{"id":858,"date":"2020-02-07T23:52:48","date_gmt":"2020-02-08T02:52:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=858"},"modified":"2020-02-07T23:52:48","modified_gmt":"2020-02-08T02:52:48","slug":"poesia-na-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/poesia-na-crise\/","title":{"rendered":"Poesia na crise"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos marciais, s\u00f3 a poesia pode mostrar que a vida ainda faz sentido. Poetas s\u00e3o pe\u00e7as de resist\u00eancia, formam a infantaria da emo\u00e7\u00e3o para combater a falta de raz\u00e3o que grassa de todos os lados. E Bras\u00edlia nasceu sob a influ\u00eancia da musa; ainda que encomendada, a seminal Sinfonia de Alvorada traz versos de Vinicius de Moraes.<\/p>\n<p>O poema busca a g\u00eanese na cidade a partir do ermo inicial, do agreste, das paisagens, at\u00e9 chegar \u00e0 \u00f3bvia mas fundamental constata\u00e7\u00e3o: \u201cPor entre as matas recortadas.\/ N\u00e3o havia ningu\u00e9m\u201d. Desde ent\u00e3o muitos poetas tentaram extrair versos de poeira e concreto e a cidade passou a ser cantada, como todas merecem ser.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o que vem, pelo menos, desde a Gr\u00e9cia antiga, quando os artistas eram acompanhados de seus forminx, esp\u00e9cie de citara simplificada, ao declamar versos. O mundo ficou imenso na mesma medida em que as dist\u00e2ncias encurtaram, mas a poesia vem sobrevivendo, cantando metr\u00f3poles e cant\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que entra Clim\u00e9rio Ferreira, que recentemente comemorou seus 40 anos de poesia, relan\u00e7ando seus tr\u00eas primeiros op\u00fasculos. Muito conhecido por suas can\u00e7\u00f5es, Clim\u00e9rio \u00e9, sem favor, um dos grandes poetas brasileiros; perscruta a alma humana ao mesmo tempo em que canta as coisas do seu Piau\u00ed natal.<\/p>\n<p>Mas o poeta tem duas aldeias a cantar. Bras\u00edlia est\u00e1 entranhada nele h\u00e1 d\u00e9cadas, tanto que outro dia mesmo, voltando do Piau\u00ed, ele escreveu: \u201cFeliz por ter ido\/ E feliz por voltar\/ \u00c9 muito bom ser de l\u00e1\/ E \u00e9 muito bom morar aqui\u201d.<\/p>\n<p>Mas ele foi ainda mais fundo, repisando o terreno por onde o grande amigo Vladimir Carvalho andou com o filme Conterr\u00e2neos Velhos de Guerra e fez um poema-\u00f3pera sobre os primeiros da grande aventura brasileira. \u00c9 uma viagem pelo tempo, com cor, cheiro e sabor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00d3PERA DA CONSTRU\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Clim\u00e9rio Ferreira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Corria o ano da funda\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Com o sol cobrindo o planalto vazio<\/p>\n<p>A retorcida vegeta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Sofria ao relento de frio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O c\u00e9u, e o c\u00e9u tomava tudo<\/p>\n<p>A circunfer\u00eancia do olhar<\/p>\n<p>Em cada quadrante uma cor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O c\u00e9u, imenso horizonte gra\u00fado<\/p>\n<p>Substituto perfeito do mar<\/p>\n<p>Que no espa\u00e7o se derramou<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vida era no N\u00facleo Bandeirante<\/p>\n<p>Cortado por muitas avenidas<\/p>\n<p>Uma favela transplantada<\/p>\n<p>Que crescia a cada instante<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vida era na Cidade Livre<\/p>\n<p>Presa a lembran\u00e7as trazidas<\/p>\n<p>Cheia de coisa deixada<\/p>\n<p>De sofrimento constante<\/p>\n<p>Uma poeira laranja<\/p>\n<p>Dava um aspecto de Marte<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A natureza abatida<\/p>\n<p>Na qual nada se esbanja<\/p>\n<p>E tudo parece arte<\/p>\n<p>Feita por planta torcida<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo mundo era candango<\/p>\n<p>Sem importar de onde vinha<\/p>\n<p>Aqui cruzaram sotaques<\/p>\n<p>Uniram-se bandido e anjo<\/p>\n<p>Velho com mo\u00e7a novinha<\/p>\n<p>Botas, polainas e fraques<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E tinha hotel de madeira<\/p>\n<p>E de madeira hospital<\/p>\n<p>E de madeira a igreja<\/p>\n<p>Casa de mulher sendeira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Padre Roque esbravejava<\/p>\n<p>Mandando aos quintos do inferno<\/p>\n<p>Quem ousasse assistir<\/p>\n<p>O Pagador de Promessa<\/p>\n<p>Naquele cineminha de madeira<\/p>\n<p>Da Avenida Central<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lama da rua<\/p>\n<p>Cheia de marcas de pneus<\/p>\n<p>E as taperas comerciais<\/p>\n<p>Que surgiam a cada momento<\/p>\n<p>Davam o ar de cen\u00e1rio<\/p>\n<p>Ao real faroeste brasileiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 9 de fevereiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos marciais, s\u00f3 a poesia pode mostrar que a vida ainda faz sentido. 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