{"id":870,"date":"2020-02-23T11:32:04","date_gmt":"2020-02-23T14:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=870"},"modified":"2020-02-23T11:32:04","modified_gmt":"2020-02-23T14:32:04","slug":"licenca-para-pecar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/licenca-para-pecar\/","title":{"rendered":"Licen\u00e7a para pecar"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval vive um paradoxo. J\u00e1 faz alguns anos que a folia nas ruas, o que antigamente se chamava de bloco de sujos, voltou com for\u00e7a, mas al\u00e9m de uma viol\u00eancia incomum para um per\u00edodo festivo e de suposta alegria e descontra\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica n\u00e3o se renova; s\u00e3o as velhas (e boas) marchinhas de sempre que embalam os foli\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas o que vem incomodando o pessoal do bar \u2013 todos foli\u00f5es aposentados \u2013 \u00e9 a falta completa de novidades. Para os mais radicais, o carnaval n\u00e3o faz mais sentido. Desde a origem, eram dias de liberta\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o, uma licen\u00e7a para pecar; hoje a bagun\u00e7a e libertinagem ocupam os outros 362 dias do ano \u2013 363 no caso de 2020.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem enxergue as saceias babil\u00f4nicas como as primeiras grandes farras. N\u00e3o tinha marchinha, mas seguramente havia algu\u00e9m com uma ocarina fazendo fuzu\u00ea; e na ocasi\u00e3o um prisioneiro passava dias sendo tratado como rei, at\u00e9 que ao final era decapitado \u2013 ou seja, era divertido, mas s\u00f3 at\u00e9 certo ponto.<\/p>\n<p>Os gregos criaram os bacanais, grandes festas desregradas, dedicadas ao vinho e \u00e0 carne crua. Mais tarde, os crist\u00e3os deram um car\u00e1ter religioso \u00e0 festa, mas ainda assim eram dias em que os santos fechavam os olhos para os pecados.<\/p>\n<p>O que anda incomodando o nosso amigo Faixa, hoje, \u00e9 que a atra\u00e7\u00e3o pelo proibido acabou. N\u00e3o precisa de carnaval para liberar dem\u00f4nios, excentricidades ou vergonhas. O mundo n\u00e3o precisa mais de bailes de m\u00e1scaras para rostos ocultos revelarem taras inconfess\u00e1veis, nem cacha\u00e7a na mamadeira \u2013 transviar \u00e9 parte do cotidiano.<\/p>\n<p>Para ele, n\u00e3o h\u00e1 mais a menor gra\u00e7a e n\u00e3o apenas por causa dos quase setenta outonos. \u201cHomem vestido de mulher era s\u00f3 no carnaval\u201d, disse. \u201cHoje al\u00e9m de se vestir de mulher o ano todo, o sujeito \u00e9 chamado pelo pronome feminino!\u201d.<\/p>\n<p>E foi relacionando fatos que eram exclusivos do reinado de Momo e que hoje fazem parte do dia a dia. Lembrou que mo\u00e7as ficavam mais liberadas, que b\u00eabados eram festejados, que drogas \u2013 lan\u00e7a-perfume \u2013 eram toleradas, que as pessoas faziam o que bem entendiam, recuperando a dignidade s\u00f3 na quarta-feira \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>Era como o personagem de Assis Valente, que tirava o anel de doutor para n\u00e3o dar o que falar e se fantasiava de Antonieta para dan\u00e7ar no Bola Preta at\u00e9 o sol raiar.<\/p>\n<p>Ao final, exaltado, decretou que o mundo tinha se tornado um imenso carnaval, virado do avesso e o rei Momo estava deposto. \u201cEsculhambaram a esculhamba\u00e7\u00e3o\u201d, disse com aquele olhar de saudade de tempos animados com confetes e serpentinas.<\/p>\n<p>A provid\u00eancia fez com que uma jovenzinha de cabelos roxinhos e collant estampado passasse ao lado, cheia de gra\u00e7a como na m\u00fasica, fazendo a corocada encolher as barrigas e se imaginar na praia com 30 anos a menos. Era digna de amadrinhar uma bateria. Antes que algu\u00e9m falasse alguma coisa, o Faixa se adiantou: \u201cPensando bem, tem vantagens. Antigamente a gente demorava o ano todo para ver um desfile como esse; hoje est\u00e1 aqui na porta e nem precisa esperar o carnaval\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 21 de fevereiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval vive um paradoxo. J\u00e1 faz alguns anos que a folia nas ruas, o que antigamente se chamava de bloco de sujos, voltou com for\u00e7a, mas al\u00e9m de uma viol\u00eancia incomum para um per\u00edodo festivo e de suposta alegria e descontra\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica n\u00e3o se renova; s\u00e3o as velhas (e boas) marchinhas de sempre que embalam os foli\u00f5es. 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