{"id":829,"date":"2020-01-17T13:32:18","date_gmt":"2020-01-17T16:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=829"},"modified":"2020-01-17T13:32:18","modified_gmt":"2020-01-17T16:32:18","slug":"o-sommelier-de-pinga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-sommelier-de-pinga\/","title":{"rendered":"O sommelier de pinga"},"content":{"rendered":"<p>Toda vez que via um sommelier cuspindo o vinho que acabara de provar, meu amigo reclamava: \u201cQue desperd\u00edcio! Se fosse eu bebia tudo\u201d. Era s\u00f3 um chiste, nunca gostou de vinho, jamais abandonou a dourada cerveja \u2013 antes a faixa azul da Ant\u00e1rctica, hoje dando prefer\u00eancia \u00e0 Original ou Stella Artois.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas uma prefer\u00eancia; desde a adolesc\u00eancia derruba garrafas com tal vol\u00fapia que os amigos acham que ele gostava mesmo \u00e9 de ouvir o barulho da tampinha sendo aberta.<\/p>\n<p>Eis que o amigo cervejeiro seguiu a estrela que o destino marcou na testa dele e abriu um botequim. Houve apreens\u00e3o inicial, justificada \u2013 muitos achavam que ele acabaria com o estoque. Mas passou.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o dez anos de atividade, um sucesso com freguesia fiel, feliz com o tratamento e liberdade que um bom estabelecimento d\u00e1. Ele se mant\u00e9m fiel \u00e0 cerveja, continua alternando aquele mal humor t\u00edpico de dono de bar com a felicidade que extrai do copo, mas a profiss\u00e3o pediu mais.<\/p>\n<p>O fino paladar dos frequentadores exigiu que ele colocasse algumas garrafas de pinga \u00e0 venda, o que inicialmente foi feito a partir dessas listas que s\u00e3o publicadas aqui e ali, cheias de jurados que fazem cara de entendido.<\/p>\n<p>Nada de aguardente popular, dessas misturadas e que s\u00f3 servem para esquentar as tripas depois de agir pelas entranhas, uma mistura de diabo verde com soda c\u00e1ustica. Mesmo que n\u00e3o tivesse nenhum nome a zelar, cuida da freguesia.<\/p>\n<p>De vez em quando provava uma dose, tirava o sabor; come\u00e7ou a comentar, descobrir as diferen\u00e7as do retrogosto deixado pela madeira dos barris, a qualidade das branquinhas. Virou um conhecedor. Sem abandonar a cervejinha.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, em viagem a Belo Horizonte, aproveitou para renovar o estoque do boteco. As cacha\u00e7as mineiras t\u00eam o dom de enfeiti\u00e7ar. A mistura do terroir \u2013 a rela\u00e7\u00e3o entre o micro-clima e o solo de determinadas regi\u00f5es \u2013 com a alambicagem no ponto exato oferecem condi\u00e7\u00f5es ideais.<\/p>\n<p>H\u00e1 pinga boa em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Para\u00edba, interior de S\u00e3o Paulo, Santa Catarina e Goi\u00e1s, por exemplo. Mas em nenhum lugar h\u00e1 tanta pinga boa quanto em Minas. E o nosso amigo estava atr\u00e1s de r\u00f3tulos novos, ainda desconhecidos, at\u00e9 porque n\u00e3o queria pagar as exorbit\u00e2ncias que cobram quando a cacha\u00e7a chega \u00e0 fama.<\/p>\n<p>A simp\u00e1tica vendedora fez as apresenta\u00e7\u00f5es. Abria uma garrafa, botava uma dose no copinho e oferecia: bebe essa! E mais outra, outra. As que ele gostava mandava logo separar algumas garrafas.<\/p>\n<p>Se esqueceu da li\u00e7\u00e3o do sommelier, que bochecha e n\u00e3o bebe o vinho. Ele n\u00e3o s\u00f3 bebia tudo como estalava os bei\u00e7os em sinal de aprova\u00e7\u00e3o. Na quarta dose, ficou bonito; na quinta come\u00e7ou a esbanjar valentia e na oitava estava \u2013 al\u00e9m de valente e gostoso \u2013 rico. Muito rico.<\/p>\n<p>Foi arrastado \u00e0 for\u00e7a do local. No dia seguinte, cara inchada, gosto de cabo de guarda-chuva, s\u00f3 tomou fanta uva. As garrafas de cacha\u00e7as est\u00e3o no Butiquim do Tuim, na Quituart, mas ele nem olha para elas. S\u00e3o conhecidas como \u201cas que derrubaram o dono\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 17 de janeiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda vez que via um sommelier cuspindo o vinho que acabara de provar, meu amigo reclamava: \u201cQue desperd\u00edcio! Se fosse eu bebia tudo\u201d. 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