{"id":845,"date":"2020-02-02T17:07:08","date_gmt":"2020-02-02T20:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=845"},"modified":"2020-02-02T17:07:08","modified_gmt":"2020-02-02T20:07:08","slug":"recados-na-parede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/recados-na-parede\/","title":{"rendered":"Recados na parede"},"content":{"rendered":"<p>Quem entra no boteco e acredita no quadrinho pendurado na parede onde est\u00e1 escrito que o fregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o n\u00e3o sabe nada. Essa hist\u00f3ria de lei do consumidor n\u00e3o pegou na maioria dos estabelecimentos cong\u00eaneres do pa\u00eds; no boteco raiz a lei \u00e9 marcial, n\u00e3o tem para mais ningu\u00e9m al\u00e9m do propriet\u00e1rio, que muda os artigos e al\u00edneas a seu bel prazer.<\/p>\n<p>A m\u00e1xima do fregu\u00eas \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas varia de acordo com a simpatia do taberneiro que, como todo frequentador sabe, \u00e9 quase nenhuma, se \u00e9 que existe. N\u00e3o sei bem porque, mas faz parte da filosofia de todo bom boteco p\u00e9-sujo o maltrato ao cliente, especialmente ao mais frequente. E come\u00e7a com a cara feia.<\/p>\n<p>Pode ser um jeito que o camarada que fica atr\u00e1s do balc\u00e3o descobriu para combater o excesso de intimidade, que leva ao fiado e a outras coisas ainda mais desagrad\u00e1veis para eles. Se funciona nos barcos do S\u00e3o Francisco \u2013 especialmente depois que o escultor Bitinho, de Petrolina, criou a assustadora figura inspirada num filme de monstro japon\u00eas \u2013 pode ser que espantem os pingu\u00e7os de esp\u00edrito ruim tamb\u00e9m no bar.<\/p>\n<p>Parte do problema \u00e9 que o boteco \u00e9 o fund\u00e3o da vida. Como na sala de aula, \u00e9 ali que o pessoal da bagun\u00e7a se confraterniza folgadamente, o que piora em tempos como este, quando at\u00e9 a cervejinha est\u00e1 sob suspens\u00e3o. Aprendemos a desconfiar da pinga misturada com etanol, do u\u00edsque from Paraguai e at\u00e9 do brandy com gosto de gengibre, mas birra mortal \u00e9 novidade.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que, de alguma forma, o bodegueiro prefere deixar o sujeito constrangido, quase se desculpando por estar ali consumindo, deixando seu suado dinheirinho, sustentando n\u00e3o apenas o neg\u00f3cio, mas ele pr\u00f3prio, o dono.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo, os quadrinhos de boteco s\u00f3 traziam avisos mal-humorados, cheios de n\u00e3o: \u201cn\u00e3o jogue papel na privada\u201d, \u201cn\u00e3o jogue bituca no ch\u00e3o\u201d (este do tempo que podia fumar dentro do bar), \u201cambiente familiar, n\u00e3o fale palavr\u00e3o\u201d (do tempo que palavr\u00e3o era nome feio), \u201cn\u00e3o cante\u201d, \u201cquem demora no bar \u00e9 vagabundo\u201d. E o pior de todos: \u201cFechamos \u00e0s 23 horas. N\u00e3o insista\u201d.<\/p>\n<p>Mas de uns tempos para c\u00e1, com a chegada desses bares moderninhos, cheios de petiscos leves \u2013 \u201ctorresmo n\u00e3o tem, mas temos espeto de legumes\u201d \u2013 e cerveja artesanal, a coisa mudou. Os recadinhos s\u00e3o engra\u00e7adinhos, polidos e educados; alguns exploram trocadilho \u2013 \u201cminha vida \u00e9 um litro aberto\u201d \u2013, outros s\u00e3o piadinhas \u2013 \u201cdepois que li que beber faz mal, parei de ler\u201d, \u201caqui b\u00eabado n\u00e3o entra; s\u00f3 sai\u201d. E h\u00e1 os infames: \u201cn\u00e3o quero ser chato, s\u00f3 quer cer&#8230; veja\u201d.<\/p>\n<p>Alguns at\u00e9 conservam o esp\u00edrito original do bom boteco de se manter como um ref\u00fagio, como o que ensina o que dizer se a namorada ou \u2013 pior \u2013 esposa de algum conhecido ligar: \u201cEle n\u00e3o est\u00e1, nunca vi por aqui, ele n\u00e3o tem vindo mais\u201d; ou a definitiva: \u201ca namorada n\u00e3o deixa mais que ele fique com os amigos\u201d.<\/p>\n<p>Dos antigos, o \u00fanico quadrinho que ficou \u00e9 o que diz: \u201cFiado, s\u00f3 amanh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 31 de janeiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem entra no boteco e acredita no quadrinho pendurado na parede onde est\u00e1 escrito que o fregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o n\u00e3o sabe nada. 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