me lembrando de um compromisso com hora marcada. Ainda consegui dizer que n\u00e3o tinha tempo para ir a lugar nenhum, mas a mulher j\u00e1 me tangenciou para fora da cal\u00e7ada, dizendo que a leitura seria ali mesmo.<\/p>\n<p>\u201cCad\u00ea o Tar\u00f4?\u201d, perguntei. Ela disse que n\u00e3o precisava de cartas, que tudo estava muito evidente e que leria o futuro numa nota de cinquenta reais. Era a primeira vez que eu ouvia dizer de algu\u00e9m que lia sorte no dinheiro, o que preocupou: s\u00f3 algu\u00e9m com muita cara de ot\u00e1rio receberia uma proposta assim. E era eu o ot\u00e1rio.<\/p>\n<p>Me imaginei numa letra de tango. Ot\u00e1rio \u00e9 uma palavra do lunfardo, o dialeto dos malandros portenhos, foi popularizada no Brasil em can\u00e7\u00f5es como <em>Otario que Andas Penando, Se Acabaron los Otarios<\/em> (ambas com Gardel) e El Otario (do uruguaio Gerardo Metallo ou na vers\u00e3o brasileira de Jo\u00e3o Dias).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jo\u00e3o Dias - OT\u00c1RIO (Garufa) - tango de Collazo, Fontain e Soli\u00f1o - vers\u00e3o de Moacyr Vieira\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SGRT0JPMyDI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>H\u00e1 quem defenda que a palavra surgiu a partir do nome cient\u00edfico da fam\u00edlia dos le\u00f5es marinhos \u2013 Otariidae \u2013 por serem animais lerdos e pesados, mas \u00e9 s\u00f3 um chute. E dos piores. Certamente n\u00e3o sou o sujeito mais esperto do mundo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o chego a ser um ot\u00e1rio \u2013 pelo menos era o que eu achava, at\u00e9 a mulher me encontrar.<\/p>\n<p>Eu disse que n\u00e3o tinha nenhuma nota de cinquenta no bolso, mas antes que pudesse festejar a minha contramalandragem, ela disse: \u201cQualquer nota serve\u201d.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o parava de falar; truque para confundir. Era uma esp\u00e9cie de cantoch\u00e3o sem m\u00fasica e modorrento, numa l\u00edngua parecida com o portugu\u00eas em que dizia que mau olhado era coisa s\u00e9ria, que algu\u00e9m queria me prejudicar muito, uma sucess\u00e3o de frases que me deixou meio narcotizado e curioso: onde ela ia chegar com aquilo?<\/p>\n<p>Nesse momento eu j\u00e1 tinha uma nota de vinte na m\u00e3o, me sentindo pelo menos trinta reais menos ot\u00e1rio, mas pensando que, se havia apostado R$ 50,00 no bol\u00e3o da Mega da virada com o pessoal do bar, podia me dar ao luxo de fazer mais uma fezinha \u2013 mesmo sabendo que aquela ali n\u00e3o tinha nem n\u00fameros escolhidos pelo Russo para serem sorteados.<\/p>\n<p>O resultado foi um truque de prestigita\u00e7\u00e3o. Claro que ela embolsou a grana, mas deu impress\u00e3o de transformar a nota numa ma\u00e7aroca de celulose, transformada em seguida em pequenas bolinhas espalhadas na m\u00e3o dela. E come\u00e7ou a ler bolinhas, mas n\u00e3o esperei pelo resultado; fui embora depois de mais umas frases sem nexo.<\/p>\n<p>Resultado: fiquei R$ 20,00 mais pobre e sem saber a sorte.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 5 de janeiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim de um ano, in\u00edcio de outro, a gente fica suscet\u00edvel a um monte de bobagens. E foi assim que a mulher me pegou de surpresa, entrando na minha frente com o bra\u00e7o esticado e a m\u00e3o espalmada na altura do meu peito: \u201cVoc\u00ea tem coisa mandada; t\u00e1 tudo escuro. Vou ler a sua sorte\u201d, disse. O esp\u00edrito c\u00ednico que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":816,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[438,25,437,123,436],"class_list":["post-815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-cigana","tag-cronica","tag-otario","tag-previsoes","tag-tango"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=815"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/815\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":817,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/815\/revisions\/817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/816"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}