{"id":862,"date":"2020-02-18T17:56:46","date_gmt":"2020-02-18T20:56:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=862"},"modified":"2020-02-18T17:56:46","modified_gmt":"2020-02-18T20:56:46","slug":"pulando-de-cara-feia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pulando-de-cara-feia\/","title":{"rendered":"Pulando de cara feia"},"content":{"rendered":"<p>Era para ser tr\u00eas dias de folia e brincadeira, como se cantava na marchinha, mas parece que o mau humor tomou conta at\u00e9 do carnaval. O que antes misturava lirismo, deboche, cr\u00edtica e at\u00e9 esculacho, virou panfleto. E panfleto \u00e9 chato, n\u00e3o combina com carnaval.<\/p>\n<p>Protesto combina. Ao mesmo tempo em que o foli\u00e3o pergunta \u00e0 jardineira porque est\u00e1 t\u00e3o triste, reclama da falta d\u2019\u00e1gua: \u201cTomara que chova\/ Tr\u00eas dias sem parar\/ A minha grande m\u00e1goa \/ \u00c9 l\u00e1 em casa n\u00e3o ter \u00e1gua\/ Eu preciso me lavar\u201d, cantou Emilinha Borba em 1950.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1949, Vocalistas Tropicais reclamavam da falta de moradia cantando \u201cdaqui n\u00e3o saio\/ Daqui ningu\u00e9m me tira\/ Onde \u00e9 que eu vou morar?\u201d, mesmo tema dos Quatro Ases e um Coringa: \u201cFrancamente, pra viver nessa agonia\/Eu preferia ter nascido caracol\/ Levava minha casa nas costas muito bem\/ N\u00e3o pagava aluguel nem luvas a ningu\u00e9m\u201d (Marcha do Caracol, 1950).<\/p>\n<p>O primeiro pol\u00edtico caricaturado por uma marchinha foi, provavelmente, Artur Bernardes, em <em>Ai, seu M\u00e9 (1921)<\/em>, mangando de uma suposta semelhan\u00e7a com um bode. \u201cO queijo de Minas est\u00e1 bichado, seu Z\u00e9\/ N\u00e3o sei porque \u00e9, n\u00e3o sei porque \u00e9\/ Prefira bastante apimentado, Iai\u00e1\/ O bom vatap\u00e1\u201d, numa refer\u00eancia ao oposicionista, Rui Barbosa.<\/p>\n<p>O poder n\u00e3o achou gra\u00e7a. Inicialmente an\u00f4nimos, os autores, Freire Junior e Luis Sampaio, foram presos logo que Bernardes assumiu a presid\u00eancia. Mas a galhofa continuou por outros carnavais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Ai seu M\u00e9&quot; - Francisco Alves - Disco Odeonette 103\/A - 1927\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uo6lKDewtNw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Nem \u00e9 preciso ir longe. H\u00e1 dois anos, o veterano Jo\u00e3o Roberto Kelly lan\u00e7ou <em>Al\u00f4, Al\u00f4, Gilmar<\/em>, brincando com a fartura de habeas corpus do ministro. \u201cEu tou em cana, vem me soltar\u201d, cantou o autor de Cabeleira do Zez\u00e9.<\/p>\n<p>Mas este ano parece que ningu\u00e9m quer saber de muita brincadeira. Tem at\u00e9 marchinha oficial do PT, com jeit\u00e3o de palavra de ordem: <em>Ai que Saudade do Meu Ex<\/em>, que diz \u201cLula t\u00e1 solto, mas pra gente ser feliz, \u00e9 Lula livre. O bandido era o juiz\u201d.<\/p>\n<p>Mais mal-humorado ainda \u00e9 o maranhense Zeca Baleiro que, sem a menor sutileza e a m\u00ednima vontade de brincar, lan\u00e7ou um EP (disco de quatro faixas) com marchinhas-quase-frevos que remetem \u00e0 origem b\u00e9lica do g\u00eanero \u2013 sim, antes do carnaval, marchas guiavam soldados nas campanhas.<\/p>\n<p>Em <em>Esc\u00f3ria<\/em>, ele d\u00e1 o tom: \u201cVou lhes dizer\/ O que \u00e9 arte e cultura\/ N\u00e3o vai crescer nem capim\/ Sobre vossa sepultura\u201d e n\u00e3o tem medo de avan\u00e7ar sobre o pantanoso terreno da escatologia em outras duas can\u00e7\u00f5es: \u201cO Brasil abriu a tampa do esgoto\/ S\u00f3 bichos escrotos\/ S\u00f3 ratos\u201d (<em>Bichos Escrotos II<\/em>) e \u201cRespeita Fernanda Montenegro, babaca\/ Voc\u00ea saiu de que cloaca\u201d (<em>Babaca Man\u00e9<\/em>). \u00c9 o carnaval black block, sutileza zero.<\/p>\n<p>Mas a gaiatice sobrevive. A marchinha <em>Cedae ou Desce<\/em> narra o sufoco carioca com a \u00e1gua suja e fedorenta que sai das torneiras: \u201cTem coc\u00f4 na minha \u00e1gua\/ Maior bagun\u00e7a l\u00e1 pros lados de Guandu\/ Vazou esgoto, que \u00f3dio, que gosto de terra, que gosto de (aqui entra a rima muito feia para ser publicada).<\/p>\n<p>Carnaval \u00e9 bagun\u00e7a; mas nem tanto.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 14 de fevereiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era para ser tr\u00eas dias de folia e brincadeira, como se cantava na marchinha, mas parece que o mau humor tomou conta at\u00e9 do carnaval. O que antes misturava lirismo, deboche, cr\u00edtica e at\u00e9 esculacho, virou panfleto. E panfleto \u00e9 chato, n\u00e3o combina com carnaval. Protesto combina. 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