{"id":849,"date":"2020-02-02T17:12:59","date_gmt":"2020-02-02T20:12:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=849"},"modified":"2020-02-02T17:14:31","modified_gmt":"2020-02-02T20:14:31","slug":"ha-o-que-comemorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/ha-o-que-comemorar\/","title":{"rendered":"H\u00e1 o que comemorar"},"content":{"rendered":"<p>Esse neg\u00f3cio de efem\u00e9rides pessoais \u00e9 uma bobagem. H\u00e1 cem anos, nascia o fulano, h\u00e1 30 anos morria o beltrano&#8230; t\u00eam a mesma import\u00e2ncia dessas datas malucas que nos imp\u00f5em. Por exemplo: dia 18 de janeiro foi o dia internacional do riso. N\u00e3o sei se ando achando gra\u00e7a em muita coisa para poder mostrar os dentes.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, h\u00e1 quatro dias (30 de janeiro) foi o dia da saudade, logo esse tormento dos tradutores, considerada a s\u00e9tima palavra mais dif\u00edcil de ser transportada para outro idioma \u2013 a pior \u00e9 ilunga, do idioma tshiluba, do Congo, que descreve algu\u00e9m disposto a perdoar at\u00e9 uma segunda vez; nunca pela terceira.<\/p>\n<p>Pois eu n\u00e3o comemorei e n\u00e3o soube de ningu\u00e9m que tenha festejado o tal dia da saudade, como tamb\u00e9m nem vou ligar para o Dia do Amigo do Facebook, 4 de fevereiro, assim como espero n\u00e3o me lembrar que 28 de fevereiro \u00e9 dia da ressaca \u2013 s\u00f3 me faltava essa: um dia para lembrar do que a gente mais quer esquecer!<\/p>\n<p>Mas em 2020 o Brasil tem obriga\u00e7\u00e3o de lembrar os 40 anos da morte de Nelson Rodrigues. A liga\u00e7\u00e3o do dramaturgo com Bras\u00edlia \u00e9 t\u00eanue mas, ao mesmo tempo, arrebatadora como parece ser tudo que o cercava. Esteve na cidade \u2013 para usar express\u00e3o que popularizou \u2013 uma \u00fanica e escassa vez, quando descreveu primeiramente o caminho, a estrada de Belo Horizonte para a nova capital, \u201cque assombra com seu asfalto intermin\u00e1vel e \u00e9pico\u201d.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia n\u00e3o foi uma das obsess\u00f5es de Nelson Rodrigues, mas rendeu uma bela cr\u00f4nica-reportagem publicada pela \u00daltima Hora, que come\u00e7a com um pipi \u00e0 beira da estrada \u2013mocinhas \u201cfazendo de um arbusto o biombo do pudor\u201d \u2013 e chega ao encantamento com o p\u00f3 cor de canela que subia e que, segundo ele, no futuro, teria que ser reproduzido artificialmente. \u201cO p\u00f3 que curou a asma do Oto Lara Rezende\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Termina com a rendi\u00e7\u00e3o ao encantamento ao imaginar \u201co paralelep\u00edpedo mais analfabeto teria vontade de chorar l\u00e1grimas de esguicho ante a beleza de Bras\u00edlia\u201d e a ouvir seu dileto inimigo Gustavo Cor\u00e7\u00e3o confessar: \u201cEsta, sim \u00e9 a primeira missa do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues traduziu a alma nacional em suas pe\u00e7as, cr\u00f4nicas e romances a partir de aspectos morais, explorando o que h\u00e1 de mais abjeto no ser humano, retratados no cunhado amoral, nas ad\u00falteras, nos desejos e at\u00e9 no esp\u00edrito sem brio que ele sentia na na\u00e7\u00e3o. Numa hora em que os valores est\u00e3o servindo de estopim pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, sua obra precisa estar ainda mais presente entre n\u00f3s para que, nem que seja por meio do rid\u00edculo, o pa\u00eds possa novamente se enxergar.<\/p>\n<p>O dramaturgo criou frases provocadoras nesse esfor\u00e7o, mas deve ser ouvido por outras coloca\u00e7\u00f5es: \u201cAntigamente, o sil\u00eancio era dos imbecis; hoje, s\u00e3o os melhores que emudecem. O grito, a \u00eanfase, o gesto, o punho cerrado, est\u00e3o com os idiotas de ambos os sexos\u201d. Lembrando sua morte, quem sabe os brasileiros se conven\u00e7am que \u201ca grande vaia \u00e9 mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre, do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 2 de fevereiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse neg\u00f3cio de efem\u00e9rides pessoais \u00e9 uma bobagem. 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